Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Uma lufada de ar fresco (Naval 0 - Braga 4)
Se este campeonato mantém um relativo interesse quase até ao fim, muito o deve à paciência deste Sporting de Braga de Domingos. Desejo sinceramente que o crescimento confirmado pelo Braga este ano se confirme nos próximos. Porque o clube tem uma estrutura bem montada e séria, porque tem uma forte massa associativa como base de apoio, porque as boas práticas que tem mostrado na gestão do plantel, nas aquisições e nas vendas podem servir como inspiração e exemplo para os clubes que ainda estão lá atrás. Mas, sobretudo, porque um campeonato competitivo para além dos 2 ou 3 do costume, é um melhor campeonato que torna os seus clubes mais fortes. Que bom é ver milhares de adeptos de Braga acompanharem a equipa a Leiria ou à Figueira da Foz. Contra a maioria, venha de lá essa força de Braga!
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E o povo, pá?
Mais um aniversário do 25 de Abril, mais um ano não muito convidativo para fazer balanços das conquistas de Abril. Trinta e seis anos depois já podemos reunir-nos em grupelhos na rua sem sermos importunados e acusados de perigosos agitadores, já há partidos para todos os gostos, já toda a gente se insulta livremente nos jornais, a liberdade de imprensa erigida ao baluarte das liberdades tornou muita da nossa imprensa num sítio mal frequentado. Hoje o Eusébio já poderia ir jogar para Itália, hoje o Dr. Salazar cairia bem antes de lhe cair a cadeira. O povo está mais avisado, dificilmente as mordaças voltarão. E o resto? Aquilo que, para além da liberdade, se projectou alcançar com o 25 de Abril? Não falo da melhoria das condições de vida, porque essa positiva mudança, não me venham com tretas, é inequívoca (como diz alguém que muito prezo, um homem dos tempos de outrora mas que não é saudosista desses tempos, antes havia fartura de tudo, até de fome). Falo de tudo o resto de que fala o Jel (ver vídeo), esse fantástico personagem de mil alter egos. Da corrupção, do desemprego, de uma vida desafogada, de tornar Portugal um país menos desigual, onde quem vem de baixo tenha condições justas para subir na pirâmide, onde não sejam sempre os mesmos, onde as caras mudem pelo mérito, onde não se mande sem critério e em prol de uns amigalhaços. E O POVO, PÁ?
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Nem tudo o que é vermelho enjoa - um obrigado à Angelina por existir
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O conforto da maioria
É complicado explicar isto sem passar por faccioso compulsivo. É inequívoco, o Benfica merece ser campeão. Jogou quase sempre mais que os principais adversários, esteve sempre um passo além. Mas depois há tudo o resto. Um árbitro que não hesita em marcar um penalty no 1º minuto punindo um remate à queima roupa contra a mão de um jogador, uma ausência de quaisquer dúvidas em soprar o apito para expulsar um jogador nos primeiros 10 minutos por uma primeira falta a meio campo (a entrada foi rasgadinha mas a 1.ª, a meio campo, impunha-se bom senso), pouco importando se o essencial de qualquer jogo estava estragado: a igualdade de armas. Se calhar, a mão até poderia ser marcada, a expulsão executada. O que impressiona é que nestes casos o árbitro nunca hesita, sabe que vai apitar em favor da maioria pelo que nunca hesita. É confortável apitar assim.
Depois, assegurar o futuro próximo também à força do apito. Por terras sadinas, uma entrada assassina contra Falcão, um chega para lá instintivo que raspa na cara do adversário, o amarelo sem mais hesitações, decisivo, no peso certo para que Falcão não defronte o Benfica na próxima jornada. Pedro Henriques sabia-o, como tão bem o sabia o árbitro que expulsou Izmailov antes da Luz, tudo muito confortável. Falcão merecia o amarelo? Provavelmente sim, mas o que impressiona é a mecânica ausência de hesitação, o vazio de dúvidas quando se navega na maré da maioria. Para reforço da teoria, que tal a primeira expulsão na carreira de Jesualdo Ferreira antes do jogo com o Benfica? Curioso e conveniente, não? A força inabalável da maioria, a desgraça das nações.
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Rivalidade futebolística, essa paixão que nos anima
Como se esperava, a previsível conquista do campeonato pelos vermelhuscos vai assumindo, crescente e irremediavelmente, foros de insana e destemperada alegria vingativa. Esta gente que prima pela beleza física e pela elevação intelectual não se limita a ganhar. Aliás, isso de ganhar pouco importa. O que realmente almejam no início de cada época é guinchar aos ventos que nunca o mundo viu algo assim, eles, os mais puros, a nata do povo, o verdadeiro povo, muitas vezes pobrezinhos e sofridos, são os reis da bola, a eles ninguém lhes ganha. O espírito desportivo é para eles poder dizer que vão reservar a rotunda do Marquês, alambazar-se na Boavista, se possível cuspir na bancada das Antas enquanto festejam o título contra os inimigos do norte (poderiam ser os do sul, pouco importa para o efeito). O que os aproxima do tal orgasmo de que Gomes falava quando marcava o golo, não é esse tal golo, é sim saber que naquele dia, naquele momento em que ficarão à frente, serão finalmente melhores em alguma coisa na sua pobre vidinha.
O sonho de uma vida é aquele em que sairão empanturrados de vermelhusco orgulho dos seus casulos das tristes periferias, o dia em que levantarão a massacrada cabeça do volante do seu imundo táxi (acreditem, 99% dos taxistas são benfiquistas), aquele inesquecível momento em que largarão a sebenta farda e olharão o mundo com os olhos de alguém que finalmente se sente alguém. A bem da nação, em prol de um melhor e mais saudável país, acabem depressa com este tem que não cai. Levem lá o caneco e encham os beiços da gordura da entremeada da glória, palitem os dentes com os pelos do courato da vitória, engulam de um só trago toda a cerveja da tasca do canto. Mas deixem-nos trabalhar, deixem o país andar (mesmo que devagar ou devagarinho), permitam que adiemos um pouco mais a chegada à inevitável bancarrota. Sim, um país com 60% de benfiquistas não é um país, não tem salvação possível, é apenas mais um cabaret de má fama.
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MIAU!
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A irreparável perda
Fotografia de Henry Cartier Bresson - SPAIN. Andalucia. Seville. 1933.
Agora que entrei nesse patamar da existência que é gerar e criar outra vida, recuo, olho para trás, e percebo onde poderá ter ficado retida a luz que deveria iluminar as nossas vidas. No esquecimento, naquela barreira nebulosa a que chamamos memória e que nos ofusca as inesquecíveis recordações. Da pureza, do incondicional sorriso, do coração a rebentar de felicidade. Sem razões, apenas impelidos por aquela natureza que marca os primeiros anos: a natureza da inocente ignorância e da crença sem limites. Num mundo e numa vida boa, em risadas sem fim, de boca e coração escancarado.
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Da crença num mundo melhor
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A Edith e o arrependimento
Toda a vida a olhar para trás. Uma palavra desfasada, o sorriso que faltou, um arriscar que ficou contido na garganta. Sempre, sempre o arrependimento ao virar da esquina. Passo avante, retroceder. O medo do passo em falso que leve ao cadafalso. Toda uma vida em manobras perigosas. Avante, marcha a ré. Toda uma existência com olhos na nuca. A Edith, a Edith é que foi grande. Ah mulher!












