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Provavelmente

Quinta-feira, 27.04.17

 

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Somos seres aparentemente “normais”, com vidas a maior parte das horas do dia dentro do espectro dessa aborrecida regularidade irritantemente previsível. É exactamente essa a razão que justifica a necessidade de, muito raramente, nos passarmos da marmita, transformando-nos em seres bipolares, e ousarmos o periclitante equilíbrio de viver no fio da navalha que é habitar sensações e mundos diametralmente antagónicos. O amor e o ódio por uma mesma pessoa num curto espaço de tempo - aquele que medeia entre um uivo de ódio e um beijo apaixonado que distam os escassos metros que separam a cozinha da cama – será o exemplo paradigmático. Mas haverá outros exemplos desta necessidade de libertação da absurda normalidade com que pautamos os nossos passos e medimos as nossas controladas palavras. Aquele livro que odiámos no Verão passado e que devoramos hoje como se a excelência da literatura se tivesse agora mesmo abatido sobre nós, aquele sabor forte e agressivo que quase nos fez vomitar há uns anos e agora não conseguimos não adorar. Aquela irritação inexplicável que submergia na pele sempre que ela falava e que hoje é música para os nossos ouvidos. Amamos e odiamos como quem respira e como quem retém a respiração com medo que tanto oxigénio seja demasiado para os nossos delicados pulmões. Amamos quase sempre dentro da norma, da propalada “normalidade”, com medo que tanto amor não nos caiba no coração. Provavelmente, é a semente desse medo a génese do ódio que não controlamos. Provavelmente.

 

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publicado por bolaseletras às 16:20

Hey babe...

Quarta-feira, 01.03.17

 

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Por vezes, mais do que necessário, é essencial para a sanidade e a sobrevivência como pessoa, como pessoa em toda a sua dimensão, sair da já tão falada zona de conforto, dar um passo bem para lá do que conhecemos, sentir o desconhecido, arriscar, expandir o corpo e as sensações para lá dos medos conhecidos, descobrir novos medos e novos mundos. Se nunca nos predispusermos ao que é novo nunca saberemos se conseguimos sair de nós, de ser mais do que o que conhecemos de nós, nunca deixaremos de ter aquela dúvida que nos atormentará até à cova: haveria mais felicidade para lá da cortina do medo e da aparente escuridão que ela ocultava?

 

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publicado por bolaseletras às 10:51

Tóquio, 1965, por Henri Cartier-Bresson

Domingo, 16.10.16

 

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O amor tantas vezes ali ao lado e tanta gente sem o ver e ele a passar ali ao largo, como se nada fosse, uma ligeira brisa, um quase imperceptível arrepio de frio, tanta gente distraída e sem dele se aperceber, porque não sabe a que sabe o amor, porque tem medo de se alambazar ou simplesmente por receio de repetir a deliciosa refeição por saber que depois dele a ressaca será avassaladora. Pode-se viver assim se a isso se puder chamar viver.

 

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publicado por bolaseletras às 02:00

O salto

Domingo, 28.02.16

  

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   Bárbara Fialho, fotografada por Gustavo Zylbersztajn

 

Podia continuar onde sempre esteve. O sítio não era confortável, longe disso, mas já o conhecia. Como conhecia os vizinhos, também os que apenas rondavam por ali, os amigos e os meramente conhecidos, os do “olá bom dia”. Sabia o que esperavam dela e o que podia esperar deles. Sentia-se por vezes sufocada, mas esse incómodo era menor do que mergulhar no desconhecido. Até ao dia.

 

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publicado por bolaseletras às 18:41

Contigo Paris

Sábado, 14.11.15

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publicado por bolaseletras às 00:15

