Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Moreirense 3 - Sporting 2
Uma vontade de louvar, o habitual azar, ainda bastantes fragilidades. Mas já se vê fio de jogo e ligação entre sectores, muito porque se recuperou Rinaudo e Schaars. Aliás, a marca do demérito de Sá Pinto passa por ter assistido à aposta em Gelson Fernandes em vez de Rinaudo. Porquê? Porque Rinaudo é um líder, um jogador que enche as medidas dos sportinguistas que gostam de homens e jogadores assim, que deixam tudo em campo mas com critério. Sá quis dar o seu cunho, quis dizer que o que vinha de trás vinha mal, mesmo que desaproveitando o que de bom tínhamos. Não sei se Oceano será treinador para o Sporting, mas sei que a equipa melhorou e que a vontade com que hoje jogaram já teve mais critério. Individualmente o enorme Fito Rinaudo e uma entrada fantástica de Viola, sem dúvida um jogador que poderá ser utilíssimo. Jéffren, esse, provou hoje que ou está lesionado ou está a ganhar ritmo após as lesões, mesmo quando estas já há muito se foram. E Patrício, o grande Patrício, é neste momento grande demais para este Sporting. Cresce leãozinho, cresce porque o teu lugar não é aqui.
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Mistérios no feminino
Mistério da condição humana ou mito urbano? Falo da amizade feminina, esse estado que tanto encanta os mirones e faz brilhar o mundo. Será mesmo possível que as mulheres se digam cúmplices, que mergulhem numa cumplicidade inequívoca, sem condições, sem subterfúgios, sem sentidos ocultos ou desejos submersos? Será real a possibilidade de uma mulher idolatrar um homem, tendo o azar desse fauno ser namorado da melhor amiga, e nada fazer para o seduzir, nada indiciar, nada deixar escapar pelo canto da boca ou pelo brilho dos olhos? Será possível uma mulher soltar um flato e a boa amiga que partilha essa ventosidade aromática rir de bom grado, com alma, sem sequer pensar em denunciar a badalhoquice num próximo evento feminino em que a descuidada amiga não participe? Serão as mulheres capazes de cultivar amizades infantis ou absolutamente absurdas apenas porque a amizade é assim, incondicional? Serão as mulheres capazes de subir um degrau e atingir o patamar da amizade masculina?
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Bom fim de semana e não se deixem abater com a chuva
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"O Anjo Ancorado" - Também um problema de elites
“Este ar de terra a terra é fácil de perceber-se nalguns infantes da lavoura que gastam a maior parte da vida nas grandes capitais. Nesses, as falas provincianas e o tom com que se dirigem aos criados são coisas cultivadas, uma espécie de marca de estirpe para os diferenciar do resto dos mortais que não têm terras nem passado para lá da cidade. São outra gente; gozam a paz da fortuna e das famílias, bebem vinho tinto nos bares do Guincho ou de Cascais sem que alguém lhes leve a mal. Julgam, em suma, a cidade à medida da aldeia. E passeiam-se nela. (…) Como os monarcas que desciam à rua para enriquecer o sangue nos ventres populares.”
Há alguns dias Vítor Bento, Conselheiro de Estado, afirmou estar convicto que o problema de Portugal sempre foi das elites e não dessa massa informe e que para tudo serve intitulada de povo. Tenho poucas dúvidas da evidência dessa convicção, duvido ainda menos que a multidão de filhos de grandes e históricas famílias prefira mudar esse estado de coisas, abandonando assim a vida de passerelles e de contemplação da bela imagem nos espelhos dos corredores de luxuriantes palácios (grandes escritórios de advogados, gabinetes ministeriais, multinacionais do regime, etc.) por onde se passeiam. Pouco me importa que esses maduros bebam vinho nos bares do Guincho ou de Cascais, mas já me lixa o juízo que se estejam a cagar para o povo que colhe e pisa as uvas que lhes proporciona o néctar dos Deuses. Pode ser que um dia, como Sócrates, bebam cicuta em vez de tinto.
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"Come on baby light my fire"
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Apesar de tudo, parabéns Cristiano! (Portugal 1 - Irlanda do Norte 1)
Dia de 50.000 pessoas no Estádio do Dragão. Dia de trabalho, de chuva inclemente, dia de ressaca das desgraçadas medidas orçamentais – 50.000 no Dragão. Dia em que Ronaldo comemora as 100 internacionalizações, dia de louvar o melhor jogador português de todos os tempos, um exemplo de self made man, um miúdo pobre que à custa das suas lágrimas, sangue e suor chegou ao topo do mundo. E, ainda assim, tudo falha. O talento, a inspiração, a concentração, o querer e o saber querer, os passes, o domínio de bola, a pontaria, o sangue frio, a escolha do momento e da decisão mais correcta. Falha Bento que de tão certinho nas suas opções conservadoras de risco mínimo retira a magia a esta selecção. A substituição, já a perder 1-0, em que coloca em campo Ruben Amorim é um marco desse respeitinho patético. Sempre defendi Paulo Bento, mas hoje desiludiu-me profundamente. Nani, Micael e Postiga foram demasiado fracos. Falharam demasiados jogadores, erraram-se demasiadas opções e os 50.000 não mereciam isso. O país no estado em que está não merecia isto. Vejam lá isso, rapazes, repensa lá isso, Paulo. Esperemos que ainda seja a tempo de apanharmos o voo para o Brasil.
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O coveiro
A cara deste homem nunca augura nada de bom. Este homem não optou pela carreira de serial killer por mera distracção do destino. Este homem não conhece o significado das expressões “social democracia”, “justiça social” e “solidariedade inter-geracional”. Este homem tem olhos e atos de coveiro. Este homem já percebeu que o caminho traçado não nos leva a lado nenhum, mas este homem quer ficar gravado na pedra da história, pouco interessa o motivo, bom ou mau, branco ou negro. Este homem, se não o travarem, vai ser o nosso coveiro.
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"O anjo ancorado"
“O Anjo Ancorado” é um romance pequeno, de histórias e diálogos curtos, como que uma fábula de partes do Portugal dos anos 50. Breves trechos do Portugal rural e miserável cruzam-se com figuras burguesas, com os novos ricos que têm consciência de o ser e do ridículo dessa condição. Há também carroças a percorrer Lisboa, velhos famintos a perseguir pardais minúsculos para matar a fome e raparigas que sonham ser mulheres mas que tremem de medo de o ser. Mais do que tudo “O Anjo Ancorado” é um obra preciosa, um bordado de filigrana em que as palavras encaixam umas nas outras com a naturalidade da vida. E são os livros que se parecem com a vida os que verdadeiramente valem a pena.











