Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Crime (pérola 1) - O colapso e os projectos paralelos
"O problema de aceitar a ideia de que anda deprimido, ou até a sua versão mais benigna do «stressado», é que isso significa intrinsecamente o colapso das suas certezas morais. No mínimo existia potencial para que todos os comentários que ele fizesse pudessem ser vistos como sintomas da doença. E sente que o modo como Trudi gere a suposta condição dele tem a ver com o controlo (dela) e a despossessão (dele). A lógica dela é a de que os seus pensamentos o hã-de levar de volta aos traumas do emprego, sendo por conseguinte inerentemente más todas as deliberações independentes que ele faça. Ela substituirá isso pelos projectos "dela", onde há coisas boas para se pensar, como a festa do casamento, a casa nova onde irão viver, a mobília, os futuros filhos, a casa seguinte, aquela narrativa limitada que conduz à morte e que tanto o aterroriza."
Irvine Welsh articula agilmente a parte policial de "Crime" com as agruras da vida do protagonista, Ray Lennox. A influência que uma profissão desgastante tem sobre nós é exposta de forma crua, propiciando-nos o reconhecimento de uma realidade que se nos cola à pele. Por outro lado, o aproveitamento desse constante estado de agitação está nas mãos de quem menos se espera, aqueles que nos estão mais próximos. A um passo do stress a depressão, um caminho facilmente atalhado pelos ínvios meios que a realidade tem ao seu dispor. Como reacção, a entrega ou o estrebuchar. Tudo depende da "qualidade" daqueles que nos rodeiam, das forças interiores que ainda conservamos, da capacidade de atravessar os trilhos escarpados dessa montanha que é o desespero, sem sentir a pele rasgar-se irremediavelmente. A cura para a doença do século parece-me ancestral: os que nos amam, bons amigos, relativizar a aflitiva realidade, sorrir todos os dias. Há quem diga que não é nada fácil, eu diria que já foram ultrapassados obstáculos bem mais complicados.