Terrorismo, medo e egoísmos - receita explosiva para a desumanidade

Sábado, 19.09.15

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Custa-me cada vez mais, cada dia que passa, ler notícias sobre os refugiados (ou migrantes, que parece que é mais fino), ver fotografias de crianças em sofrimento, de pais desesperados por não conseguir livrá-las dessa dor física e psicológica. Custa-me, mais que tudo, porque é abjeto um mundo em que se deixam sofrer crianças sem nada fazer para minorar ou evitar esse sofrimento. Custa-me porque tenho consciência que todos os contributos que possa dar para mitigar essas atrocidades são ínfimos mas, sobretudo, por perceber que a sociedade onde vivo, a Europa onde me integro, pouco faz para encontrar soluções rápidas, eficazes e humanas. Como alguém disse, em poucas horas arranjam-se centenas de milhões para salvar um banco, mas disponibilizar umas dezenas de milhões para salvar crianças torna-se de repente uma missão quase impossível. Custa-me também - deixem-me ser sincero e mostrar um lado egoísta (isto de ser humano é tramado) - que a tristeza infligida por tantas imagens de cruel aflição que chispa dos olhos assustados de tantas crianças me faça sentir culpado da constante preocupação em proporcionar felicidade e bem-estar físico aos meus rapazes. Temo que a tristeza que essas imagens me transmitem manche a alegria que naturalmente sinto ao ver os meus filhos felizes, que diminua a alegria com que gosto de lhes retribuir a sua mera existência - como se o conforto e a felicidade deles fossem quase injustos face à dor e o sofrimento das outras crianças. Este egoísmo que me assola nasce também dos naturais receios de que a solidariedade europeia possa ser um cavalo de Tróia para a entrada de milhares de possíveis terroristas nas nossas fronteiras. Eu, homem comum, quero ser solidário, mas não esqueço estes egoísmos e receios. E aqueles que elegemos para guiar os nossos destinos, não deveriam estar melhor preparados para ultrapassar estes egoísmos e receios? E os olhos desta criança, não deveriam ser razão mais que suficiente para encontrarmos as respostas e as ferramentas que apaguem estes medos e egocentrismos, e assim cumprir o objetivo primacial de salvar esta criança? 

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publicado por bolaseletras às 21:18

Demasiadas luzes para tão pouca carne

Quarta-feira, 16.09.15

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Pior que o medo de nos desiludirmos é o medo de desiludirmos. Sobrevivemos à quebra de expectativas criadas quantos aos outros, mas somos capazes de soçobrar quando, aos olhos desses outros, nós próprios não correspondemos às suas expectativas. O que deveria ser uma consequência natural e possível dos mecanismos da interacção humana transforma-se num bloqueio relacional que nos devolve aos néones dos écrans, às redes sociais, a mais uma série com detectives, homicídios misteriosos e intrigas políticas. Sexo glorioso nos canais temáticos, emoções fortes nos melhores filmes do videoclube à distância de um clique no telecomando. Como se a vida não fosse de carne e osso, como se o medo da vida não fosse a sua absoluta negação.

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publicado por bolaseletras às 11:21

Um passo em falso, cadafalso

Quinta-feira, 14.05.15

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Fotografia de David Wojnarowicz, 1988

 

Dizia-me ele, de olhos rasos no chão e ombros em queda como lágrimas prestes a soltar-se de si, que sempre tivera tendência para caminhar rumo à sua dor. Se defronte de si surgia uma bifurcação era certo e sabido que o seu instinto o encaminharia para a morada errada, para mais uma estada de sofrimento. Nunca soubera a razão dessa atração pelo abismo, mas hoje, com o passar do tempo e um interminável rol de experiências de auto-flagelação, suspeitava que os receios com que enfrentava as opções que a vida lhe colocava no prato eram a principal determinante das suas escolhas. O negro atrai o breu, os receios clamam por uma existência de medo, somos o que sentimos.

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publicado por bolaseletras às 17:46

O gato preto

Segunda-feira, 02.03.15

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O túnel já era suficientemente escuro para lhe vergar a vontade de vencer o medo. Em simultâneo, no mesmo paralelo que habitava essa alameda de temor passeava-se uma voz rouca que lhe suspirava às meninges para recuar, para evitar o desconhecido cor de breu. Pensou que só faltava um gato preto para que todos os seus terrores de infância se reunissem naquela passagem, naquele trajecto que em tempos sonhara a conduziria do conforto bucólico mas enfadonho para uma vida real, a cheirar a flores reais, nada de plásticos ou de artifícios sem espinhos. Num repente, enredada na crescente convicção de que novamente se forçaria a desistir, sorriu, sentiu-se mulher, sentiu-se forte e ferozmente feminina, e dançou, dançou, dançou, dançou até rir estridentemente nas barbas do medo.

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publicado por bolaseletras às 18:00

Jogos perigosos

Quarta-feira, 25.02.15

 soldier making the long walk to defuse a car bomb

O ano da fotografia desconheço, mas o local é algures na Irlanda do Norte. O enquadramento é o de um soldado que se dirige, solitário e decidido, em direcção a uma carrinha, com o objectivo de desarmadilhar uma bomba nela colocada. No lado esquerdo da fotografia, um prédio amarelado pelo passar do tempo ou pela má pintura, um irónico e tenebroso convite para um encontro com Deus. O soldado caminha para o desconhecido sem pestanejar. Sabe que é aquela a sua missão, o seu trabalho, o destino de que não se pode desviar. Estas e outras palavras são obviamente supérfluas, tudo se decidirá no jogo de xadrez entre o terreno e o divino, existindo a secreta esperança de que o mesmo não esteja viciado à partida.

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publicado por bolaseletras às 17:13





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