Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Rivalidade futebolística, essa paixão que nos anima
Como se esperava, a previsível conquista do campeonato pelos vermelhuscos vai assumindo, crescente e irremediavelmente, foros de insana e destemperada alegria vingativa. Esta gente que prima pela beleza física e pela elevação intelectual não se limita a ganhar. Aliás, isso de ganhar pouco importa. O que realmente almejam no início de cada época é guinchar aos ventos que nunca o mundo viu algo assim, eles, os mais puros, a nata do povo, o verdadeiro povo, muitas vezes pobrezinhos e sofridos, são os reis da bola, a eles ninguém lhes ganha. O espírito desportivo é para eles poder dizer que vão reservar a rotunda do Marquês, alambazar-se na Boavista, se possível cuspir na bancada das Antas enquanto festejam o título contra os inimigos do norte (poderiam ser os do sul, pouco importa para o efeito). O que os aproxima do tal orgasmo de que Gomes falava quando marcava o golo, não é esse tal golo, é sim saber que naquele dia, naquele momento em que ficarão à frente, serão finalmente melhores em alguma coisa na sua pobre vidinha.
O sonho de uma vida é aquele em que sairão empanturrados de vermelhusco orgulho dos seus casulos das tristes periferias, o dia em que levantarão a massacrada cabeça do volante do seu imundo táxi (acreditem, 99% dos taxistas são benfiquistas), aquele inesquecível momento em que largarão a sebenta farda e olharão o mundo com os olhos de alguém que finalmente se sente alguém. A bem da nação, em prol de um melhor e mais saudável país, acabem depressa com este tem que não cai. Levem lá o caneco e encham os beiços da gordura da entremeada da glória, palitem os dentes com os pelos do courato da vitória, engulam de um só trago toda a cerveja da tasca do canto. Mas deixem-nos trabalhar, deixem o país andar (mesmo que devagar ou devagarinho), permitam que adiemos um pouco mais a chegada à inevitável bancarrota. Sim, um país com 60% de benfiquistas não é um país, não tem salvação possível, é apenas mais um cabaret de má fama.
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2 comentários
De Tité a 24.04.2010 às 13:11
Ah! Já sei estamos no 24 para 25 de Abril né?
Se não fosse eu andar desencantada também iria festejar o 25 de Abril sempre!
Rugidos de esperança



