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Arranha-céus, por J.G. Ballard

Domingo, 06.08.17

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Em tempo de praias a abarrotar, de gente que se digladia para pedir uma imperial num qualquer balcão, nestes estranhos dias em que a canícula enlouquece os habitantes de automóveis que formam filas sem fim, quase que arrisco dizer que este livro poderia ser uma aproximação a uma horrenda realidade futura não tão distante como isso. Os 2.000 habitantes de um arranha-céus auto-suficiente percebem que a constante exposição do homem ao homem, com os seus interesses visceral e propositadamente opostos (ah, a doce atracção da luta por algo) é a melhor forma de proporcionar a aniquilação final do homem pelo homem. Ballard embala-nos nesta fábula do mal, contagiando-nos pela secura e naturalidade com que narra o crescendo do ódio e da banalidade do mesmo. Não queremos acreditar que um futuro próximo nos possa trazer algo semelhante mas olhamos para o passado não tão longínquo e reconhecemos o mal. Apenas o cenário mudou, para um supostamente moderno e aconchegante arranha-céus. Não nos deixemos iludir.

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publicado por bolaseletras às 23:44

O Sting é que a sabia toda

Quarta-feira, 19.07.17

 

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Sobre a polémica dos ciganos que vivem numa sociedade paralela integrados na nossa sociedade e sobre os homossexuais pouco Gentilmente destratados por um senhor com a idade de quem já deu a volta ao relógio e se instalou na confortável poltrona da idade da inocência tenho uma data de inócuas considerações a tecer. Tenho amigos homossexuais e nunca convidei ciganos para entrar lá em casa, mormente tenha jogado ao berlinde com alguns, levado uns cascudos de outro e conseguido escapar ao sangue violento de um vendedor colérico na feira do Relógio. Tenho isto a dizer que nada diz porque não me apetece defender teorias, tomar partido, insultar ideologias. Por mim, farto de gente que bate no peito e se arvora em dona incontestável da sua razão, todas as opiniões serão válidas se permitirem que todos nós consigamos viver com amigos do outro lado da barricada, mesmo que discordando até à medula disto ou daquilo, mesmo que não troquemos alianças ou visitas lá a casa. Quanto aos cascudos e à violência já não sou tão complacente como era em miúdo assustadiço e pouco dado a actos heroicos: olho por olho dente por dente, que isso de dar a outra face é nos filmes por altura do Natal. São monstros, os ciganos? Creio que não, mas regressando à infância com os olhos de hoje diria que são pouco mais que miúdos assustadiços que percebem que quem os olha de fora tem ainda mais medo que eles. Esta profunda reflexão atingiu-me as meninges após a distraída leitura de um comentário perdido por entre mais uma polémica facebookiana, pelo que tenho a acrescentar que isto é muito mais do que me apetecia falar sobre o assunto. Esperem, antes de colar aqui com cuspo o tal comentário perdido, apetece-me deixar apenas mais uma achega – tudo isto me faz lembrar um verso inesquecível de uma canção do Sting: “I hope the russians love their children too”.

 

“Chamava-se David Marcelino e era "o" cigano do 1ºA, minha turma do Camões do Areeiro. "Dunas" nunca tive mas palmou-me o estojo de dois andares que me tinham dado os meus pais como presente combinado de natal e anos. Aquilo era uma coisa linda. Cabrão. Também me deu algumas coisas: lembro-me particularmente de um olho negro, resultado de mo ter afagado com o pé, num gesto que só conhecíamos dos filmes do Bruce "Lim". Tudo por causa de uma super-gorila de morango, ácidas que eu sei lá mas as minhas preferidas e, pelos vistos, do David também. Depois, um dia de manhã, chegou à escola a chorar (lá dos problemas que tinha em casa mas que nunca partilhava) e ficou igual a nós, os que choravam. Nós com medo dele, ele com medo do pai. Recolhidas as lágrimas, nem se distinguiam. Chegados ao 2ºA já éramos amigos. Não jogava um caralho à bola.”

