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A tradição já não é o que era

Sexta-feira, 12.04.24

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Famílias tradicionais, prazeres inconfessáveis, demónios ocultos sob a tranquilidade de uma equilibrada gestão da economia doméstica. Recordo sempre com saudade aquele professor do secundário mais severo e disciplinador, o que indubitavelmente seria encontrado por algum aluno a transgredir, ou com o cigarro errado no canto da boca, no recanto mais improvável dos infinitos botecos alfacinhas, ou com a mão no sítio certo da esposa errada. Ah os defensores dos valores tradicionais, os arautos do respeitinho é muito bonito, os idólatras do sexo como veículo único e omnipotente da (pro)criação eticamente assistida. Lençóis imaculados e passadinhos a ferro como recomenda a sogra, alvos como a impoluta esposa, a divina santa que recebe submissa e agradecida a semente do missionário, na respetiva e invariável posição religiosamente aconselhada. A inominável e abençoada pureza  que, natural e diabolicamente não satisfaz o lobo com vestes de cordeiro, o selvagem escondido por trás do aprumo e dos amados sacramentos, o homem insatisfeito que dedicará a vida a procurar quem lhe sacie o desejo animal, mas que não abdicará de passar metade dos seus dias a chicotear na praça pública os devassos e as prostitutas sem valores, tudo enquanto esconde a restante metade da existência  por trás dos seus pecados e transgressões. E as esposas, essas incompreendidas santas, as esposas que se amam como mães e que amargamente choram o desconhecimento da verdadeira paixão, as que sonham sentir algo mais do que o jorro mecânico e precoce que as ensinaram a receber, as penitentes alunas, as que bebem a doutrina que lhes impregnaram sob a pele de que era só o que havia a receber.

Benditas as que provaram o fruto proibido, benditas as que escolheram homens que querem que elas sejam efetivamente mulheres, seres pensantes e livres, corpos excitados e fontes de amor e orgasmos, existências únicas e autónomas. Um homem que realmente ame as mulheres sabe, em toda a sua plenitude, que uma mulher assim, uma mulher verdadeiramente mulher, será sempre em diversas áreas da condição humana um ser a cuja sombra terá de se sujeitar. Um homem que não tenha receio da natural superioridade feminina, que estimule e potencie esse vulcão de energia e amor, é o verdadeiro amante da mais bela flor do universo.

 

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publicado por bolaseletras às 14:42

Marilu, Justino e a fonte dos males da condição humana

Quinta-feira, 01.06.23

   

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Fotografia de André Steiner

 

Por entre dois dedos de conversa, sem grande expectativa no que por aí viria, há uns dias um amigo decidiu de forma leve, como quem descasca e engole dois tremoços amaciados por um golo de imperial, brindar-me com uma simples e cortante reflexão sobre a origem dos males da condição humana. Dizia ele, enquanto analisava distraidamente a espuma da cerveja a esfumar-se das paredes do fino vidro, que a insatisfação é a principal característica que nos distingue dos animais. Somos o único bicho que nunca se contenta. Que não aproveita realmente, mesmo que por momentos pareça que o está a fazer. Somos o único ser vivo que nunca está presente. Estamos sempre a pensar no amanhã que virá, que esse amanhã será melhor. Os animais não têm futuro, é-lhes conceptualmente vedado. Por isso, vivem no presente, vivem-no mesmo, porque nada mais há para eles. A insatisfação é a essência do ser humano.

