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Dias desgraçados

Sexta-feira, 20.01.17

  

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O melhor cronista português, Ferreira Fernandes, a escrever sobre o quão injusto pode ser o mundo e maus os homens. Sobre Trump e os dias desgraçados que escolhemos viver. Tão belo e tão triste.

 

“Um dia, vi um homem parar um carro pobre, numa estrada de terra vermelha, à entrada de uma ponte. Sobre um pilar estava uma bacia de esmalte rachado e nela laranjas pequenas. "Quanto?", perguntou o homem com uma camisa modesta. O miúdo negro disse: "Dois angolares." Sem outra palavra, o homem abriu a mala do carro. O miúdo fez rolar as laranjas na mala. O homem pôs na palma da mão estendida uma moeda de cinco tostões, um quarto do preço pedido. O miúdo nem esboçou um protesto, ficou na berma a ver o carro partir e a sentir a poeira assentar.

 

Um dia, li um camponês russo a falar com um dos irmão Karamazov. Tudo no camponês era subserviência. E tinha o filho ao lado. O Karamazov não bateu, esmurrou ou pontapeou o camponês - gestos brutos que poderiam ter passado por luta violenta. Esbofeteou-o, com pancada seca e calma, de quem sabe que nunca teria reação. Nada doeu mais do que o filho ao lado.

 

Um dia, na ala militar do aeroporto de Bogotá, estive na conferência de imprensa dada pelo embaixador americano. Ele falou sobre a luta contra os narcotraficantes e a esperança de apanhar em breve Pablo Escobar, o capo de Medellín. Depois, o embaixador disse que tinha mais declarações a fazer mas essas eram para os americanos e os da imprensa estrangeira. Os jornalistas colombianos saíram, cabisbaixos, expulsos em sua casa.

 

Um dia, entrevistei um líder guerrilheiro, num jango, enorme cubata circular. O líder esperava--me ao fundo, e as paredes do jango estavam cheias de dirigentes guerrilheiros e conselheiros do líder. Ao entrar, reparei, nunca soube porquê, num jovem de barba escassa e casacão escuro (era cacimbo, inverno austral), sentado à entrada. Finda a entrevista, o líder acompanhou-me à entrada, braço sobre o meu ombro. De repente, fez-me rodar e encontrei-me frente ao jovem de casacão, já de pé. "O senhor jornalista sabe quem é?", perguntou o líder. Adivinhei mas disse que não. "É o Wilson que vocês em Lisboa dizem que matei. Não o quer entrevistar?", disse o líder, e logo apareceram dois microfones. "Não entrevisto presos", disse eu. O jovem tinha os olhos mortos e foi mesmo morto, semanas depois, ele e a família.

 

Um dia, eu ia de elétrico e vinham duas peixeiras da Ribeira. Elas eram cabo-verdianas e falavam crioulo entre elas. Ao passar pelo Rato (os elétricos ainda por lá passavam), um passageiro endoidou de ódio e pôs-se a mandar as mulheres "para a terra delas." Havia lugares vagos mas elas não tinham ousado sentar-se por causa do cheiro das saias largas. Os insultos do homem apanhou--as com português curto e calaram qualquer resposta. Pousaram os olhos no trabalho, nas canastras deitadas no chão. Nem pareceu terem dado conta dos pescoços que não se viraram. Mas deram.

 

Um dia, eu estava com um militar, que então era do meu lado, a dizer a uma pessoa detida, porque do outro lado, que sim, podia pedir ao soldado de plantão para ir comprar cigarros à messe. Regressado o soldado, o preso deu--se conta de que, afinal, também não tinha fósforos: seria que lhe podiam acender o cigarro? "Ah, era para fumar? Isso, na cela, não pode", ouvi o "meu" militar a dizer, gozando com o detido confuso.

 

Um dia, era noite de verão, eu ouvia um homem a assobiar numa esplanada. Ele estava sozinho à mesa e bebia cerveja. Assobiava mambos e boleros, as janelas abriam-se e às varandas assomavam suspiros. Ele sabia e gostava do seu sucesso, na sua rua, mas fazia de conta que não o via. No fim de um bolero de Lucho Gatica, ele ia aclarar a garganta com um gole mas o copo voou até ao chão da esplanada. A mulher do homem do assobio estava com uma mão à cintura e a outra a apontar a casa: ala! Ela nunca produziu outro som, senão o copo a estilhaçar-se. Sempre calada, com o silêncio da autoridade que nunca conheceu resposta. Ele ia à frente dela, cabeça enfiada nos ombros, olhando o passeio, indiferente à rua e à humilhação. Mas não estava.

