Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
A propósito do dia de ontem, liberdade e tal
Revista Egoísta de Junho de 2008. Reflexões de João Lopes sobre os 50 anos de Madonna. O autor divaga, tergiversa, foge do mundo da diva pop e entra-nos pelo país adentro. Pego nas suas palavras, bebo-as, deparo-me com o sentido que a liberdade tem para João Lopes, com o seu valor intrínseco naquele preciso momento, enfim, com a sua actualidade como ele a sente em Junho de 2008. Um texto difícil. Mas é uma palavra difícil, a palavra liberdade.
"A palavra política é, hoje em dia, a mais degradada. Falo não da política como arte superior de dirimirmos as perplexidades do nosso destino colectivo, mas da "cena política", esse espaço de narcisimo decadente induzido e gerido pelas forças televisivas. A mediocridade instalada arregimentou mesmo uma palavra, "tabu", para sugerir a suspensão informativa sobre a política. É assim o nosso tempo: políticos que nunca leram Freud e falam de tabu.
Quando a palavra "tabu" se banaliza, isso quer dizer que o tecido social já não tem noção dos seus próprios interditos: somos levados a crer que "não haver interditos" é a suprema consumação da ideia da felicidade. Em Portugal, isso traduz-se num novo pensamento totalitário que define o pré-25 de Abril como o tempo em que nada aconteceu, porque tudo era interdito. A noção de liberdade passou a confundir-se com a pose do último modelo de telemóvel.
Hoje em dia, nenhum discurso político propõe nenhuma alternativa "libertadora", muito menos "libetária". Não é tanto que a liberdade seja dada como adquirida (o que, em si mesmo, já é uma forma de droga intelectual). Num mundo em que, por imposição da publicidade, a festa é ininterrupta, a liberdade é entendida como um mero "gadget", disponível no quotidiano como o novo perfume da marca x ou o automóvel y com novo conceito aerodinâmico.
Na prática (porque tudo isto pressupõe uma prática de rotinas e métodos), a ilusão instalada de uma liberdade sem lei nem sofrimento gera um sistema de visceral menosprezo pelo radicalismo potencial de qualquer desejo. Instante a instante, os cidadãos consumidores são mobilizados para os mais variados rituais de satisfação. Mais do que isso: a satisfação esgota-se sempre em algum protocolo comunista. Não há desejo. Nem desejo de desejar.



