Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
As I lay dying (pérola 2) - Da preguiça
“Só um preguiçoso, um homem que odeia mexer uma palha, teima em não parar quando se põe em movimento, da mesma maneira que teimava em não se mexer, como se não odiasse propriamente o movimento, mas sobretudo o arrancar e o parar”.
Se para nós, pobres mortais, a preguiça é facilmente definível e identificável, para Faulkner há algo mais para além do comum entendimento. O habitual será considerar o preguiçoso como alguém que se entrega à inacção, que revela elevada dificuldade para concretizar as tarefas que a vida lhe impõe. Apontamos geralmente a falta de movimento e a constante entrega à modorra como características de um preguiçoso. Faulkner olha mais fundo, procura no cerne da preguiça a sua verdadeira natureza. No trecho supra, percebe-se que o que está em causa não é tanto a animosidade ao movimento ou ao empreendimento de actividades, mas sobretudo a incapacidade de mudar a agulheta, a aversão às mudanças de rumo. Porque a inacção pode estar mais na longa caminhada mil vezes repetida, do que em dar um mero passo para o lado. O conforto das familiares estradas devem mais à preguiça do que optar por uma vida de constante contemplação. Porque quase sempre a preguiça é mais mental do que física. Como se andar sem parar fosse uma desculpa para não pensar. Como se parar permitisse um imparável movimento das amortecidas meninges.


