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No palco dos sonhos

Sexta-feira, 17.02.17

  

z_teatro.jpg

 

- Esta noite sonhei que estávamos numa peça de teatro. Fugimos da realidade e no palco, expostos a tudo e a todos, vivemos finalmente o sonho sempre adiado.

- Sonha meu querido. É para isso que serve a arte.

- Não minha sereia, a arte serve para criarmos o sonho perfeito. É a vida que o realiza, em todas as suas imperfeições.

- És um poeta.

- Diante de ti sou muito mais do que sou.

 

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publicado por bolaseletras às 12:13

"Caminharemos de olhos deslumbrados", por Ary dos Santos

Sexta-feira, 10.02.17

  

z_ary1.jpg

 

Caminharemos de olhos deslumbrados

E braços estendidos

E nos lábios incertos levaremos

O gosto a sol e a sangue dos sentidos.

 

Onde estivermos, há-de estar o vento

Cortado de perfumes e gemidos.

Onde vivermos, há-de ser o templo

Dos nossos jovens dentes devorando

Os frutos proibidos.

 

No ritual do verão descobriremos

O segredo dos deuses interditos

E marcados na testa exaltaremos

Estátuas de heróis castrados e malditos.

 

Ó deus do sangue! deus de misericórdia!

Ó deus das virgens loucas

Dos amantes com cio,

Impõe-nos sobre o ventre as tuas mãos de rosas,

Unge os nossos cabelos com o teu desvario!

 

Desce-nos sobre o corpo como um falus irado,

Fustiga-nos os membros como um látego doido,

Numa chuva de fogo torna-nos sagrados,

Imola-nos os sexos a um arcanjo loiro.

 

Persegue-nos, estonteia-nos, degola-nos, castiga-nos,

Arranca-nos os olhos, violenta-nos as bocas,

Atapeta de flores a estrada que seguimos

E carrega de aromas a brisa que nos toca.

 

Nus e ensanguentados dançaremos a glória

Dos nossos esponsais eternos com o estio

E coroados de apupos teremos a vitória

De nos rirmos do mundo num leito vazio.

 

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publicado por bolaseletras às 11:01

A casa de Vinicius e a Nação de Donald

Quarta-feira, 01.02.17

  

z_nação por terra 2.jpg

 

Era uma nação

muito engraçada

não tinha juízo

não tinha nada

ninguém podia

entrar nela, não

porque o Donald

não dava a mão

 

Ninguém podia

viver o sonho

porque a América

vive um pesadelo medonho

ninguém podia

fazer pipi

porque o Donald

é quem manda ali

 

Mas era feita

com muito jeito

a morte lenta

desse amor perfeito.

 

z_nação por terra.jpg

 

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publicado por bolaseletras às 12:01

O mergulho

Quarta-feira, 25.01.17

  

z_mergulho no mar.jpg

 

Nunca saberia se aquele seria o momento certo para o mergulho desejado, para a fusão tão esperada no abraço dos elementos, a comunhão mais inexplicável de sensações. Desconhecia igualmente se quando sentisse que aquele era o momento os elementos estariam disponíveis para a receber. O som das ondas devolvia-lhe a memória de mergulhos passados e, recordando toda a beleza e plenitude desses momentos, sabia que o próximo seria sempre único e inigualável. Contudo, hesitava. Porquê? Porque essa dança de avanços e recuos era também o que fazia do momento O momento.

 

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publicado por bolaseletras às 14:52

"Cântico negro", por José Régio

Quinta-feira, 05.01.17

 

z_regio3.jpg

 

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

 

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publicado por bolaseletras às 06:33

E para mais logo - personalidade, fé e poesia

Quarta-feira, 06.07.16

 

cr.jpg

 

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publicado por bolaseletras às 10:13

A lua e o corpo

Sexta-feira, 10.06.16

 

lua.jpg

  

Autor da Letra:

Rui Manuel

Autor da Música:

Alfredo Marceneiro

Intérprete:

Chico Madureira

Fado Tradicional:

Fado Menor com Versículo

 

Eis que a lua devagar te vai despindo

Atrevendo uma carícia em cada gesto

De tal modo é que a nudez te vai vestindo

E o teu corpo condescendo sem protesto

 

Mal os ombros se desnudam, surge o peito

Logo o ventre no desenho da cintura

Cada músculo detém o mais perfeito

Movimento, em sincronia com a ternura

 

Já as ancas se arredondam e projectam

Sobre as coxas, sobre os vales, sobre os montes

Onde as vidas, noutras vidas se completam

Quando o tempo é um sorriso, ou uma fonte

 

Fica a roupa amontoada junto aos pés

Quer dos teus, quer dos da cama que sou eu

Estendo a mão, apago a luz, que a nudez

Do teu corpo, fica acesa sobre o meu

 

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publicado por bolaseletras às 00:22

O rebanho

Sexta-feira, 20.05.16

  

John Trent.jpg

  Fotografia por John Trent

 

O olhar baço replicava as suas almas indiferenciadas.

