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Revista de imprensa - a trapalhada europeia e as saudades do bom e velho escudo

Sexta-feira, 19.02.10

 

 

Imbuído do espírito europeista que se respira por terras do Luxemburgo, nada como falar sobre o euro, essa unidade monetária que parece justificar uma união cada vez maior entre países e realidades tão díspares.  Não é a minha praia, a economia. Ainda assim, é daqueles temas a que volto frequentemente, apesar da dificuldade em deparar-me com economistas que se dignem a descer à realidade dos comuns dos mortais. Paul Krugman, um nada peneirento prémio Nobel, faz questão em falar para a leiga plebe, tornando acessível a encriptada linguagem que é o economês. Há alguns dias, debruçou-se no New York Times sobre aquilo a que ele chama The Making of a Euromess (www.nytimes.com/2010/02/15/opinion/15krugman.html).

 

Krugman analisa com pinças a trapalhada europeia, colocando sobre os frágeis ombros do euro, a nossa moeda comum, a culpa dos fracos ritmos de crescimento económico, dos excessivos défices, dos desempregos galopantes e da incapacidade de reacção das economias mais frágeis da zona Euro. Para justificar a sua tese, pega no exemplo de nuestros hermanos. Apesar de  uma dívida externa controlada, de um superavit orçamental, de um sistema bancário exemplarmente regulado, a Espanha não resistiu à tentação de ser a Flórida da Europa (sol, praias, muito calor) e a entregar-se ao boom da construção civil. O resultado foi um crescimento demasiado rápido combinado com uma inflacção significativa (entre 2000 e 2008 os preços dos produtos e serviços em Espanha subiram cerca de 35%).

 

 

Devido ao aumento dos preços as exportações castelhanas tornaram-se pouco competitivas, ainda que o crescimento do emprego se mantivesse forte devido ao boom imobiliário que não parou. Foi então que a bolha rebentou. O desemprego surgiu e o orçamento estatal mergulhou num profundo défice.  O principal problema económico da Espanha foi que o custo e os preços desalinharam-se com os praticados no resto da Europa. Se a Espanha ainda tivesse a sua boa e velha peseta, poderia resolver o problema com alguma rapidez através da desvalorização da moeda em sentido contrário das restantes moedas europeias. Mas a Espanha, como Portugal, já não tem a sua própria moeda, o que significa que apenas pode recuperar a sua competitividade através de um lento processo de deflação dos preços.

 

Muito antes do euro chegar, diversos economistas alertaram para o facto da Europa não estar à data preparada para ter uma moeda única. Mas os avisos foram ignorados e a crise chegou. E agora, pergunta retoricamente Krugman? Uma ruptura com o euro seria neste momento impensável, a reintrodução das moedas nacionais seria a mãe de todas as crises financeiras. Isto é, o mal está feito e não tem remédio. Então, o único caminho é seguir em frente: para fazer o euro resultar a Europa necessita de aprofundar a sua união política, de forma a que as nações que a constituem passem a funcionar mais como os Estados dos Estados Unidos da América. O problema é que isso não irá suceder nos tempos mais próximos. O futuro passa por uma austeridade selvagem, como pano de fundo uma taxa de desemprego elevada, perpetuada por uma lenta e crescente deflação.

 

 

O quadro exposto por Krugman não é bonito mas só não o vê quem não quer. Para compreender a natureza e origem do problema Europeu é necessário perceber que não foi só a desgraça de termos governos irresponsáveis - o problema fundamental foi a arrogante crença de que a Europa estava em condições de ter uma moeda única, apesar de todas as razões que apontavam em sentido contrário desse passo de gigante. Se as saudades do escudo assentavam em razões do coração, passam agora a estar também em causa razões já mais cerebrais. 

 

Mas sabem o que realmente me lixa a cabeça? É isto não interessar minimamente aos nossos media (com honrosas excepções como o jornal i), aos nossos opinadores, só a chafurdeira das escutas e a baixa política os faz pôr a funcionar as meninges. Como se o mais velho problema deste país não estivesse espelhado no conhecido dichote "troca o disco e toca o mesmo".

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 17:57





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