Bebo-lhe as palavras enquanto a imperial amolece no copo. Penso nas horas que perco a observar as minhas duas tartarugas - de seu nome Marilu e Justino - na maravilha que é o funcionamento do seu cérebro reptilóide, invejo-lhes profundamente a forma como repetidamente disfrutam dos seus dias. Comer, dormir, apanhar sol, correr e nadar uma atrás da outra com a felicidade de como se o fizessem sempre pela primeira vez. A Marilu, mais pequenina, morre de amores pelo Justino, também chamado de Justinão devido ao seu imponente porte. O zénite do dia dela é quando, finalmente e após inúmeras tentativas, consegue equilibrar-se no topo da carapaça do seu parceiro e tirar uma sorna de algumas horas, aproveitando o cansaço e a eterna paciência do pobre coitado. Inerte para não a incomodar, o olhar do Justino perscruta o nada, recebe o sol como se fosse tudo o que pretende para toda a vida. O sol, apenas o sol, e o aconchego de Marilu nas suas costas.

Ao fim de 5 minutos já perdemos a capacidade de ouvir o que o parceiro está a dizer. Ao fim de 10 segundos pós-orgasmo já estamos a pensar no que fazer a seguir, como se não tivéssemos acabado de ser abençoados pelo êxtase da criação. Como se disfrutar realmente de um momento por alguns minutos fosse a morte de alguma parte de nós. Como se o amanhã fosse o ansiado e inalcançável presente que eternamente buscamos e em que jamais nos instalamos. 

 

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publicado por bolaseletras às 16:42

See Naples and die

Quarta-feira, 24.05.23

 

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Nápoles. Máfia, Maradona, crime, um estranho fascínio pelo lado negro da natureza humana. Sei que não morrerei sem visitar aquelas ruas míticas onde se adorou sem limite o maior dos maiores, Diego Armando Maradona. Mas Nápoles será muito mais do que essa louca paixão, vejo-o nos olhos dos personagens reais, de carne e osso, com cheiro intenso a gente que ilustra este post. O fotógrafo Sam Gregg alimenta-me o fascínio com esta coletânea de fotos intitulada “See Naples and Die” (https://www.lensculture.com/articles/sam-gregg-see-naples-and-die). O feio pode ser contraditoriamente belo, o medo uma irresistível fonte de atração, a violência mais não ser do que uma desajeitada e fogosa forma de amar. Um dia perder-me-ei nas tuas ruas, é só o que sei.

   

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publicado por bolaseletras às 16:00

Bente Wesselink e a beleza única que reside nas mulheres (#perolasdoinstagram)

Sexta-feira, 19.05.23

  

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Perguntaram-me há uns dias porque seguia tantas mulheres no instagram, se isso não podia soar mal. Respondi, sem vontade de dar grandes explicações, que gosto de beleza, que dificilmente encontro algo mais belo neste mundo cada vez mais feio do que a beleza das mulheres. Atualmente, esta descuidada postura sujeita-me às garras das políticas de cancelamento, do politicamente correto destes tempos em que tudo o que cheira a político é cada vezes menos aconselhável, facilmente me cravam na pele a etiqueta de machista, misógino, o diabo a 7. Está bem, levem lá a taça, mas deixem-me em paz com a beleza única de uma mulher bela. Ah, e não precisa de ser magra, há muita beleza nas mulheres com curvas anormalmente perigosas. Disfrutai e não chateai. Agradecido.

 

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publicado por bolaseletras às 14:58

We love to eat them, por Harvey Weir (#perolasdoinstagram)

Sexta-feira, 10.03.23

 

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“*no men were harmed in this photoshoot. We love men and we love to eat them.” 

 

É tão isto. Estamos tão nas vossas mãos. Mesmo que pensemos que estamos assim, entregues e submissos apenas porque o queremos e permitimos, não é essa a realidade. Estamos neste estado de vegetais incapazes de quebrar o feitiço porque o verdadeiro poder está em vós. Na vossa superior racionalidade, no incomparável poder de sedução, na ponta da vossa língua, na volúpia de algodão doce desses lábios de salgado veneno, na fornalha que passeiam negligentemente entre as coxas. Estamos tão fodidos.

