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Pérolas da blogosfera - Este país não é para velhos

Sexta-feira, 08.01.10

 

 

Ainda mal começou o ano e este texto da Ana Vidal é já o texto mais triste, real e assustador do ano (delitodeopiniao.blogs.sapo.pt). Parem-se os debates na Assembleia, suspendam-se as avaliações, rasguem-se os milhares de papelinhos a solicitar referendos idiotas, coloquem-se na gaveta as centenas de projectos lei que nada importarão de melhor para este país à deriva e pense-se, estude-se, conceba-se uma solução para os nossos velhos de agora, para os velhos que seremos amanhã. Este drama é de todos. Todos o passámos, todos o voltaremos a passar, não há uma famíla que não tenha o seu idoso a precisar, pelo menos, de alguma compaixão. Faça-se, uma vez que seja, uma lei que obrigue a amar, a não esquecer, a não fechar os olhos. Até tremo, quando percebo que é isto a chamada sociedade contemporânea.

 

 

E no entanto, mais do que os mais sangrentos massacres humanos ou os mais terríveis desastres ecológicos, esta "pequena" notícia nacional deixou-me de rastos. Todos temos, ou tivemos, pelo menos um velhinho que nos é querido. Imaginemo-lo a morrer assim, completamente sozinho: de frio (porque o dinheiro não chega para o aquecimento); de fome (porque a pensão mal chega para os medicamentos); ou tão somente de solidão e desistência. Sem poder despedir-se de quem gosta, tocar numa mão alheia, deixar um sorriso ou uma lágrima a outra testemunha que não as paredes e o tecto esburacado. Se fosse o "nosso" velhinho, como nos sentiríamos? Criminosos. Não há outro nome para quem abandona assim os seus velhos, só porque já não são úteis ou representam um espelho incómodo do seu próprio futuro. É o que somos, então. Um país que deixa morrer ao abandono os seus cidadãos mais frágeis, negando-lhes a última dignidade a que têm direito, é um serial killer. E o pequeno apontamento caseiro dos noticiários de hoje era, afinal, sobre um crime.    

                           

 

 

A notícia mais arrepiante que tenho ouvido nos últimos tempos - e todos sabemos como eles têm sido férteis neste género de notícias - foi-me repetida hoje, até à exaustão, em todos os noticiários do dia: "No espaço de tempo de apenas doze horas, nove idosos foram encontrados mortos nas suas casas, na área de Lisboa". Nove. O número é tão insólito que a polícia estranhou e, a mim, deu a imediata sensação de tratar-se de crime. Um qualquer sádico exterminador de velhinhos, marcando riscos na coronha logo nos primeiros dias do ano. Mas não. O serial killer é um velho conhecido nosso e chama-se, simplesmente, Abandono. O apelido? Solidão. Nada de tão plástico como um enredo policial, nada de tão enigmático como a mente perturbada de um psicopata urbano entregue aos seus delírios. Apenas um triste apontamento caseiro, num dia de chuva sem grandes dramas internacionais.

 

p.s. - Não será o texto mais agradável para entrar no fim-de-semana. Mas a vida cada vez mais nos defronta com tristes cenas como estas. Aproveitem a pausa de dois dias para pensar nisto, se vos aprouver. Ou esqueçam-se destas chatices, pelo menos enquanto não chegam a velhos.

 

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publicado por bolaseletras às 20:44


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