 

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publicado por bolaseletras às 15:24

Quem guarda os nossos guardas?

Terça-feira, 11.07.17

  

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Os 18 (18!!!) agentes de uma esquadra da PSP de Alfragide, todos os agentes dessa esquadra (todos!!!) foram acusados pelo Ministério Público, entre outros crimes, pela prática de crimes de tortura e racismo contra alguns jovens de etnia africana. Independentemente da punição exemplar, disciplinar e criminal, que venha a ser aplicada a estes elementos - caso as acusações venham a provar-se em sede de julgamento, claro está - é preciso, por uma vez, irmos mais longe. Quem, como, com que critérios são recrutados os agentes de autoridade que confiamos defenderão as nossas vidas e bens e a segurança dos nossos filhos? Estes 18 agentes de autoridade (custa tanto escrever isto, considerar que esta gente é agente de alguma coisa, quanto mais de autoridade) são sujeitos a que provas que comprovem a sua honorabilidade, humanidade, educação, etc. e tal, para o exercício de uma das missões mais nobres do Estado? Ou importará apenas a sua destreza física e conhecimentos técnicos? Quem são os responsáveis máximos por validar os critérios e regras que regulam o recrutamento desta gente? Quem permitiu esta desbunda total? Por uma vez, foquemo-nos nas questões por trás das questões imediatas e retiremos consequências sérias de mais uma vergonha nacional. O que é demais é demais.

 

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publicado por bolaseletras às 14:42

Provavelmente

Quinta-feira, 27.04.17

 

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Somos seres aparentemente “normais”, com vidas a maior parte das horas do dia dentro do espectro dessa aborrecida regularidade irritantemente previsível. É exactamente essa a razão que justifica a necessidade de, muito raramente, nos passarmos da marmita, transformando-nos em seres bipolares, e ousarmos o periclitante equilíbrio de viver no fio da navalha que é habitar sensações e mundos diametralmente antagónicos. O amor e o ódio por uma mesma pessoa num curto espaço de tempo - aquele que medeia entre um uivo de ódio e um beijo apaixonado que distam os escassos metros que separam a cozinha da cama – será o exemplo paradigmático. Mas haverá outros exemplos desta necessidade de libertação da absurda normalidade com que pautamos os nossos passos e medimos as nossas controladas palavras. Aquele livro que odiámos no Verão passado e que devoramos hoje como se a excelência da literatura se tivesse agora mesmo abatido sobre nós, aquele sabor forte e agressivo que quase nos fez vomitar há uns anos e agora não conseguimos não adorar. Aquela irritação inexplicável que submergia na pele sempre que ela falava e que hoje é música para os nossos ouvidos. Amamos e odiamos como quem respira e como quem retém a respiração com medo que tanto oxigénio seja demasiado para os nossos delicados pulmões. Amamos quase sempre dentro da norma, da propalada “normalidade”, com medo que tanto amor não nos caiba no coração. Provavelmente, é a semente desse medo a génese do ódio que não controlamos. Provavelmente.

 

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publicado por bolaseletras às 16:20

Bardamerda para a escassez de amor e o excesso de ódio

Segunda-feira, 06.03.17

 

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Quero-te assim, meu querido leão, cheio de garra e energia, sem receio do mundo e dos outros, sempre em busca da glória! Quero que venças sem atropelar os outros, sem os odiar. Quero que venças com amor, porque és melhor e não porque odeias com mais força! Vencer não significa esmagar, ter adversários não é o mesmo que ter inimigos. Se só te amar a ti contra tudo e contra todos nunca vencerei nada porque os outros não serão adversários mas sim meros alvos a abater. Não estarei a competir mas sim a guerrear, não saberei dar um abraço depois de uma contenda justa e aguerrida. E eu quero que o meu Sporting seja isso, quero que os meus filhos cresçam sabendo que o seu Sporting é um clube com garra mas com coração, que ama bem mais do que odeia. Veja lá isso Presidente, experimente pensar antes de falar. Dizem que por vezes dá frutos proveitosos.