 

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publicado por bolaseletras às 16:25

Amar mulheres, por Helena Coelho (#perolasdoInstagram)

Sexta-feira, 10.03.23

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“Amo corpos femininos. De todos os tipos e feitios. Amo as mulheres em todos os seus arquétipos e sinto-me feliz por ser uma mulher, uma mulher livre. Mesmo que, por vezes, nos seja dificil sê-lo com as vozes da critica a dilacerarem-nos as asas e a jogarem-nos como trapo de nojo de volta para o interior de uma jaula de portão aberto. UMA MULHER LIVRE. Esta frase soa-me sempre a um titulo de uma canção de intervenção que ainda ecoa na minha geração. Penso isto com mais vergonha e revolta do que vos mostrar a natureza do sitio onde estou e o meu corpo honesto nele.”

 

Helena Coelho 9.png

 

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publicado por bolaseletras às 11:07

A lenta morte (#perolasdoinstagram)

Quinta-feira, 09.03.23

 

Daria Belikova1.pngFotografia por Daria Belikova

 

De que nos serve a beleza quando jaz nua e fria? O que fazer com a sedução, a tesão, quando os corpos já não se querem, quando o orgasmo se limita ao cumprimento da função biológica de um qualquer cão selvagem? Mergulhar no poço do prazer animal não será entregar a alma ao diabo do desejo cego e gélido? Não fará de nós mais máquinas do que humanos, mecanismos que cumprem funções de forma enérgica e rotineira? De que nos serve a beleza quando a mesma jaz no regaço do fim do amor? Não será esse o lento caminho para a morte de nós?

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publicado por bolaseletras às 15:08

O tempo da falta de tempo

Terça-feira, 07.06.22

   

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A arte do sentimento teima em desacompanhar a sucessão vertiginosa de acontecimentos, de exigências, solicitações, expedientes, prazos e tarefas que se atropelam. A vida recusa olhar-se no espelho, ter tempo para o autoconhecimento. Os dias fogem por entre os dedos, não como grãos de areia que, ainda assim, apresentam alguma doce lentidão na sua queda modorrenta, mas como cataratas de água pesada como chumbo. Por entre os afogamentos de sensações perece a empatia, definha a capacidade de olhar e amar o outro, o vulgar outro e o Outro que tudo sempre foi para nós, mas que a vida teima em encostar nas vielas da falta de tempo. Como se a voracidade do tempo fosse mais forte do que nós. Será? Ou será este soçobrar perante a corrida destemperada dos ponteiros do relógio uma mera distração, o deixar-nos levar pela corrente sem sequer tentar nadar no sentido contrário desse silencioso turbilhão? Voltar a saber amar é saber parar o tempo, recusar a escravidão dos supostos “tempos modernos”, os tempos da falta de tempo. Olhar, parar, recusar ir na onda. Viver. Amar.

 

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publicado por bolaseletras às 10:29

Make love, not war - day 3

Terça-feira, 22.03.22

  

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Para que queremos o amor? O que mudamos na nossa vida quando o encontramos? Cuidamos de o alimentar, de lhe atenuar as dores, de lhe retardar o inevitável definhar? Porque o procurámos em primeiro lugar? Amamos o outro como sempre sonhámos ser amados? O excesso de amor, existe? Existindo, onde nos conduz essa ausência de moderação na nobre arte de amar? Aborrecem-nos, amolecem-nos, os desregramentos do amor? Ou, em sentido contrário, o excesso de amor será o rastilho para o recrudescer da semente do ódio que miserável e irremediavelmente habita o ser humano? Será a guerra uma consequência desses excessos, uma resposta aos instintos selvagens que o amor entorpece e que, hipoteticamente, o seu excesso desperta? Para que queremos o amor?

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publicado por bolaseletras às 10:54

Make love, not war - day 2

Segunda-feira, 21.03.22

  

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I know not with what weapons World War III will be fought, but World War IV will be fought with sticks and stones.

Albert Einstein

 

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publicado por bolaseletras às 10:16





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