Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
As I lay dying - William Faulkner
O título desta obra de Faulkner é para mim intraduzível. Ou, pelo menos, a sua tradução nunca fará jus à beleza com que se apresenta na língua inglesa. As I lay dying contém muito mais profundidade e riqueza do que o “Na minha morte” em língua portuguesa, portanto será na língua da velha Albion que me referirei a este livro. Estamos perante uma tragicomédia genialmente urdida, tecida em torno da morte da matriarca de uma família e do seu derradeiro desejo. Toda a história é sustentada num conjunto de monólogos interiores alternados por quinze narradores com diferentes intensidades. Um objectivo norteia toda a história, cumprir o desejo da falecida Addie Bundren de ser enterrada junto à sua família, o que obriga a um estranhíssimo conjunto de sofridas aventuras dos seus familiares, que contra as intempéries e os obstáculos da natureza percorrem oitenta intermináveis quilómetros até ao destino prometido.
Faulkner utiliza nesta obra a sua característica estrutura narrativa, recorrendo a múltiplos pontos de vista dos protagonistas, explorando as suas distintas vozes psicológicas interiores. Já li As I lay dying há alguns anos, mas ainda me recordo bem do prazer intenso que senti ao percorrer essas páginas, ao calcorrear os 80 quilómetros de angústias e de quixotescas atitudes dos carregadores do caixão. Faulkner intromete-nos no mais fundo das personagens, vivemo-las de perto e facilmente entramos no ambiente criado pelo escritor. As pérolas deste livro que aqui deixarei são um pequeno exemplo da genialidade deste escritor único. Não entrar no seu mundo é abdicar de uma parcela imprescindível da história da literatura.