A fuga desesperada da exclusão

do dedo acusatório a quem se afastava do caminho

mimetizou as suas almas e vontades numa paisagem de indistintas cores

de um branco sujo mesclado pelo cinzento do esquecimento

de transparências opacas imunes à luz do sol.

 

O caminho era agora uma infinita linha recta

paralela ao silêncio das almas penadas

uma estranha comunhão entre uma vida sem sentido

e uma morte que não se sente

pois já nada se sente.

 

O olhar resistia sem razão à força surda da ausência de vontades.

Viver era espreitar eternamente a fronteira indistinta do nada que jaz do outro lado do rio.

  

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publicado por bolaseletras às 08:13

O co(r)po (con)sentido

Quarta-feira, 17.02.16

  b1.jpg

 

Há imagens que me inspiram histórias e quimeras, outras que se entregam à sede do poema. Há quem meça o quanto se ama pelo quanto se sofre desse amor. Valerá a pena amar para sofrer assim? Sofre assim quem um dia sentiu amor?

 

 

Renego neste preciso instante o doce abraço deste copo.

Já te esqueci

muito para além da paixão etílica a que me entreguei

já sangrei a dor das feridas.

Sou esquecimento de ti e de mim

pureza da reconfortante sonolência

estou para lá da superlativa bebedeira.

O copo sou já eu

o veneno que me polui entranhou-se no meu sangue.

 

O que resta de ti sou eu neste bar cinzento e nebuloso

recordar e sofrer

recordar e sofrer

a dor já sem efeito sobre mim

tanto que sangrei já de ti.

O ciclo de auto-destruição dispensa mais acções

o trabalho está feito e bem feito.

 

Canonizei-me nos meus e só meus rituais de auto-mutilação

fiz de ti a minha cruz

o meu monte dos vendavais.

Emigrei para um país distante de mim

esqueci a língua mãe

penetrei na raíz dos pesadelos

abracei esta morte lenta

lenta

lenta.

 

Posso agora pedir a conta

entregar nas tuas mãos a gorjeta de uma vida sem sentido.

Bom proveito.

 

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publicado por bolaseletras às 23:59

O regresso da poesia - Saudade

Sexta-feira, 11.09.15

saudade.jpg

Na adolescência escrevia poemas com a frequência com que o Jardel metia a redondinha lá onde a coruja dorme. A juventude chegou e isso da poesia perdeu espaço para as coisas práticas da vida (copos, miúdas, copos e miúdas). A capa de gajo sensível que as moçoilas sempre apreciaram em mim (aquelas que valiam a pena) foi perdendo brilho à medida que os genes olivalenses ganhavam força, que macho que é macho anda lá agora a escrever parvoíces em forma de verso. Hoje, ainda longe da fase da vida Mário Soares “Estou-me a cagar para o que digo e para o que pensam do que eu digo”, terá chegado a altura de voltar atrás no tempo e, talvez, quem sabe, voltar a ser um pouco mais do que realmente sou. O que ontem foi um texto sobre a saudade, floriu e desabrochou num poema de saudade. Nunca é tarde para voltarmos a ser adolescentes, nunca é tarde para um poema.

 

Dizem que a saudade não se traduz

que a língua inglesa a desconhece

que é só nossa

esta ausência indefinível

esta dor sem cheiro.

Dói quem a vida nos abandonou

dói quem fica mas para sempre se perdeu.

 

Tenho saudades de tudo.

Dos dias sugados a jogar à bola na rua

dos amigos dispersos para lá dos oceanos

dos beijos que não dei

dos que dei e são já passado.

Saudade é bradar ao vento que o que hoje temos não chega

o que hoje se esvai só

nos lega o vazio

o que recebemos é sempre menos do que ontem tivemos.

Somos um povo estranho

marinheiros perdidos na inconsciência desta lusitana maldição.

 

Saudade é ser Verão todo o ano

sentir as memórias do sal a beijar o corpo

a espuma do mar a secar-nos na pele.

Saudade é impedir que os caminhos da memória

esbarrem numa parede nua e fria

é esgotar as palavras que estavam por dizer ou inventar

é deixar as memórias no lume brando da fogueira

que conforta as noites frias.

 

Tenho saudades dos joelhos esfolados na gravilha

dos beijos que dei ou que apenas sonhei.

 

O que somos é feito do passado que tecemos.

 

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publicado por bolaseletras às 15:30





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