Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
A sangue frio (pérola 2) - Alvos em movimento
"Se estou arrependido? Se é isso o que queres saber poder crer que não. Não sinto nada que se relacione com isso. Desejaria sentir. Mas a verdade é que a coisa não me preocupa. Meia hora depois do caso passado, Dick estava a dizer piadas e eu a rir-me com elas. Talvez sejamos ambos desumanos. Mas eu sou suficientemente humano para sentir pena de mim próprio. Pena de não poder sair daqui para fora contigo quando te fores embora. Mais nada. (…) Matar é fácil. Fica sabendo, é muitomais fácil do que passar um cheque falso. Mas lembra-te: eu só conheci os Clutter durante uma hora. Se os tivesse conhecido há mais tempo aposto que sentiria de maneira diferente. Acho que nunca perdoaria a mim próprio. Mas, assim, era como atirar ao alvo numa barraca de feira."
Na tentativa de pôr para trás das costas o Mundial e dedicar-me a escritos sérios e menos esféricos, regresso ao “A sangue frio" de Truman Capote. E regresso à razão porque este livro nos prende da primeira à última página. Porque, imitando a vida, procuramos nos livros sempre um sentido para a razão de ser dos actos, dos sentimentos, os porquês, as motivações, para nós uma acção tem que ter sempre uma causa, inelutavelmente os acontecimentos estão revestidos de motivações lógicas. Aqui, embrenhamo-nos no relato do crime, em toda a conjuntura, origens e circunstâncias dos dois criminosos, para perceber os porquês da crueldade e do sangue gélido. Perry, um deles, ri-se de nós e explica singelamente: não há arrependimento, matar é fácil quando não se conhece a vítima. A bofetada dói no mais fundo de nós. Somos todos alvos em movimento porque somos todos desconhecidos de alguém. Sem causas, razões ou porquês.



