Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Eastern Promises
Eastern Promises, filme de 2007 de David Cronenberg, submerge-nos no submundo das mafias russas que habitam Londres, abre-nos a porta para o escândalo da moderna escravatura - o tráfico de seres humanos. Juntamente com Naomi Watts, personagem que nos acompanha na ignorância da miséria humana concreta por que passam as vítimas desse flagelo, somos confrontados com a violência de vidas que, contra o que queremos acreditar, convivem connosco paredes meias nas principais cidades da Europa Ocidental.
Sobre o cinema que faz e este filme em particular, Cronenberg disse não estar interessado nas histórias dos crimes em si, mas mais no fenómeno da criminalidade e das pessoas que vivem num estado de perpétua trangressão. Por isso, tal como Cronenberg não é um realizador tradicional, Eastern Pomises não é um thriller vulgar. Embora revisitemos os temas e os motivos habituais neste tipo de filmes (os laços de família e a cultura própria das organizações criminais, a honra entre criminosos, etc.), o decurso da trama é assustadoramente intrigante, as cenas de violência são absorvidas pelo espectador de uma forma que quase se sente fisicamente, há em todo o filme uma intimidade que se vai ganhando com as personagens que nos aproxima das dores das vítimas.
Mais que todos, Viggo Mortensen marca o ritmo e a credibilidade de Eastern Promises. O penteado imutável, como imutável é a sua expressão de uma rocha sem falhas, essa inimitável tensão muscular transmite-nos toda a tensão dos acontecimentos que pautam o filme. Mortensen não é russo, mas em todo o filme não temos que nos preocupar com o seu sotaque. Ele mergulhou tão profundamente na sua personagem que quando o ouvimos a primeira vez duvidamos se não estamos em pleno coração de Moscovo. Um filme a não perder, pela riqueza das personagens, a qualidade do cinema de Cronenberg, mas, sobretudo, pelo desvendar de uma temática à qual não devemos ficar indiferentes.