 

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publicado por bolaseletras às 11:20

Dias desgraçados

Sexta-feira, 20.01.17

  

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O melhor cronista português, Ferreira Fernandes, a escrever sobre o quão injusto pode ser o mundo e maus os homens. Sobre Trump e os dias desgraçados que escolhemos viver. Tão belo e tão triste.

 

“Um dia, vi um homem parar um carro pobre, numa estrada de terra vermelha, à entrada de uma ponte. Sobre um pilar estava uma bacia de esmalte rachado e nela laranjas pequenas. "Quanto?", perguntou o homem com uma camisa modesta. O miúdo negro disse: "Dois angolares." Sem outra palavra, o homem abriu a mala do carro. O miúdo fez rolar as laranjas na mala. O homem pôs na palma da mão estendida uma moeda de cinco tostões, um quarto do preço pedido. O miúdo nem esboçou um protesto, ficou na berma a ver o carro partir e a sentir a poeira assentar.

 

Um dia, li um camponês russo a falar com um dos irmão Karamazov. Tudo no camponês era subserviência. E tinha o filho ao lado. O Karamazov não bateu, esmurrou ou pontapeou o camponês - gestos brutos que poderiam ter passado por luta violenta. Esbofeteou-o, com pancada seca e calma, de quem sabe que nunca teria reação. Nada doeu mais do que o filho ao lado.

 

Um dia, na ala militar do aeroporto de Bogotá, estive na conferência de imprensa dada pelo embaixador americano. Ele falou sobre a luta contra os narcotraficantes e a esperança de apanhar em breve Pablo Escobar, o capo de Medellín. Depois, o embaixador disse que tinha mais declarações a fazer mas essas eram para os americanos e os da imprensa estrangeira. Os jornalistas colombianos saíram, cabisbaixos, expulsos em sua casa.

 

Um dia, entrevistei um líder guerrilheiro, num jango, enorme cubata circular. O líder esperava--me ao fundo, e as paredes do jango estavam cheias de dirigentes guerrilheiros e conselheiros do líder. Ao entrar, reparei, nunca soube porquê, num jovem de barba escassa e casacão escuro (era cacimbo, inverno austral), sentado à entrada. Finda a entrevista, o líder acompanhou-me à entrada, braço sobre o meu ombro. De repente, fez-me rodar e encontrei-me frente ao jovem de casacão, já de pé. "O senhor jornalista sabe quem é?", perguntou o líder. Adivinhei mas disse que não. "É o Wilson que vocês em Lisboa dizem que matei. Não o quer entrevistar?", disse o líder, e logo apareceram dois microfones. "Não entrevisto presos", disse eu. O jovem tinha os olhos mortos e foi mesmo morto, semanas depois, ele e a família.

 

Um dia, eu ia de elétrico e vinham duas peixeiras da Ribeira. Elas eram cabo-verdianas e falavam crioulo entre elas. Ao passar pelo Rato (os elétricos ainda por lá passavam), um passageiro endoidou de ódio e pôs-se a mandar as mulheres "para a terra delas." Havia lugares vagos mas elas não tinham ousado sentar-se por causa do cheiro das saias largas. Os insultos do homem apanhou--as com português curto e calaram qualquer resposta. Pousaram os olhos no trabalho, nas canastras deitadas no chão. Nem pareceu terem dado conta dos pescoços que não se viraram. Mas deram.

 

Um dia, eu estava com um militar, que então era do meu lado, a dizer a uma pessoa detida, porque do outro lado, que sim, podia pedir ao soldado de plantão para ir comprar cigarros à messe. Regressado o soldado, o preso deu--se conta de que, afinal, também não tinha fósforos: seria que lhe podiam acender o cigarro? "Ah, era para fumar? Isso, na cela, não pode", ouvi o "meu" militar a dizer, gozando com o detido confuso.

