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O mergulho

Terça-feira, 03.10.17

 

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O mergulho para lá da realidade conhecida é sempre um mergulho no escuro. Ponderamos, antecipamos, pesamos os prós e os contras, elaboramos meticulosas análises SWOT, mas nunca conseguiremos prever o que nos aguarda nas coordenadas até então incógnitas, nunca desvendaremos os ditames do destino. O que nos move, nos conduz em direcção à mudança, é a sensação de que o agora e o aqui nos desconsolam. Acreditamos que lá à frente, do outro lado de onde estamos, só pode ser diferente, quase de certeza para melhor. Hesitamos sem saber porquê, conduzidos pelos aborrecidos caminhos que o maldito bom senso nos atravessa na estrada de sonho, enquanto o vento que passa sussurra não ser possível saber se algo que desconhecemos será melhor do que aquilo de que actualmente pretendemos fugir. Este medo pode ser um confortável e cobarde convite ao imobilismo, ou pode ser o que nos move em direcção ao agridoce desconhecido. A decisão de ir ou ficar está sempre em nós, na fibra de que somos feitos.

 

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publicado por bolaseletras às 17:00

O Sting é que a sabia toda

Quarta-feira, 19.07.17

 

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Sobre a polémica dos ciganos que vivem numa sociedade paralela integrados na nossa sociedade e sobre os homossexuais pouco Gentilmente destratados por um senhor com a idade de quem já deu a volta ao relógio e se instalou na confortável poltrona da idade da inocência tenho uma data de inócuas considerações a tecer. Tenho amigos homossexuais e nunca convidei ciganos para entrar lá em casa, mormente tenha jogado ao berlinde com alguns, levado uns cascudos de outro e conseguido escapar ao sangue violento de um vendedor colérico na feira do Relógio. Tenho isto a dizer que nada diz porque não me apetece defender teorias, tomar partido, insultar ideologias. Por mim, farto de gente que bate no peito e se arvora em dona incontestável da sua razão, todas as opiniões serão válidas se permitirem que todos nós consigamos viver com amigos do outro lado da barricada, mesmo que discordando até à medula disto ou daquilo, mesmo que não troquemos alianças ou visitas lá a casa. Quanto aos cascudos e à violência já não sou tão complacente como era em miúdo assustadiço e pouco dado a actos heroicos: olho por olho dente por dente, que isso de dar a outra face é nos filmes por altura do Natal. São monstros, os ciganos? Creio que não, mas regressando à infância com os olhos de hoje diria que são pouco mais que miúdos assustadiços que percebem que quem os olha de fora tem ainda mais medo que eles. Esta profunda reflexão atingiu-me as meninges após a distraída leitura de um comentário perdido por entre mais uma polémica facebookiana, pelo que tenho a acrescentar que isto é muito mais do que me apetecia falar sobre o assunto. Esperem, antes de colar aqui com cuspo o tal comentário perdido, apetece-me deixar apenas mais uma achega – tudo isto me faz lembrar um verso inesquecível de uma canção do Sting: “I hope the russians love their children too”.

 

“Chamava-se David Marcelino e era "o" cigano do 1ºA, minha turma do Camões do Areeiro. "Dunas" nunca tive mas palmou-me o estojo de dois andares que me tinham dado os meus pais como presente combinado de natal e anos. Aquilo era uma coisa linda. Cabrão. Também me deu algumas coisas: lembro-me particularmente de um olho negro, resultado de mo ter afagado com o pé, num gesto que só conhecíamos dos filmes do Bruce "Lim". Tudo por causa de uma super-gorila de morango, ácidas que eu sei lá mas as minhas preferidas e, pelos vistos, do David também. Depois, um dia de manhã, chegou à escola a chorar (lá dos problemas que tinha em casa mas que nunca partilhava) e ficou igual a nós, os que choravam. Nós com medo dele, ele com medo do pai. Recolhidas as lágrimas, nem se distinguiam. Chegados ao 2ºA já éramos amigos. Não jogava um caralho à bola.”

