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Provavelmente

Quinta-feira, 27.04.17

 

amor ódio.jpg

 

Somos seres aparentemente “normais”, com vidas a maior parte das horas do dia dentro do espectro dessa aborrecida regularidade irritantemente previsível. É exactamente essa a razão que justifica a necessidade de, muito raramente, nos passarmos da marmita, transformando-nos em seres bipolares, e ousarmos o periclitante equilíbrio de viver no fio da navalha que é habitar sensações e mundos diametralmente antagónicos. O amor e o ódio por uma mesma pessoa num curto espaço de tempo - aquele que medeia entre um uivo de ódio e um beijo apaixonado que distam os escassos metros que separam a cozinha da cama – será o exemplo paradigmático. Mas haverá outros exemplos desta necessidade de libertação da absurda normalidade com que pautamos os nossos passos e medimos as nossas controladas palavras. Aquele livro que odiámos no Verão passado e que devoramos hoje como se a excelência da literatura se tivesse agora mesmo abatido sobre nós, aquele sabor forte e agressivo que quase nos fez vomitar há uns anos e agora não conseguimos não adorar. Aquela irritação inexplicável que submergia na pele sempre que ela falava e que hoje é música para os nossos ouvidos. Amamos e odiamos como quem respira e como quem retém a respiração com medo que tanto oxigénio seja demasiado para os nossos delicados pulmões. Amamos quase sempre dentro da norma, da propalada “normalidade”, com medo que tanto amor não nos caiba no coração. Provavelmente, é a semente desse medo a génese do ódio que não controlamos. Provavelmente.

 

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publicado por bolaseletras às 16:20





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