Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
A sangue frio (pérola 1) - O insignificante peso da vida e as consequências da sua leveza quando levada ao extremo
«“O que é a vida? O brilho de um pirilampo na noite. O bafo de um búfalo no Inverno. A sombra minúscula que desliza na relva e se perde no crepúsculo”. – disse o chefe Pé de Corvo, dos índios Blackfoot.”» - esta última tirada estava escrita a vermelho e decorada com uma cercadura de estrelas a tinta verde; o compilador desejava acentuar o seu «significado pessoal». «O bafo de um búfalo no Inverno» evocava precisamente o seu conceito de vida. Para quê preocupações? Porque havíamos de nos esfalfar? O homem não é nada, uma névoa, uma sombra engolida pelas sombras.
Perry Smith, um dos dois assassinos, transportava sempre consigo uma pilha de coisas de que não queria separar-se. Para alguém que deambulava de terra em terra, pouco prático, mas há vícios de que não nos conseguimos libertar. Um dos pesos que carregava era o de um livro de apontamentos, uma “antologia de factos obscuros” como lhe chamou Truman Capote. No trecho acima uma imagem tremida de quem era Perry, o que se podia esperar dele, quase que se vislumbra o porquê das suas acções homicidas. Quando o peso da insignificância sufocou Perry, quando a ausência de qualquer motivo para se comprometer com a mais ínfima responsabilidade pessoal ou social lhe delineou o rumo, a tragédia infiltrou-se insidiosamente no seu íntimo e foi só uma questão de tempo. Tempo que sempre chega, mais cedo ou mais tarde. Como chegou para uma inocente família. Como chegou para Perry Smith.