 

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publicado por bolaseletras às 15:24

Provavelmente

Quinta-feira, 27.04.17

 

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Somos seres aparentemente “normais”, com vidas a maior parte das horas do dia dentro do espectro dessa aborrecida regularidade irritantemente previsível. É exactamente essa a razão que justifica a necessidade de, muito raramente, nos passarmos da marmita, transformando-nos em seres bipolares, e ousarmos o periclitante equilíbrio de viver no fio da navalha que é habitar sensações e mundos diametralmente antagónicos. O amor e o ódio por uma mesma pessoa num curto espaço de tempo - aquele que medeia entre um uivo de ódio e um beijo apaixonado que distam os escassos metros que separam a cozinha da cama – será o exemplo paradigmático. Mas haverá outros exemplos desta necessidade de libertação da absurda normalidade com que pautamos os nossos passos e medimos as nossas controladas palavras. Aquele livro que odiámos no Verão passado e que devoramos hoje como se a excelência da literatura se tivesse agora mesmo abatido sobre nós, aquele sabor forte e agressivo que quase nos fez vomitar há uns anos e agora não conseguimos não adorar. Aquela irritação inexplicável que submergia na pele sempre que ela falava e que hoje é música para os nossos ouvidos. Amamos e odiamos como quem respira e como quem retém a respiração com medo que tanto oxigénio seja demasiado para os nossos delicados pulmões. Amamos quase sempre dentro da norma, da propalada “normalidade”, com medo que tanto amor não nos caiba no coração. Provavelmente, é a semente desse medo a génese do ódio que não controlamos. Provavelmente.

 

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publicado por bolaseletras às 16:20

Hey babe...

Quarta-feira, 01.03.17

 

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Por vezes, mais do que necessário, é essencial para a sanidade e a sobrevivência como pessoa, como pessoa em toda a sua dimensão, sair da já tão falada zona de conforto, dar um passo bem para lá do que conhecemos, sentir o desconhecido, arriscar, expandir o corpo e as sensações para lá dos medos conhecidos, descobrir novos medos e novos mundos. Se nunca nos predispusermos ao que é novo nunca saberemos se conseguimos sair de nós, de ser mais do que o que conhecemos de nós, nunca deixaremos de ter aquela dúvida que nos atormentará até à cova: haveria mais felicidade para lá da cortina do medo e da aparente escuridão que ela ocultava?

 

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publicado por bolaseletras às 10:51

Tóquio, 1965, por Henri Cartier-Bresson

Domingo, 16.10.16

 

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O amor tantas vezes ali ao lado e tanta gente sem o ver e ele a passar ali ao largo, como se nada fosse, uma ligeira brisa, um quase imperceptível arrepio de frio, tanta gente distraída e sem dele se aperceber, porque não sabe a que sabe o amor, porque tem medo de se alambazar ou simplesmente por receio de repetir a deliciosa refeição por saber que depois dele a ressaca será avassaladora. Pode-se viver assim se a isso se puder chamar viver.

 

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publicado por bolaseletras às 02:00

O salto

Domingo, 28.02.16

  

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   Bárbara Fialho, fotografada por Gustavo Zylbersztajn

 

Podia continuar onde sempre esteve. O sítio não era confortável, longe disso, mas já o conhecia. Como conhecia os vizinhos, também os que apenas rondavam por ali, os amigos e os meramente conhecidos, os do “olá bom dia”. Sabia o que esperavam dela e o que podia esperar deles. Sentia-se por vezes sufocada, mas esse incómodo era menor do que mergulhar no desconhecido. Até ao dia.

