Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Crime (pérola 2) - Os dois extremos do abismo
"A vodka foi bem servida; daquilo é que Lennox gostava nos Estados Unidos, serviam os copos a olho. Não se punham para ali com aquelas merdas das regras, dos pesos e das medidas. Só por esse motivo valia a pena terem feito a Revolução Americana. Junta àquilo uma garrafa de cerveja importada. (...) A primeira bebida não consegue eliminar as ansiedades não específicas que lhe percorrem a mente e o corpo, limita-se a cristalizá-las num tumor sólido dentro dele, o qual se esgueira por uma qualquer auto-estrada psíquica que tem rude ligação ao seu tracto intestinal e acaba por assentar pesadamente no fundo da sua barriga."
"(...) Lennon manda vir outra vodka. Depois mais outra. As suas gorjetas decentes garantem que o barman lhe enche o copo. Este homem compreende evidentemente que certas pessoas, lá porque vêm sozinhas para um bar e espetam a cabeça para beber, não andam necessariamente à procura de companhia. O que elas querem é ver se aquelas merdas em que tentaram pensar quando estavam sóbrias se resolvem melhor estando bêbedas".
Percorrendo a sua obra, quase que pode considerar-se Irvine Welsh um especialista na abordagem dos piores vícios do ser humano. Droga, álcool, taras sexuais, contem com Welsh para os esmiuçar e levantar o véu sobre as origens desses cantos negros da condição humana. Ray Lennox, o protagonista de "Crime", tem problemas com a bebida, a droga, sendo que as suas vivências sexuais também não lhe permitem uma existência saudável a esse nível. Neste trecho, o álcool - o escape da realidade confundida com a procura de respostas nos inúmeros gargalos dos becos do quotidiano. Quando não souberem se têm ou não um problema com a bebida, é simples, Welsh dá a receita infalível para a identificação do problema: ou sofrem de infalível solidão que vos conduziu à bebida, ou estão fartos de quem vos rodeia e procuram como única companhia os enebriantes vapores do álcool. Não deve ser difícil perceber em qual dos extremos da vossa vida se colocaram.



