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A Deus

Quarta-feira, 24.04.19

 

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Detalhe de “Extrema Unção”, de Nicolas Poussin

 

Adeus.

Esta despedida que hoje proferimos demasiadas vezes, tantas vezes com excessiva leveza, nasceu da despedida terminal, da expressão outrora usada pelos padres para recomendar as almas ao cuidado de Deus. “Eu te recomendo a Deus”, outorgavam os curas no leito da morte. Hoje, quando tudo é abreviado, em modo rápido e que não canse a língua, fica o singelo e esquivo adeus, sem sequer ligarmos à importância do que dizemos, ao divino que tudo envolve e justifica. Do outro lado do canal da Mancha também os ingleses esquartejaram o conforto da expressão “God be with you” para um pervertido goodbye, a despedida de quem interrompe uma paint para ir bafejar um cigarro à porta do pub da esquina.

Não obstante, a aparente leveza que este despedaçado adeus assume, contrasta com os nossos receios em dizê-lo, com o confortável peso que carregamos em nós por termos alguém que nos dá vida, alguém que nem sonhamos vir a tocar com o verdadeiro significado desse beijo da morte que é dizer-lhe adeus. É bem provável que este abreviar das palavras derive, mesmo que inconscientemente, da patética tentativa para que essa despedida não assuma as proporções de outrora, que o simples adeus não entregue a pessoa amada nas mãos de Deus. A Deus o que é de Deus, ao homem o singelo adeus.

 

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publicado por bolaseletras às 16:26

Gente feita de gente

Sexta-feira, 22.03.19

 

Elizabeth Taylor resting during the filming of Sud

Elizabeth Taylor a descansar, durante as filmagens de "Suddenly, Last Summer" (Espanha, 1959)

 

Precisa-se de gente que abra, gentilmente, alas para quem vem da esquerda ou da direita,

gente que não corra

que não salive quando vê o amarelo beijar o calor assassino do vermelho

homens e mulheres que respirem a serenidade de nuvens imperfeitas

de suspiros de algodão em forma de bolas de sabão

nuvens que não sabem se chovem ou se serenamente flutuam

indecisas entre imitar redondas baleias ou tesouros do tamanho do sonho das crianças.

Procura-se gente que não pergunte por razões

almas despidas de porquês

senhoras que não pintem os lábios ou tisnem os olhos,

mulheres com pestanas que se deixem levar p´lo vento sem toques nem retoques.

Anseia-se por homens com simpáticas e sorridentes barrigas

machos sem machezas nem mulherezas

apenas homens que riem alto quando ninguém dorme

e que ressonam quando a noite cai.

Buscam-se crianças de joelhos esfolados

com cheiro de riso e de relva molhada

tristes e felizes petizes de lágrimas embrulhadas em gargalhadas tolas

redondos de tanto chutar bolas

esqueléticos de tanto correr,

como se o mundo e a felicidade de o descobrir fossem uma estrada sem fim.

Precisa-se de gente feita de gente.

 

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publicado por bolaseletras às 17:29

Os nomes

Sexta-feira, 22.03.19

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Give your daughters difficult names. give your daughters names that command the full use of tongue. my name makes you want to tell me the truth. my name doesn’t allow me to trust anyone that cannot pronounce it right.” — Warsan Shire

 

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publicado por bolaseletras às 10:59

É todos os dias e não apenas quando o homem quiser

Sexta-feira, 08.03.19

 

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Hoje de manhã ouvi na rádio uma mulher forte - como todas as mulheres o são, mesmo que não mostrem, mesmo que alguém não permita que elas revelem toda a sua indomável força – que o feminismo mais não é que lutar por direitos e deveres iguais para homens e mulheres. Comentando isso com outra mulher igualmente forte - uma mulher extraordinária que sempre derrubou todos aqueles que lhe queriam derrubar essa força – dizia-me ela que a irritava sobremaneira aquelas mulheres que davam mau nome à causa e ao género dizendo que não queriam nada disso, que queriam continuar a usar saias e a ter o direito de vestir as suas filhas de cor de rosa. Eu, como não quero meter a foice em seara alheia, digo apenas que este dia serve sobretudo para nos lembrar a vergonha que é termos que assinalar um dia que deveria ser, naturalmente, todos os dias. Ainda assim, deixo aqui uma singela mensagem lida num qualquer mural de um qualquer instagramer que bem parece saber o valor da mais bela flor da criação:

 

Feliz dia da mulher

 

A força que brota

do seu coração

faz nascer o sol

na vida daqueles

que te rodeiam

 

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publicado por bolaseletras às 11:27

Desgraça

Sábado, 02.03.19

  

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Ligeiramente perdido nos pensamentos, enquanto faço tempo para que resolvam mais um bug informático dos tempos modernos descubro, por entre dossiers antigos de reuniões vetustas, um dos livros que mais me perturbou nesta já longa carreira de leitor, hoje tão tristemente adormecida. Folheio as páginas e encontro assinaladas as passagens de um diálogo brilhante, machista, misógino e despudoradamente belo como só a literatura o sabe ser, em todas as suas contradições e intermináveis sentidos. Um livro pode causar-nos repulsa e tornar-se inesquecível, um autor pode ser um filho da puta e um (in)questionável génio.

 

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publicado por bolaseletras às 16:03

Carnaval...

Sexta-feira, 01.03.19

  

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...é quando a máscara cai e o resto do ano é apenas entrudo chocalheiro...

 

p.s. - roubado a um amigo sem máscaras

 

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publicado por bolaseletras às 10:21

Verdes anos - Carlos Paredes

Quinta-feira, 07.02.19

 

 

Carlos, filho de Coimbra e da alma musical dessa mítica cidade, não fez por menos e fez-se igualmente filho e neto de Artur e de Gonçalo, exímios feiticeiros da guitarra portuguesa. Como qualquer vocação que se quer contrariada, Carlos negou os desejos de sua mãe e aprendeu “a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo langoroso a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada”.

Tenho em mim uma memória longínqua e adolescente de um concerto de Carlos Paredes, não me recordo onde nem quando, só retive as cordas vibrantes e desesperadas, os gritos surdos que se me colaram, a quem, muito provavelmente, deverei esta minha torta natureza de poeta vadio. Verdes anos.

 

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publicado por bolaseletras às 14:28

Da beleza

Quarta-feira, 06.02.19

 

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publicado por bolaseletras às 15:11

Xeque-mate

Quarta-feira, 30.01.19

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Sabia que a melhor defesa era o ataque. Não porque seguisse as tácticas estéreis dos livros da moda mas, simplesmente, porque a vida lhe ensinara essa crua lição. Esperar pacientemente era mais da sua natureza, mas os resultados que obtivera refugiada nessa confortável passividade revelavam à saciedade que o conforto não era sinónimo de sucesso. Fora quando avançara a dama e as torres sem medos, enfrentando o rei e seus bispos de peito aberto, que conquistara terreno, que ganhara o respeito e a admiração das suas presas. Ao invés, quando caminhara passo a passo, lenta e cautelosamente, com os seus tímidos e inofensivos peões, apenas obtivera um sorriso sarcástico do rei e suas tropas, prontas para a espezinhar. A conquista implicava risco e era o risco que a mantinha viva. O receio era o rastilho para uma derrota humilhante.

 

No último lance, no xeque final, olhou o rei nos olhos e ele cedeu-lhe a sua casa, o destino desejado, a derradeira entrega, o momento em que a vitória de um significava a vitória do outro e em que os medos, a ambição, e a vitória se fundiam e esfumavam no calor daquela entrega.

 

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publicado por bolaseletras às 10:30

2019

Sexta-feira, 04.01.19

 

Steve McQueen and Neile Adams taking a sulfur bath

Steve McQueen e Neile Adams, fotografados por John Dominis, 1963

 

Decisões irrevogáveis para o ano que se avizinha. Convicções inabaláveis. Objectivos perfeitamente definidos. Rotas traçadas a regra e esquadro. O sucesso ao virar da esquina, a felicidade é já ali, é só querer, como se o resto do mundo e todos os que nos rodeiam não tivessem outra hipótese senão conformar-se ao destino que traçámos para os próximos 365 dias.

 

Outra hipótese:

 

Respirar apenas. Lentamente, como se cada segundo fosse uma bênção. Sorver o néctar dos Deuses gota a gota, como se a próxima fosse a última e daí não viesse mal ao mundo, porque um dia, inapelavelmente, esse dia há-de ser o último. Ouvir sem pressa. Falar devagar. Silêncio. Falar só se apetecer. Perceber a importância de calar. Amar. Beber mais um golo, lentamente.

 

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publicado por bolaseletras às 09:43





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