 

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publicado por bolaseletras às 18:41

Contigo Paris

Sábado, 14.11.15

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publicado por bolaseletras às 00:15

Terrorismo, medo e egoísmos - receita explosiva para a desumanidade

Sábado, 19.09.15

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Custa-me cada vez mais, cada dia que passa, ler notícias sobre os refugiados (ou migrantes, que parece que é mais fino), ver fotografias de crianças em sofrimento, de pais desesperados por não conseguir livrá-las dessa dor física e psicológica. Custa-me, mais que tudo, porque é abjeto um mundo em que se deixam sofrer crianças sem nada fazer para minorar ou evitar esse sofrimento. Custa-me porque tenho consciência que todos os contributos que possa dar para mitigar essas atrocidades são ínfimos mas, sobretudo, por perceber que a sociedade onde vivo, a Europa onde me integro, pouco faz para encontrar soluções rápidas, eficazes e humanas. Como alguém disse, em poucas horas arranjam-se centenas de milhões para salvar um banco, mas disponibilizar umas dezenas de milhões para salvar crianças torna-se de repente uma missão quase impossível. Custa-me também - deixem-me ser sincero e mostrar um lado egoísta (isto de ser humano é tramado) - que a tristeza infligida por tantas imagens de cruel aflição que chispa dos olhos assustados de tantas crianças me faça sentir culpado da constante preocupação em proporcionar felicidade e bem-estar físico aos meus rapazes. Temo que a tristeza que essas imagens me transmitem manche a alegria que naturalmente sinto ao ver os meus filhos felizes, que diminua a alegria com que gosto de lhes retribuir a sua mera existência - como se o conforto e a felicidade deles fossem quase injustos face à dor e o sofrimento das outras crianças. Este egoísmo que me assola nasce também dos naturais receios de que a solidariedade europeia possa ser um cavalo de Tróia para a entrada de milhares de possíveis terroristas nas nossas fronteiras. Eu, homem comum, quero ser solidário, mas não esqueço estes egoísmos e receios. E aqueles que elegemos para guiar os nossos destinos, não deveriam estar melhor preparados para ultrapassar estes egoísmos e receios? E os olhos desta criança, não deveriam ser razão mais que suficiente para encontrarmos as respostas e as ferramentas que apaguem estes medos e egocentrismos, e assim cumprir o objetivo primacial de salvar esta criança? 

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publicado por bolaseletras às 21:18

Demasiadas luzes para tão pouca carne

Quarta-feira, 16.09.15

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Pior que o medo de nos desiludirmos é o medo de desiludirmos. Sobrevivemos à quebra de expectativas criadas quantos aos outros, mas somos capazes de soçobrar quando, aos olhos desses outros, nós próprios não correspondemos às suas expectativas. O que deveria ser uma consequência natural e possível dos mecanismos da interacção humana transforma-se num bloqueio relacional que nos devolve aos néones dos écrans, às redes sociais, a mais uma série com detectives, homicídios misteriosos e intrigas políticas. Sexo glorioso nos canais temáticos, emoções fortes nos melhores filmes do videoclube à distância de um clique no telecomando. Como se a vida não fosse de carne e osso, como se o medo da vida não fosse a sua absoluta negação.

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publicado por bolaseletras às 11:21

Um passo em falso, cadafalso

Quinta-feira, 14.05.15

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Fotografia de David Wojnarowicz, 1988

 

Dizia-me ele, de olhos rasos no chão e ombros em queda como lágrimas prestes a soltar-se de si, que sempre tivera tendência para caminhar rumo à sua dor. Se defronte de si surgia uma bifurcação era certo e sabido que o seu instinto o encaminharia para a morada errada, para mais uma estada de sofrimento. Nunca soubera a razão dessa atração pelo abismo, mas hoje, com o passar do tempo e um interminável rol de experiências de auto-flagelação, suspeitava que os receios com que enfrentava as opções que a vida lhe colocava no prato eram a principal determinante das suas escolhas. O negro atrai o breu, os receios clamam por uma existência de medo, somos o que sentimos.

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publicado por bolaseletras às 17:46





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