 

Um dia, um guarda-costas que me acompanhava em Argel, perguntou-me se eu sabia o que era uma bûche de Natal. Disse-lhe que sim. Era o bolo em forma de tronco de árvore que os franceses comem no fim do ano (como o nosso bolo-rei). Por essa altura, os terroristas islâmicos punham bombas por toda a Argélia e degolavam os ímpios que se expunham. O meu guarda-costas era bom muçulmano, mas tinha saudades da bûche, da infância com vizinhos franceses. No Natal passado tinha sabido de uma padaria que as vendia às escondidas. Foi lá, saiu pela porta de trás mas julgou adivinhar olhares ameaçadores. Abriu a camisa e escondeu o bolo, coseu-se às paredes e apressou o passo. Entrou em casa e tirou o bolo amassado, o chocolate já delambido - os filhos e a mulher olhavam-no, e ele chorou, derrotado. O meu guarda-costas era tropa de elite.

 

Um dia, depois desses dias que me formaram, hoje, eu dei--me conta de que um homem que varreu os adversários do seu partido amesquinhando-os, que apoucou deficientes, que rebaixou o heroísmo autêntico na guerra de um correligionário seu (ele, que para fugir dessa mesma guerra pretextou doenças que não tinha), que se me apresentou, em palcos públicos, sem compaixão por pais que perderam o filho, que achincalhou as doenças, verdadeiras ou inventadas por ele, da adversária, que levou a humilhação como a arma principal da luta política, um dia, dizia eu, vou ver esse homem a tomar o poder mais poderoso do mundo. Contra ele recuso-me, neste dia, a discutir as ideias dele, políticas, económicas ou ecológicas. A partir de amanhã, certamente. Hoje, tenho a dizer, tão-só, que é um dia desgraçado.”

 

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publicado por bolaseletras às 20:59

O gato

Sexta-feira, 20.01.17

gato_sam haskins.jpg

  Fotografia por Sam Haskins 

 

- Não consigo entender porque fugiste.

- Não era feliz.

- Porquê?

- Porque sabia que toda a minha inconstância não permitia que fosses feliz.

- Não percebo onde foste buscar essa ideia. E viver sozinha com um gato, faz-te feliz?

- A mudança tem sido uma constante da minha vida. Não sei porque ainda aí estás. Acho mesmo que na minha vida em permanente mudança és a única coisa duradoura, que fica.

- E isso faz-te feliz?

- Sim, não sei porque continuas aqui, mas gosto que aqui estejas.

- Eu gosto como tu és hoje, como gostava de como eras ontem, há 2 anos…A vida é mudança, só temos que saber entendê-la, entranhá-la.

- Por vezes sinto-me louca no meio deste constante movimento, mas se calhar és tu o louco por ainda permaneceres onde sempre estiveste.

- Eu acredito que os loucos, num mundo em permanente mudança, são aqueles que nunca mudam.

- Se calhar a mudança ou não-mudança depende menos da nossa vontade do que julgamos.

- Talvez. Mas a aleatoriedade das vontades e das mudanças pode ser uma bela forma de nos desculpabilizarmos por não mudarmos.

- Eu sei que vivo eternamente na corda bamba. Posso fazer por perder peso, mas se quiser medir 1.80 já não depende de mim.

- Não te esqueças de encher a tigela de leite. Há coisas que não mudam, os gatos não deixam de ter fome, eu não deixo de gostar de ti.

 

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publicado por bolaseletras às 09:40

A paixão de Bruno e Jorge, onde anda ela?

Quinta-feira, 19.01.17

 

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Não, não me obrigam a falar do meu Sporting e da crise que parece que por lá se instalou. Ok, pronto, eu falo, fui torturado pela curiosidade mórbida dessa multidão indistinta e confusa que é a dos fanáticos da bola! Esta manhã dizia a um colega que sofre das mesmas dores que, não advogando a saída de Bruno de Carvalho e de Jesus, é imperativo que estes deixem de focar a atenção e as responsabilidades em factores externos, assumindo sim o que correu mal e corrigindo o rumo. Bruno de Carvalho falou (porquê no facebook, presidente, porquê??? – Ah, espera, o futuro presidente dos EUA também fala à plebe pelo twitter, é moderninho), assumiu culpas e responsabilidades, conseguindo não falar de factores externos. É um começo. Ainda assim, quanto à explicação dos erros e ao que se vai fazer para mudar o rumo das coisas, quer-me parecer que não basta optar pelo emagrecimento do plantel e pedir o apoio dos sportinguistas para a coisa se compor. Continuo a aguardar que a paixão do presidente e o génio do treinador saiam da lâmpada de Aladino e se transformem em vitórias, paixão dos jogadores no terreno de jogo, bom futebol e, se possível, títalos, mister Jasus, os títalos que tanto queremos e prometeu!!! Vejam lá isso, meus senhores.

