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Este país não é para velhos (pérola 4) - Acabaram as pastilhas Gorila

Segunda-feira, 01.03.10

 

 

"Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais eram os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de resposta às perguntas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversas nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles pegaram num dos impressos que ainda estava em branco e policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios.

 

E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes em que digo que o mundo está a ir direitinho para o inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximoas quarenta façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde."

 

 

Pela voz do Xerife Bell escutamos Cormac McCarthy pôr o dedo na ferida de um dos maiores dramas das sociedades modernas. A incapacidade para avaliar as mudanças de hábitos, costumes e valores que, lenta e insidiosamente, se infiltram nos pilares da sociedade e nos laços que unem ou desunem as pessoas. A imagem do trecho acima cola-se na perfeiçao a uma sociedade em rápida e constante mutação como os E.U.A.. Mas podemos nós afirmar que no nosso prédio, no nosso bairro, no tecido social da cidade que nos envolve, as mutações não foram igualmente devoradoras, sem que lhes déssemos a devida importância?

 

Essa aparente inconsciência e desinteresse têm, a meu ver, uma raíz comum. Sentimos o rumo que as coisas levam como algo que não podemos mudar, um género de destino auto-infligido no nosso futuro, e, mais grave, no futuro dos nossos filhos. O conformismo nasce daí, da ideia de que não há nada a fazer, as coisas são como são. Mais fundo, nas profundas razões da inacção, está um entranhado processo de "preguiça social", que serve de travão aos fracos impulsos de combater o status quo. E afundamo-nos no sofá. E assistimos ao esboroar do mundo como o conhecemos enquanto mascamos a pastilha elástica que nunca mais será a mesma.

 

p.s. - As fotografias que acompanham são de Elene Usdin.

 

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publicado por bolaseletras às 23:33


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