Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Ivanovic, Ana Ivanovic
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Uma gare à imagem do país
Estas férias armei-me em ecologista, poupadinho e bom rapaz e nas deslocações de fim-de-semana ao reino dos Algarve usei e abusei da CP e dos seus prodigiosos Alfa e Inter-Cidades. A partida de Lisboa, sempre da Gare do Oriente, deixava-me inapelavelmente um gosto agridoce, mais do que na boca – no cérebro. Se por um lado esta e outras imagens embelezavam os fins de tarde, dando a perceber que a feitura da estação em causa tivera inegavelmente preocupações estéticas, já outros pormenores me levaram ao desespero. No Verão o sol inclemente no piso das linhas é impiedoso e capaz de arrasar com crianças, velhos e menos velhos. A escassez de bancos, para não prejudicar o meticuloso alinhamento dos que rareiam desespera o mais resistente. No Inverno, o frio e a chuva são indesejáveis companheiros de viagem. Dir-se-ia que a Gare do Oriente foi construída à imagem do país. Um belo e reluzente embrulho (CCB, Expo, estações de metro, auto-estradas) que encobre deficiências várias, inutilidades muitas, irracionalidades e relações custo-benefício inconcebíveis. Um dia havemos de perceber que uma boa fatia de pão caseiro com salsichão lá da terra embrulhada em papel de merceeiro sacia bem mais do que uma reluzente tosta de foie gras parisiense.