 

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publicado por bolaseletras às 10:28

"O sonho" (Pablo Picasso, 1932)

Quarta-feira, 18.01.17

 

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A mulher retratada no quadro foi amante de Picasso, de seu nome Marie-Thérèse. Os dois conheceram-se tinha Marie tenros 17 anos, quando Picasso a viu sair do metropolitano. Pablo agarrou Marie instintiva e repentinamente pelo braço e sussurrou-lhe: “Chamo-me Picasso. Nós os dois vamos fazer grandes coisas juntos”. Pablo não terá nascido nos Olivais, mas conhecia bem a velha máxima dos D. Juan desse mítico bairro: “O não é garantido, porque não arriscar”?

 

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publicado por bolaseletras às 09:53

Bom dia

Terça-feira, 17.01.17

 

William Klein.png

 

Vultos sem expressão, contornos dos rostos plastificados, trejeitos faciais mecânicos ou inexistentes. Movem-se silenciosamente umas por entre as outras, uma multidão de almas apressadas em uníssono, como se o destino estivesse há muito marcado, como se aquela fosse a última caminhada. Os olhares não se cruzam mais por desinteresse do que por receio, sinal de que só o mundinho em que se vive interessa, o restrito círculo familiar e de gente conhecida (amigos? esta gente terá amigos verdadeiramente?) é mais do que suficiente, esgotando qualquer outra vontade ou necessidade de interação. O mundo será tão melhor quando entrarmos no metro, numa qualquer loja ou supermercado e dissermos com um sorriso sincero e fraterno bom dia aos colegas passageiros, aos empregados e aos colegas consumistas. Está tão perto essa possibilidade de vivermos num mundo diferente para melhor que só um ser tão obtuso como o ser humano conseguiria tornar tão distante esse objectivo.

 

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publicado por bolaseletras às 09:39

Monday mood (não vale a pena, é como o meu Sporting, toca a levantar a cabeça!)

Segunda-feira, 16.01.17

  

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publicado por bolaseletras às 09:57

Mudar

Sexta-feira, 13.01.17

 

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Sair de casa pelas 7h da manhã, sentir o frio que atira para trás das costas a moleza dos lençóis de há minutos atrás, habituar os olhos à penumbra das cinzentas manhãs de Inverno. Fazer isto de calções sabendo que as próximas duas horas serão dedicadas ao ferro, ao suor em bica, ao corpo a desbravar anos de inércia, a uma mudança que teve que esperar pela minha vontade de mudar. Depois, como tudo, os hábitos entranham-se e, caso exista prazer nesse processo, entregamo-nos ao novo percurso e sentimos que aquela penumbra matinal é o nosso novo sol. A chave? Não mudar porque à nossa volta todos gritam “muda”, mudar porque dentro de nós chegou a vontade de mudar. Mas preparem-se, faz um frio do catano!

 

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publicado por bolaseletras às 09:56

A Raquel Welch armada em má e gira como nunca

Quinta-feira, 12.01.17

 

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publicado por bolaseletras às 09:41

Da passagem do tempo e da vontade de o festejar

Terça-feira, 10.01.17

  

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Sempre adorei as festas dos outros. Aniversários, casamentos, despedidas de solteiro, tudo o que envolvesse convívio bravo, aberto e fraterno, com boa comida e melhor bebida. Já no que toca a festejar o meu aniversário com pompa e circunstância já não o faço aí desde os 16 aninhos. Casamentos então nem vê-los, que eu gosto de arroz no cabelo mas é dos outros. Isto a propósito de mais um aniversário que amanhã chega e que conto passar discretamente, sem festividades nem grandes alaridos. Sempre fui dizendo que sou assim porque não gosto de palmadinhas nas costas em demasia nem de ser o centro das atenções. Não será defeito, talvez apenas feitio. Mas os anos passam e o auto-conhecimento das razões que pensávamos bem sabidas aprofunda-se. Será que a idade a avançar piora ainda mais esta má relação que tenho com os meus aniversários, mesmo que inconscientemente? Sim, é possível. Se há 30 anos um aniversário era promessa de mais uns centímetros, se há 25 era esperança de mais liberdade (isso, chegar mais tarde a casa), há 20 já a coisa piava mais fino, pois o peso da responsabilidade já amachucava e me entregava ao mundo. Hoje vejo mais além e, lá à frente, não vejo mais centímetros ou mais liberdade, mas sinto ainda mais o peso da responsabilidade agora que tenho que zelar pelo sono e pelos sonhos dos meus filhos. É mau, isso? Não, é o que é e o que tem que ser, e pode ser encarado com um sorriso nos lábios. Só não me peçam para lançar serpentinas, explodir com garrafas de champanhe e apagar velinhas. O que é demais é demais. Já agora, obrigado aos que me aturam vai para uma data de anos, alguns deles, pobres coitados, fará amanhã 42 anos. Beijos e abraços que amanhã a tasca está fechada, não para luto mas para profunda reflexão (ou para por o sono em dia).

 

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publicado por bolaseletras às 14:47

Muito obrigado, Senhor Presidente

Domingo, 08.01.17

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publicado por bolaseletras às 21:42





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