 

Um dia, era noite de verão, eu ouvia um homem a assobiar numa esplanada. Ele estava sozinho à mesa e bebia cerveja. Assobiava mambos e boleros, as janelas abriam-se e às varandas assomavam suspiros. Ele sabia e gostava do seu sucesso, na sua rua, mas fazia de conta que não o via. No fim de um bolero de Lucho Gatica, ele ia aclarar a garganta com um gole mas o copo voou até ao chão da esplanada. A mulher do homem do assobio estava com uma mão à cintura e a outra a apontar a casa: ala! Ela nunca produziu outro som, senão o copo a estilhaçar-se. Sempre calada, com o silêncio da autoridade que nunca conheceu resposta. Ele ia à frente dela, cabeça enfiada nos ombros, olhando o passeio, indiferente à rua e à humilhação. Mas não estava.

 

Um dia, um guarda-costas que me acompanhava em Argel, perguntou-me se eu sabia o que era uma bûche de Natal. Disse-lhe que sim. Era o bolo em forma de tronco de árvore que os franceses comem no fim do ano (como o nosso bolo-rei). Por essa altura, os terroristas islâmicos punham bombas por toda a Argélia e degolavam os ímpios que se expunham. O meu guarda-costas era bom muçulmano, mas tinha saudades da bûche, da infância com vizinhos franceses. No Natal passado tinha sabido de uma padaria que as vendia às escondidas. Foi lá, saiu pela porta de trás mas julgou adivinhar olhares ameaçadores. Abriu a camisa e escondeu o bolo, coseu-se às paredes e apressou o passo. Entrou em casa e tirou o bolo amassado, o chocolate já delambido - os filhos e a mulher olhavam-no, e ele chorou, derrotado. O meu guarda-costas era tropa de elite.

 

Um dia, depois desses dias que me formaram, hoje, eu dei--me conta de que um homem que varreu os adversários do seu partido amesquinhando-os, que apoucou deficientes, que rebaixou o heroísmo autêntico na guerra de um correligionário seu (ele, que para fugir dessa mesma guerra pretextou doenças que não tinha), que se me apresentou, em palcos públicos, sem compaixão por pais que perderam o filho, que achincalhou as doenças, verdadeiras ou inventadas por ele, da adversária, que levou a humilhação como a arma principal da luta política, um dia, dizia eu, vou ver esse homem a tomar o poder mais poderoso do mundo. Contra ele recuso-me, neste dia, a discutir as ideias dele, políticas, económicas ou ecológicas. A partir de amanhã, certamente. Hoje, tenho a dizer, tão-só, que é um dia desgraçado.”

 

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publicado por bolaseletras às 20:59

Que mundo é este? Que Europa terá de ser a nossa para o enfrentar?

Sexta-feira, 15.07.16

 

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Quanto mal será preciso suportar no coração para matar dezenas de inocentes sem um piscar de olhos? Quanto ódio será necessário sentir a uma parcela da humanidade, a um conjunto de valores, a um estilo de vida e de civilização para chacinar impiedosamente pessoas inocentes e crianças? Sabemos que uma sociedade nunca será 100% segura, mas no nosso “mundinho”, na nossa cidade, nos nossos aeroportos, nos nossos estádios, nas nossas casas de espectáculo, no nosso bairro, não era assim que vivíamos há uns anos, a espreitar por cima do ombro, a tentar perceber o que se esconde por detrás daquela cor de pele mais escura ou daquele turbante. Provavelmente nós, portugueses, ainda não vivemos assim neste quase paraíso de segurança, mas vivem os nossos vizinhos e nós quando viajamos. Algo mudou, algo vai ter que mudar e o mundo como hoje o conhecemos não mais será o mesmo. Sabíamos que um dia atingiríamos o limite. Não gosto da política do olho por olho, dente por dente, porque quase sempre isso nos faz descer ao nível que verberamos. Mas algo vai ter que mudar. Deixo aqui este duro texto do Rui Ramos, para início de reflexão:

