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A distância na linguagem dos clichés

Terça-feira, 03.01.17

 

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“A distância não a encontramos no espaço que nos separa mas sim no silêncio com que povoamos esse espaço.”

 

Era capaz de ganhar a vida a inventar clichés quase tão geniais como este. Ou a ter a arrogância de pensar que os clichés com que interpreto a vida podem sequer roçar a genialidade.

 

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publicado por bolaseletras às 14:39

Por um 2017 em que efectivamente contemos

Segunda-feira, 02.01.17

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Vieram as festas e a azáfama cega das jantaradas, das prendas, das compras e trocas, da falta de tempo para o aprofundamento das confortáveis futilidades da vida, e ficámos no canto a assistir, como se todo aquele alucinante movimento que nos afastou de nós próprios fosse o propósito de uma vida que parece não nos considerar na equação da nossa própria vida. Depois, chegou o início de algo novo e supostamente renovador, nem que seja apenas mais um leque de 365 conjuntos de 24 horas, e arrancamos a toda a velocidade, atropelando tudo e todos, espezinhando o nosso eu que clama baixinho por um momento, por uma pausa, por um olhar para dentro. Bom 2017 mas, por favor, não se esqueçam de vocês.

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publicado por bolaseletras às 11:42

Teaser

Quarta-feira, 07.12.16

  

Stan Getz, playing at Cosmo Alley, Los Angeles, 19

Há dias em que tudo é preto e branco sem se sentir demasiado o peso das sombras nem a leveza da claridade. Há horas que queríamos repletas de sons na penumbra de uma aconchegante solidão, como que o prelúdio de algo grandioso, uma valsa sem fim e sem princípio, um eterno intervalo que nos afasta das alamedas polvilhadas de cores berrantes e exageradas. Há dias em que só queríamos escutar o roçagar daquele vestido preto naquele corpo que esconde todas as cores do arco-íris.

 

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publicado por bolaseletras às 17:17

O quadro

Terça-feira, 29.03.16

 

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 Fotografia de Mariel Cortés

 

Entrei naquela morada sem pensar, somente para fugir da loucura em que me sentia afundar. A fachada do edifício e as pessoas que nele entravam inspiraram-me calma, normalidade, a possibilidade de impor a mim mesmo uma pausa no turbilhão que ameaçava estilhaçar-me. Nas paredes navego por obras de arte, algumas paisagens bucólicas, cenas da vida quotidiana, retratos e auto-retratos que me conciliam com a vida como ela quase sempre é ou devia ser, imagens que me devolvem ao que se pode chamar “normalidade”. Percorro todas as salas do museu até alcançar a última. Não vejo ninguém a entrar ou a sair e entro desprevenido. O quadro dilacera-me e reconduz-me aos braços da luxúria e do pecado, a paz de espírito passageira estilhaça-se nas sugestões de guerra, ódio e sexo desenfreado, alheado do amor e do prazer. Não emito qualquer som mas a única pessoa que contempla o quadro sente-me, fixa-me, transfere com o olhar toda a força da sua loucura, ignorando que, naquele preciso momento, todo o meu ser já não suporta nem mais um grama de demência.

 

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publicado por bolaseletras às 15:16

Terapia

Quinta-feira, 04.02.16

   

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Os portugueses precisam de olhar para si e perceber o que os novos tempos lhes trazem. As angústias hoje são outras, os estados depressivos alastram como um vírus imbatível. Há quem fale, há quem chore, mas desconfio que a maioria esconde a dor de sofrer sem sequer perceber porquê. A RTP, conduzida pela mão sabedora de Virgílio Castelo, teve a excelente ideia e correu o risco de levantar o véu sobre essa dor, os seus ínvios caminhos, sobre um possível tratamento/alívio da mesma. Não falo da terapia, falo de deitar cá para fora, de falar. Por mais de uma vez disse a pessoas que se afundavam nesse nevoeiro de sentimentos que, caso não quisessem falar com um profissional, que escolhessem um amigo, um bom ouvinte, para falarem, para deitarem cá para fora, para chorarem. Como diz e bem o bom do Virgílio, é na dor que crescemos, mas se queremos ser felizes precisamos de afectos, de gente na nossa vida.

 

“O que fazemos de mais importante é nascer e morrer, e aí estamos sozinhos. (…) Há uma rede que se vai criando, porque fazer isto tudo é uma trabalheira enorme e não tem metade da graça. Mas quando olhamos para trás e pensamos na nossa vida, apercebemo-nos que é sempre na dor que crescemos. E nesses momentos, mais uma vez, estamos sozinhos. Tudo o que é estrutural na vida é feito sozinho, mas de facto aquilo que a física quântica está a provar agora é que podemos estar sozinhos mas fazemos parte do mesmo processo e não há energia que um de nós desencadeie que não tenha uma resposta do outro lado. E por isso essa rede de afectos que vamos construindo ao longo da vida é natural. Como diz a canção brasileira, “ninguém é feliz sozinho”.

 

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publicado por bolaseletras às 10:02

O frio lá fora

Segunda-feira, 01.02.16

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Noites frias que nos encerram em casa. O calor do lar, o frio que deixamos nas ruas, as pessoas que se isolam na desculpa perfeita. Darmos e recebermos nem sempre é fácil, sairmos do conforto das nossas convicções e aceitarmos os outros. Como crescer sem essas trocas, sem interagir com a diferença, sem tocarmos no que não acreditamos? A crescente tentação de mergulharmos na confortável filosofia do "conhece-te a ti mesmo" não será uma muito bem encenada fuga a esse processo único de crescimento que é conhecer o mundo e os outros? Ou, simplesmente, quem se busca a si mesmo oculta em frases bonitas e conceitos inexpugnáveis a comparação com o que desconhece? Diz-me quanto te dás, dir-te-ei quem és.

