Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Irvine Welsh - Crime
Há escritores por muitos desconsiderados devido aos assuntos que abordam. Irvine Welsh, esse turbulento cidadão escocês, já andou pelos caminhos da droga (Traisnpotting, Ecstasy) da pornografia (Porno), tendo, no seu último livro, submergido no nebuloso e asqueroso mundo da pedofilia (Crime). Há anos que não me cruzava com Welsh nas prateleiras, mas algum cansaço de escritas demasiado densas - para o actual desgaste que me ocupa a cavidade craniana - devolveu-me à sua escrita escorreita, cinematográfica (lembram-se do filme Trainspotting?), violenta e crua.
Por estas e outras razões Welsh é uma figura controversa no meio literário, estatuto agravado pelo seu inconveniente sucesso comercial. Em "Crime", a sua última provocação, são-nos abertas as portas dos meandros das redes pedófilas, dos comportamentos desses predadores nojentos, das teias em que envolvem as suas vítimas. Welsh parte de um polícia escocês deprimido que viaja para Miami com a sua noiva, em atribulada pré lua de mel, e aproveita o estudo aprofundado que efectuou sobre os modus operandis dos criminosos do sexo infantil, para nos chocar, alertar, abrir os olhos, estimular o nojo. Um livro duro mas animado, uma história bem contada, uma peça jornalística/policial soberbamente mesclada pelo humanismo de um personagem à beira do abismo. Nos próximos tempos, deixarei algumas pérolas, não do fundo do mar, mas do fundo do lodo.
