Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
De que é que estamos à espera?
Excertos de um diálogo tido numa loja da TMN, em Lisboa, bem dentro da excelsa freguesia de Marvila. Os participantes são moi même e um jovem funcionário da Companhia, empresa, multinacional, seja lá o que aquele antro de ignorantes for.
- Boa tarde. Queria comprar um bilhete para o festival do Sudoeste, sff.
- Huuuummm…acho que não temos. Acho que desde que abrimos, há 3 anos, nunca vendemos.
- Tem a certeza? Olhe que no site da TMN informam que sim. Veja lá isso bem
- Huuummm…só um minuto.
Os primeiros 5 minutos esgotam-se, começo a reflectir sobre o facto daquela loja ter muita afluência, ou, se por outro lado, o problema estava no tempo de espera e não na quantidade de clientes.
- Olhe, afinal vendemos, já há 3 anos. Mas é a primeira vez que vendemos um bilhete. Acho que a malta de Chelas não é muito de ir ao Sudoeste. Quer quantos e para que dias?
- Era exactamente o que eu estava a pensar, este não será o público alvo. Para 5 dias.
- Só um minuto, vou buscar.
Mais 5 minutos, desenvolve-se em mim a crença de que o problema do elevado número de pessoas na loja é a incompetência dos funcionários, do gerente, do presidente, de toda uma cultura de lentidão, preguiça e desinteresse no próprio trabalho e sobretudo pelo cliente.
- Aqui está. Desculpe lá, é o primeiro, agora tenho só que ver aqui no sistema informático como lhe vendo isto.
Mais 10 minutos até acertar, a minha expressão de enfado é acompanhada de alguns comentários sobre a usabilidade do sistema ou o conhecimento do pobre rapaz sobre o mesmo.
- Bom, já está, agora vou-lhe imprimir a factura. Nome, morada, sff.
- OK, isso não deve servir para o IRS, mas sempre é uma forma de garantir que vocês pagam imposto sobre a venda do bilhete. – lá lhe dei a morada.
- Então vou só imprimir…huuummm, esta impressora não está a dar…huuum, vou lá dentro.
10 minutos, bem contadinhos. Solto baixinho umas imprecações, mas ainda assim audíveis para os restantes funcionários.
- Desculpe lá, vou precisar outra vez dos seus dados, a impressão não resultou.
Admito, aqui a paciência esgotou-se, perguntei ao jovem funcionário se tinha noção de que num quiosque de esquina eu comprava a merda do bilhete num minuto, se ele achava normal estar há mais de meia hora para me vender um bilhete. Lá foi imprimir o bilhete e regressou assustadíssimo para me pedir de novo a morada. Perante a minha expressão, sugeriu tirar uma fotocópia do bilhete que me enviaria depois para a morada. Contive-me e não o insultei. Vencido, desesperado, afastei-me em direcção ao pôr do sol, convicto de que o país não tem salvação, de que aquele rapaz comete os mesmos erros vezes sem conta, sem procurar melhorar, sem que ninguém fiscalize a sua incompetência, sem que a avaliação do final do ano reflicta tamanha desgraça. Ai Portugal Portugal, de que é que tu estás à espera?



