Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Crime (pérola 4) - O outro lado do espelho
"- Você é diferente dos outros - declarara ele pomposamente. - Eles só querem saber como. Como é que eu atraí, dominei, fodi, matei e ocultei. Mas você está verdadeiramente desesperado por saber porquê. Você quer que eu lhe diga que fui abusado pelo meu pai ou pelo padre da paróquia ou por outra pessoa qualquer. No seu espírito tacanho tem sempre de haver uma causa e um efeito. Mas você só está a proteger gente tão fraca como você próprio, Lennox. Você não consegue aceitar que o homem é um caçador, um predador. A sociedade civil foi constituída para proteger os fracos e os cobardes, sejam eles ricos ou pobres, dos fortes e virtuosos que têm a coragem de cumprir o destino da sua espécie. Que têm a gana de fazerem o que querem".
Termina aqui, desta forma dura, abrupta e doentia, o lançar de pérolas sobre "Crime" de Irvine Welsh. O fulcro do livro é a podridão do universo em que se movem os pedófilos, as suas artes de dissimulação, as suas razões ou falta delas, todo o lodo que, para nós, gente supostamente normal, é absolutamente inexplicável. Mas há razões. Profundas e entranhadas no mais negro breu da natureza humana, extirpadas de macabras histórias passadas ou, como a que acima se apercebe, nascidas de uma genética assustadora mas real. Ray Lennox, o polícia incrédulo, somos nós. O criminoso, o ser que explica o que para nós é uma conjunto de razões inexpugnáveis para a nossa capacidade de entendimento, é o mundo já ali ao virar da esquina, que, a qualquer momento, nos pode engolir. "Crime" dá-nos um vislumbre desse entendimento. Não é para todos, essa assustadora percepção. A ler, com as naturais reservas.



