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De tesoura em riste

Terça-feira, 03.03.09

Tenho que tratar de cortar o cabelo. Esta é daquelas obrigações que sempre me perturbou. No meu espírito, não faz o mínimo sentido um tipo ter de se preocupar mensalmente com uma ida ao barbeiro. Nem quero imaginar se tivesse nascido do belo sexo e tivesse de incluir no pacote a manicura, a depilação, a limpeza de pele e outras artes que tais. Porque será que não chega o banhinho diário, as escovadelas de dentes, as lavagens de mãos e demais actividades higiénicas para garantir o são e bem cheiroso convívio entre membros da nação, da cidade, do bairro, do prédio, do leito conjugal?

 

Desde que me lembro de ir ao barbeiro pelo meu pé (creio que desde a tenra adolescência) que assisto nessa histórica instituição aos mais inacreditáveis diálogos, monólogos e discursos onanistas. Eu com o traseiro irremediavelmente assente na vetusta cadeira e com a batinha anti-pelo bem justa à farpela, e o artista da tesoura com a verve inflamada. Temáticas? Infalivelmente a bola, o glorioso, os bois pretos com apito na boca, a caça e as petiscadas subsequentes, as meretrizes petiscadas, as gajas que passam na rua, os pretos e o Ultramar, os chulos do governo, os temerários feitos dos filhos e as filhas puras que nem neve, a vaca da sogra, enfim, um manancial inesgotável.

 

Não, nunca apanhei um barbeiro homem que não falasse, que preferisse o silêncio a que convida uma actividade tão cirúrgica. De onde virá tamanha confiança no interesse que as suas palavras terão nos impotentes tímpanos dos pobres clientes? Creio que eles sabem que nós sabemos que eles têm a lâmina e a tesoura na mão...nós somos meros roedores na ratoeira que é a cadeira do barbeiro.

 

Felizmente, neste caso a globalização jogou a favor do cliente. É ver um novo mundo de barbearias com profissionais vindas da terra de Vera Cruz, sorridentes, resplandecentes, com mãos sem pelos indesejáveis. Finalmente lavar a cabeça no final do corte passou a ser um acto agradável, trocou-se a sensação de termos a nossa cachimónia chocalhada por duas mãos sapudas e repugnantes, por uma suave massagem proporcionada por um par de mãozinhas delicadas e compreensivas. VIVA A GLOBALIZAÇÃO!

 

 

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publicado por bolaseletras às 23:18


4 comentários

De Puto Estupido a 04.03.2009 às 01:38

...belo post!...
...o fenómeno é, como a tag do post indica, verdadeiramente global...
no caso do meu tosquiador, jovem rural, patusco, feio e fortemente elegante... mas muy humilde, este descobriu recentemente o poder da internet e do hi5 para ir à pesca com o mouse, tendo largado emocionadamente as seguintes pérolas:
-ó dr... tanto dinheirinho que gastei em cafézinhos e beberetes para dar em nada! se tinha sabido da internet mais cedo...(...)

-é que os maridos hoje trabalham, trabalham, trabalham e não dão a devida assistência em casa!(...)

- ó dr... mas quando ela me viu pela primeira vez, havia de ver a carinha de desilusão da moça: via-se mesmo que ela estava a contar com mais qualquer coisinha!!!

De bolaseletras a 04.03.2009 às 20:12


Muito bom esse teu barbeiro! Quase que o trocava pela Cléo, profissional de Minas Gerais que trata a tesoura por tu. Muito boa história... "estava a contar com mais qualquer coisinha" é de antologia - Muito bom:)

De francisco a 06.03.2009 às 14:42

'Glorioso'???!!! Mas que parvoíce é essa??!!! O Sr. Nobre, vulgo Tuno, essa referência do universo capilar olivalense, sempre foi um grande sportiguista, ao contrário do irmão, lampião e como tal cabeleireiro, não barbeiro.

Andas baralhado, pá.

De bolaseletras a 06.03.2009 às 20:53

Chico,

No sentido literal da coisa, tens razão, falar em glorioso é uma parvoíce. Vista a coisa no contexto da brejeirice da conversa dos barbeiros em causa, o glorioso cabe lá bem: é uma pérola ao nível da parvoíce de conversas que lá se ouvem, como a xenofobia, a homofobia, etc. e tal. São eles que falam em glorioso, não eu, apenas citava!

O Sr. Tuno era excelente barbeiro e bom sportinguista...mas, ao contrário dos barbeiros retratados, a profundidade da conversa podia convidar à meditação e, consequentemente, ao risco do paciente adormecer e sujeitar-se ao risco da tesourada na orelha!

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