Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
"A sangue frio", por Truman Capote
Estávamos no santo ano de 1959 na cidade de Holcomb, no Kansas, quando um fatídico acontecimento isolado teve lugar no seio de uma família. Nos anos que se lhe seguiram, nada o fazendo esperar, essa tragédia ganhou inimagináveis proporções. Voltando a 1959, Truman Capote, cujo verdadeiro nome era Truman Streckfus Persons (1924-1984), lê um artigo perdido nas últimas páginas do New York Times sobre o homicídio dos quatro membros de uma proeminente família de Holcomb, no Kansas. Histórias como essa surgem diariamente nos jornais americanos, mas nesta, um qualquer pormenor despertou o instinto de Capote. Foi nesse momento que ele acreditou que aquela era a oportunidade de testar a sua antiga teoria de que, pela pena do escritor certo, a realidade poderia aspirar a tornar-se tão apaixonante como a ficção.
“A sangue frio” (“In cold blood”), um trepidante “romance de não ficção” que muitos consideram ter aberto as portas para esse estilo de jornalismo romanceado, constitui uma leitura poderosa e imperdível. Truman Capote permite-nos entrar nas mentes dos criminosos (Dick Hickock e Perry Smith) enquanto recria os eventos que deram origem e que se seguiram ao terrível crime. Capote examina o passado familiar dos assassinos, entrevista-os no corredor da morte, analisa milhares de documentos relacionados com a investigação. Ainda assim, será que alguma vez conseguirá o autor explicar-nos as motivações para 4 tiros na cabeça de 4 inocentes, à queima roupa, sendo que como fruto desses crimes tenha resultado o ridículo roubo de uma quantia de 40 dólares?
No decurso da sua brilhante peça jornalística, Capote encaminha-nos para os mais importantes temas alguma vez abordados por um escritor americano. Falo no choque das duas Américas: a América segura das relações familiares, do sonho americano que recompensa o esforço dos seus cidadãos, que vive, paredes meias, com a América desenraizada e amoral que não deixou de viver nos tempos selvagens de índios e cowboys. Tinha razão Truman Capote quando escreveu a um amigo: “Por vezes, quando penso quão bom poderá ser este livro, mal consigo respirar”.