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publicado por bolaseletras às 21:20

A austeridade em tons cor de laranja

Terça-feira, 01.12.15

  

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O céu cor de cinza era um convite às caras fechadas, aos olhares vazios, ao silêncio que imperava no rotineiro trajecto casa-trabalho-trabalho-casa. Os velhos comportavam-se como velhos, numa espera soturna e religiosamente ascética, ausente de expressões e emoções, como estátuas carcomidas pelo tempo que aguardavam o regresso ao casulo solitário ou a chegada da eterna espera, a estrada sem fim do desconhecido. Os adultos, nem demasiado velhos nem irremediavelmente afastados da juventude (há ainda esperança para alguns que de quando em vez regressam à idade da luz), cumpriam o ritual como quem se prepara para dormir, sem vontade de gastar mais palavras ou sorrisos. Aquela era uma pausa nas interacções humanas e era assim que devia ser. Os jovens refugiavam-se na música que atavam aos ouvidos como se apertassem os atacadores dos sapatos – apenas mais uma tarefa na linha de montagem diária -, as crianças, contagiadas pela austeridade emocional, encolhiam-se no colo das mães, se sentadas, ou atarrachavam-se aos seus joelhos em horas de ponta. Estou plenamente convencido que a abolição dos autocarros seria um pequeno passo para o caos urbano mas um grande passo para a humanidade.

 

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publicado por bolaseletras às 14:41

Message in a bottle

Terça-feira, 11.11.14

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Queria soltar o grito que lhe apertava a garganta mas o som saía seco, quase morto, asfixiado pela vergonha de ter chegado a esse ponto. Pedir ajuda era como descer ao grau mínimo da condição humana, era assumir-se como não vencedor, um mero mortal sujeito às fragilidades dessa incómoda condição. No fundo da sua derrota estava uma fervilhante vontade de dizer a todos aqueles que ainda acreditava lhe queriam bem que precisava deles, de um abraço, de um empurrão, em suma, de ajuda. Estava preso em si, nos ensinamentos e ditames de uma sociedade que valorizava o sucesso e a capacidade de levar tudo à frente sem um braço em redor dos ombros, sem olhar para o lado, sem uma palavra de incentivo. Deixou o tempo passar, carcomido por dentro, enterrado na desesperança. Mais tarde, bem mais tarde, olhou em volta e sentiu-se finalmente acompanhado, integrado num grupo. Por todo o lado sentia aquela impotência, aquele silêncio desesperado, a ensurdecedora incapacidade de estender a mão, de verter uma lágrima, de clamar por um abraço ou uma palavra, um olhar que fosse.

Estas histórias imaginadas têm apenas um inconveniente – não há imaginação que não se sustente num pedaço de realidade. E a doença, muito mais do que a sua ausência, tem uma capacidade de multiplicação imparável, sobretudo se não controlada no momento devido. Be aware, be very aware.

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publicado por bolaseletras às 17:42

"Mujeres presas con sus hijas"

Quinta-feira, 07.08.14

 

Encontro por aí esta fotografia da autoria de Adriana Lestido, tirada em 1991 na Argentina, com o fantástico título de “Mujeres presas com sus hijas”. O título não é nada fantástico, é cruel, tenebroso, um curtíssimo resumo de uma história que dificilmente acabará bem. A imagem que as palavras ilustram é, ainda assim, mil vezes mais cruel, triste e vazia de esperança que as palavras que já de si continham demasiada desesperança para tão pequena frase. Se o medo, a dor do que aí vem e o sofrimento que se adivinha nos corpos pudesse ser apelidado de belo, bela seria esta composição, os olhos negros de animal assustado de uma mãe que não o deveria ainda ser, de uma cria tão frágil, tão desprotegida que parece afundar-se ainda mais naqueles braços que sabe sem o saber não conseguirão embalá-la na vida que deveria ser doce e bela. Mas a beleza nada tem a ver com isto, a beleza foi secamente riscada de uma fotografia que nunca será bela.

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publicado por bolaseletras às 18:45

Fazer das fraquezas forças ou das forças fraquezas

Quarta-feira, 23.07.14

 

Robert de Niro é Jake LaMotta. A personagem teve o poder de eclipsar da minha memória que por trás havia de facto um actor que criou uma personagem mais real do que tantas vidas. Devo ter revisto o Raging Bull várias vezes, a última já há alguns anos, e o sabor que me fica na boca sempre que a memória o ressuscita é de desespero, é de um sofrimento agudo, aquela indizível dor que nasce de uma força aparentemente imbatível que existe apenas para ocultar as fraquezas que só o são pela recusa da sua existência.

 

Jake La Motta: Did you fuck my wife?

Joey LaMotta: What?

Jake La Motta: Did you fuck my wife?

Joey LaMotta: [pauses] How do you ask me that? I'm your brother and you ask me that? Where do you get you're balls big enough to ask me that?

Jake La Motta: You're very smart, Joey. You're giving me a lot of answers, but you ain't giving me the right answer. I'm gonna ask you again: did you or did you not?

Joey LaMotta: I'm not gonna answer that. It's stupid. It's a sick question and you're a sick fuck and I'm not that sick that I'm gonna answer it. I'm leaving, If Nora calls tell her I went home. I'm not staying in this nuthouse with you. You're a sick bastard, I feel sorry for you, I really do. You know what you should do? Try a little more fucking and a little less eating, so you won't have problems upstairs in the bedroom and you pick on me and everybody else. You understand me, you fucking wacko? You're cracking up! Fucking screw ball ya!

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publicado por bolaseletras às 17:27





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