
"Parecia que, em todos os motéis onde pernoitava, tinha vizinhos que fornicavam como se o mundo fosse acabar: homens com má educação e fraca disciplina, mulheres que riam entredentes e gritavam. À uma hora da manhã, em Erie, Pensilvânia, a rapariga do quarto ao lado guinchava e ofegava como uma prostituta. Estava a ser comida por algum indivíduo finório e desprezível. Alfred culpou a rapariga por ser fácil. Culpou o homem pela sua complacente confiança. Culpou ambos por lhes faltar a consideração necessária para manterem as vozes baixas. Como era possível que não pensassem, ao menos uma vez, no seu vizinho, incapaz de pregar olho, do quarto ao lado? Culpou Deus por permitir a existência de semelhante gente. Culpou a democracia por o obrigar a tolerá-los. Culpou o arquitecto do motel por ter acreditado que uma única camada de tijolo barato preservaria o repouso dos clientes pagantes."
Ruído. Todo o ruído existe para os atormentar. O mundo nega-lhes o silêncio, os intermináveis sons que os perseguem perfuram-nos até ao âmago de si. Desesperados, horrorizados, apercebem-se que o próprio sexo, esse momento de enlevo, é transformado em circo animalesco pelos fanáticos da poluição sonora. O ódio pelos sons humanos é o ódio de quem nada quer ouvir, só o seu silêncio, só a paz encerrada no casulo da sua existência. Franzen fez de Alfred, o patriarca da família das infindáveis correções, o homem que no fundo só queria o seu silêncio, o homem que odiava os sons, a voz, as palavras dos outros. Quem só se ouve a si mesmo e à sua verdade dificilmente consegue viver sem ódio, dificilmente consegue na vida cruzar-se com o amor.