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A miragem

Sexta-feira, 10.11.17

 

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Ele insistia em perseguir o sonho impossível, navegando incessantemente no imediato e na descontrolada atracção que as labaredas da paixão sobre si exerciam. O futuro não o reconhecia, só aceitava o presente, como se amanhã fosse um dia longínquo muito além do seu horizonte. Ela embarcara nessa viagem pelas mesmas razões, pois não resistia à dança inebriante do fogo. Um dia, cansada de não ver o horizonte para lá da cortina de fumo produzida pelas labaredas, decidiu que o futuro venceria a outrora irresistível voracidade do presente. Ele sentiu o presente despedaçar-se, mas compreendeu. Apesar dos seus desejos imediatos e da bebedeira do momento, aprendera a amar, mais do que tudo, a serenidade nos olhos dela. E essa serena felicidade (?) era tão valiosa e tão merecida que estilhaçara os limites do hoje para todo o sempre, rumo a um futuro onde a sua presença pouco mais era que uma miragem.

 

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publicado por bolaseletras às 14:37

A doce meretriz

Domingo, 29.10.17

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O amor, essa puta sem dono nem rosto, é a centelha que nos alumia a via. Tudo o que somos e fazemos tem por fonte o excesso ou a ausência do amor, a sua busca, os enganos e desenganos com que essa doce meretriz nos tenta, fazendo de homens fracos lobos esfaimados, criancas ingénuas ou velhos sem fome de viver.

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publicado por bolaseletras às 07:01

A boneca de porcelana

Segunda-feira, 23.10.17

  

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Como eram belos os tempos em que nada era imediato, tudo envolvia dedicação, como o simples gesto de acertar com a agulha do gira-discos na ranhura certa do vinil. Seduzir não era carregar num botão que nos dirigia automática e friamente para a música pré-definida, era cuidar do disco para que não tivesse riscos e afagar a agulha em cada música, era tocar sem pressa num corpo de porcelana, era toda uma envolvência que simbolizava o privilégio de viver esse momento único e irrepetível. Hoje tudo é fácil, os engates estão à distância de um touch, uma queca pode ser só um desabafo de quem está aborrecido. Que saudades do vinil.

 

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publicado por bolaseletras às 09:25

O mergulho

Terça-feira, 17.10.17

  

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Sabia que a sua natureza era mais forte do que todas as regras e grilhetas que a sociedade ou os que a rodeavam pretendiam impor-lhe. Gostava dela assim, selvagem, indiferente a convenções e tabus artificiais, mas pedia-lhe por vezes alguma contenção. Mais por a querer só para si, o seu precioso segredo, do que pelo choque cultural que a atitude de uma mulher selvagem pudesse provocar nos outros. Quando ela lhe sorriu da soleira da porta, anunciando que ia estrear a praia junto à nova casa, devolveu-lhe o sorriso e pediu-lhe apenas para usar o lenço de praia que lhe cobria as belezas inigualáveis que tinha o privilégio e o desmedido prazer de conhecer até ao tutano. Ela desfez-se naquela gargalhada de miúda marota que o deixava desarmado, replicando que não ia a lado algum sem o seu muito amado lenço. Da janela, viu-a afastar-se em saltinhos de gazela, chegar à praia obedientemente coberta pelo tão amado lenço, sentiu a alegria contagiante que o sol abrasador e o mar em forma de céu líquido lhe transmitiam, e não conseguiu conter a gargalhada perante o espectáculo único que foi a sua entrada mar adentro. Live and let live.

 

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publicado por bolaseletras às 11:51

O beija-flor

Terça-feira, 10.10.17

  

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A garganta estava seca, as palavras evitavam abandonar a fonte estéril. Sentia a imaginação definhar e a inspiração longínqua. Os motivos por que outrora cravava sofregamente os dedos na caneta esfumaram-se nas idas e vindas da vida, nos encontros e desencontros com que o destino teimava em confrontá-lo. Sabia que um dia usaria esses reveses e as memórias já menos dolorosas como o fermento que faria germinar as palavras, mas neste momento sentia que, mais do que motivos para escrever, faltava-lhe vida vivida, intensamente vivida, que lhe trouxesse de volta a sofreguidão de estrangular a caneta. Faltava-lhe alguém para quem escrever, que lhe bebesse as palavras como o beija-flor bebe o néctar das flores, que o forçasse a espremer cada palavra como se fosse a última, como se o suco que jorrasse nas folhas fosse o elixir mágico que lhe devolveria a vida e a paixão de escrever.

 

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publicado por bolaseletras às 14:44

Recomeçar, sem nada deixar

Quinta-feira, 28.09.17

 

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Nunca dissera adeus. Em todos os momentos em que tivera que deixar algo ou alguém evitara sempre as despedidas. Não que as receasse, a sua dor, a sensação de perda, mas exactamente o contrário. Para ela nada fica para trás, tudo faz parte da estrada sem fim, tudo é matéria e não matéria que o corpo, a alma e o espírito absorvem naturalmente. Como se o seu ser fosse uma sanguessuga invertida, um parasita no bom sentido, pois a tudo se entregava, tudo possuía com a força da sua tímida mas destemida paixão de viver. A contradição aparente entre a timidez e a paixão eram toda ela. Os extremos habitados por um furacão que dormia nos seus braços de águas cálidas. Nunca olhara para trás. Não precisara. Estava sempre defronte de si, em si, o que já fora. O novo mundo era seu, agora, e na hora em que partisse. Cheirava a mar e a areia molhada. O beijo quente do pôr do sol ofereceu-lhe um sorriso, o primeiro de muitos.

 

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publicado por bolaseletras às 14:46

O William não era um tipo, digamos, assim muito para o optimista

Segunda-feira, 25.09.17

  

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publicado por bolaseletras às 13:02

Romance is never dead

Terça-feira, 12.09.17

 

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publicado por bolaseletras às 10:43

Até ao osso

Quarta-feira, 06.09.17

 

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Mais do que a solidão buscava o silêncio. Mais do que o afago do sol desejava a imensidão do mar. Ansiava somente pela sensação de que tudo o resto era mar, azul, inteiro, fiável, eterno e imune ao passar das horas, dos dias, dos anos. Mais do que essa sensação sonhava que um dia essa seria a sua realidade: ela e o mar, ela e nada mais. Soubera, desde o momento em que descobrira o amor, que era inevitável que o fim fosse esse. Não tivera, contudo, forças para abdicar de o viver até ao tutano, até que só restasse osso, dor e mar.

   

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publicado por bolaseletras às 10:18

Da série "Segredos mal escondidos"

Sexta-feira, 28.07.17

 

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publicado por bolaseletras às 15:21





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