Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Há um que não é perdigueiro nacional, mas que não lhes fica nada atrás no apuradíssimo faro
Aproxima-se o Verão, abundam os fins-de-semana alargados, o calor amolece os corpos, entorpece as ideias, arrefece os ímpetos intelectualóides. A quantidade de incisivas abordagens, críticas assassinas e pérfidas análises que me percorre os nervos não vos cabe na cabeça. Mas os dias não estão para isso, o país está inundado de analistas e salvadores incompreendidos, seria apenas mais uma agulha no palheiro. Assim, para descanso de todos nós, volto às bolas e a serenas letras, e também a alguma parvoeira, que é o que se pede em dias de modorra. Vou ali que o jovem Miguel está a pedir para eu bater palmas com ele. Queira Deus que não seja pelo Tony Carreira que se esganiça na telinha em prol da selecção. Queira Deus.
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Cheira-me que isto não vai acabar bem
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Malta que marcou em finais de mundiais - Alcides Ghiggia (Brasil, 1950)
Inicio esta série sobre jogadores que marcaram em finais do campeonato do mundo, confessando que a inspiração foi traduzida do http://www.guardian.co.uk/. As fotografias dos jogadores são actuais, mostrando à saciedade que mesmo as mais reluzentes estrelas sentem o passar dos anos. As palavras dos jogadores, essas, não envelhecem.
Alcides Ghiggia, marcador do golo da vitória do Uruguai contra o Brasil, em 1950. O Uruguai venceu por 2-1.
"Era o minuto 79. Posicionei-me na diagonal face à baliza. Eu vinha em corrida e coloquei a bola bem junto ao poste. Quando o guarda-redes mergulhou a bola já estava nas redes. Instalou-se o silêncio. No fim do jogo estávamos felizes, abraçámo-nos, até demos uma volta de honra. Mas foi…não sei, senti qualquer coisa…havia 30 ou 40 uruguaios no estádio e o resto eram brasileiros. Apesar da alegria que sentimos, foi triste ver as bancadas, pessoas desesperadas, a chorar. Senti um pouco de tristeza dentro de mim."
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E nunca mais começa o Mundial (ao serviço de Sua Majestade)
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A sangue frio (pérola 1) - O insignificante peso da vida e as consequências da sua leveza quando levada ao extremo
«“O que é a vida? O brilho de um pirilampo na noite. O bafo de um búfalo no Inverno. A sombra minúscula que desliza na relva e se perde no crepúsculo”. – disse o chefe Pé de Corvo, dos índios Blackfoot.”» - esta última tirada estava escrita a vermelho e decorada com uma cercadura de estrelas a tinta verde; o compilador desejava acentuar o seu «significado pessoal». «O bafo de um búfalo no Inverno» evocava precisamente o seu conceito de vida. Para quê preocupações? Porque havíamos de nos esfalfar? O homem não é nada, uma névoa, uma sombra engolida pelas sombras.
Perry Smith, um dos dois assassinos, transportava sempre consigo uma pilha de coisas de que não queria separar-se. Para alguém que deambulava de terra em terra, pouco prático, mas há vícios de que não nos conseguimos libertar. Um dos pesos que carregava era o de um livro de apontamentos, uma “antologia de factos obscuros” como lhe chamou Truman Capote. No trecho acima uma imagem tremida de quem era Perry, o que se podia esperar dele, quase que se vislumbra o porquê das suas acções homicidas. Quando o peso da insignificância sufocou Perry, quando a ausência de qualquer motivo para se comprometer com a mais ínfima responsabilidade pessoal ou social lhe delineou o rumo, a tragédia infiltrou-se insidiosamente no seu íntimo e foi só uma questão de tempo. Tempo que sempre chega, mais cedo ou mais tarde. Como chegou para uma inocente família. Como chegou para Perry Smith.
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A arte da guerra
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O vírus
"A minha vida é um conjunto de «ses». Se na altura eu não estivesse queimado, se calhar o Ricardo Araújo Pereira agora era um romancista excelente. E o Nuno Artur Silva era um ilustre professor de português".
Declarações do outrora inigualável humorista Herman José
O Herman significa para mim certamente o mesmo que para 95% da malta porreira da minha geração (há sempre os enconadinhos que achavam o seu humor ordinário). O Herman estava avançado para a época, a época e as pessoas que nela assentaram arraiais evoluiram com o empurrão do Herman. Depois, como qualquer apogeu, seguiu-se a queda, inexplicável e incontornável. Não sei porque estava o Herman queimado, sei que ele não poderia esperar que à sua volta ninguém estivesse em espreita de uma oportunidade. O Herman não poderia ter-se acomodado na confortável cama dos seus louros. Nenhum de nós pode. Porque, queiramos quer não, o mundo vive de competição e de melhoria contínua. Sob pena da crise se instalar em nós, sob pena de nós disseminarmos esse vírus pelo país. Se é que já não está irremediavelmente disseminado...
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Portugal 3 - Camarões 1
Por motivos de força maior impostos por um irresistível menor, não assisti à primeira parte do jogo da nossa selecção. Também a segunda parte foi vista entrecortada com palhaçadas do dia da criança, executadas por este fantástico diabrete que me entrou pela vida adentro. Do que vi e me apercebi, singelas notas:
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Ponto prévio – que a desilusão e o texto menos entusiasmado após o jogo com Cabo Verde não nos desviem do que realmente importa. A nossa selecção é para apoiar, jogue bem ou jogue mal. No fim, feitas as contas, logo se condene quem houver para condenar ou louve quem houver para louvar. Apoiar é necessário, deixemo-nos de manias portuguesas de procurar antecipadamente bodes expiatórios. Vou fazer um esforço, façam-no também.
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Raul Meireles pode ser um esteio deste meio campo, esperemos que venha a confirmá-lo. Precisamos de poder de fogo e de garra, e ele tem-nos de sobra.
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Gosto muito da forma de jogar de Danny, da velocidade que imprime ao jogo, da constante e elevada rotação que mete nas jogadas. Muito lucraria a selecção se o mister Queiroz conseguisse encaixá-lo no 11 inicial.
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Nani tem que jogar sempre, Ronaldo pareceu-me mais calmo e menos ansioso, só lhe falta agora pegar fogo ao rastilho. A Deco faltam pilhas, vamos a ver se o clima africano ajuda…
Apenas estas notas, que incidem sobretudo no ataque e na parte criativa da nossa selecção. É esse o principal handicap, é aí que os automatismos e as soluções têm que surgir. Ah, para terminar, lamentar a historieta das vuvuzelas. Não percebo o que têm a ver com Portugal, não percebo esta histeria infantil. Chateia-me e cheira-me a agoiro. Vá, ainda assim, força rapazes!