 

Haverá um momento em que já não chegarão os lugares comuns, a começar pelo mais cansado de todos: o apelo para não fazermos o “jogo dos terroristas”. Haverá um momento em que as vigílias e demais cerimónias do “Je suis” consolarão cada vez menos gente. Haverá um momento em que já quase ninguém terá paciência para mais um exercício de auto-flagelação a propósito da guerra do Iraque de 2003 ou do acolhimento dos imigrantes. Nesse momento, a vida nas sociedades ocidentais, tal como nos habituámos a ela, estará comprometida. Não será possível manter os padrões actuais de liberdade, tolerância e pluralismo numa sociedade sacudida por matanças regulares de cidadãos.”

O texto completo em: http://observador.pt/opiniao/esta-europa-pode-acabar-em-nice/

 

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publicado por bolaseletras às 09:12

Anita Ekberg, Fellini, amor, ódio, fama e esquecimento

Terça-feira, 12.04.16

 

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"When the film was presented in New York, the distributor reproduced the fountain scene on a billboard as high as a skyscraper. My name was in the middle in huge letters, Fellini's was at the bottom, very tiny. Now the name of Fellini has become very great, mine very little." - Anita Ekberg

 

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publicado por bolaseletras às 10:18

Um mundo ao contrário

Segunda-feira, 04.04.16

 

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Os días sucedem-se alucinantes na velocidade com que nos esmagam. O que ontem era assumido hoje esfumou-se na urgência imprevista, na incontornável obrigação de decidir em segundos, como se a melhor decisão fosse aquela que recrimina a ponderação e o tempo para a maturar. Abominam-se os estados de espírito estáveis. Se hoje sentimos o mesmo que ontem somos seres enfadonhos e tristemente previsíveis. Odiar hoje o que amámos ontem é o pão nosso de cada dia e o incrível vice-versa a manteiga que amolece o pão que o diabo amassou. Os beijos ontem desejados estilhaçaram-se nas 24 horas que passaram, deles resta apenas uma ténue neblina de esquecimento que estende um manto sobre almas e corpos que se atropelam, aglomerados de juízos e contra-juízos em circuitos entrecruzados onde só a permanente violação dos limites da reflexão e do sentir é consentida. Um mundo ao contrário.

 

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publicado por bolaseletras às 10:54

O quadro

Terça-feira, 29.03.16

 

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 Fotografia de Mariel Cortés

 

Entrei naquela morada sem pensar, somente para fugir da loucura em que me sentia afundar. A fachada do edifício e as pessoas que nele entravam inspiraram-me calma, normalidade, a possibilidade de impor a mim mesmo uma pausa no turbilhão que ameaçava estilhaçar-me. Nas paredes navego por obras de arte, algumas paisagens bucólicas, cenas da vida quotidiana, retratos e auto-retratos que me conciliam com a vida como ela quase sempre é ou devia ser, imagens que me devolvem ao que se pode chamar “normalidade”. Percorro todas as salas do museu até alcançar a última. Não vejo ninguém a entrar ou a sair e entro desprevenido. O quadro dilacera-me e reconduz-me aos braços da luxúria e do pecado, a paz de espírito passageira estilhaça-se nas sugestões de guerra, ódio e sexo desenfreado, alheado do amor e do prazer. Não emito qualquer som mas a única pessoa que contempla o quadro sente-me, fixa-me, transfere com o olhar toda a força da sua loucura, ignorando que, naquele preciso momento, todo o meu ser já não suporta nem mais um grama de demência.

 

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publicado por bolaseletras às 15:16





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