Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Do pânico
Fotografia de André de Dienes
O medo domina-nos. Há quem tema aranhas, quem abomine a escuridão, aqueles que preferem o sono eterno ao som de uma trovoada arrepiante. Comigo é a merda dos pássaros. Talvez tudo tenha começado no clássico trauma de infância, nas Berlengas, 9 ou 10 anos de curiosa inocência, pãozinho para as esfaimadas gaivotas, o convite ao assalto de centenas de bicos à assustada e indefesa criança, o pânico de ser devorado pelos monstros de brancas penas.
Hoje, quando conduzo na caótica cidade, sinto que eles me olham. Da caleira dos telhados observam-me silenciosamente, estudam cada curvar do volante, espreitam se a janela do desprevenido condutor segue aberta. Num repente, sem pré-aviso, mergulham na confusão do alcatrão e descobrem-me por entre os milhares de sons, encoberto pelas nuvens do sufocante dióxido. Sabe Deus como até hoje não me entrou nenhum pássaro pelo carro, mas que tentam ninguém duvide. Tenho testemunhas, namorada e amigos que sabem que sou um alvo preferencial da passarada. Que tal umas tréguas, bicharocos do inferno?
