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Os Nomes (pérola 1) - O sonho dos sonhos

Segunda-feira, 15.11.10

 

  

"Ser turista é fugir da responsabilidade. Os erros e os defeitos não se colam a nós como em casa. Somos capazes de vaguear por continentes e línguas, suspendendo a actividade do pensamento lógico. O turismo é a marcha da imbecilidade. Contam que sejamos imbecis. Todo o mecanismo do país hospedeiro está adaptado aos viajantes que se comportam de um modo imbecil. Andamos às voltas aturdidos, olhando de esguelha para mapas desdobrados. Não sabemos falar com as pessoas, ir a lado nenhum, quanto vale o dinheiro, o que comer ou como o comer. Ser-se imbecil é o padrão, o nível e a norma. Podemos continuar a viver nestas condições durante semanas e meses, sem censuras nem consequências terríveis. Tal como a outros milhares, são-nos concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um exército de loucos, usando roupas de poliéster de cores vivas, montando camelos, tirando fotografias uns aos outros, fatigados, desintéricos, sedentos. Não temos mais nada em que pensar senão no próximo acontecimento informe."

 

 

 

Descontando o lado caricatural deste trecho sabiamente elaborado por De Lillo, para sermos honestos teremos que confessar reconhecermo-nos em muito do que ali está escrito - bastará fechar os olhos e fazer uma viagem imaginária às nossas últimas férias. O desejo de conhecer a cultura, a arquitectura e os monumentos de uma cidade num qualquer país que não o nosso não será desprezível na hierarquia das nossas intenções, mas o que procuramos com esse afastamento voluntário da nossa realidade é o esquecimento das rotinas, das obrigações, das regras que cegamente seguimos dia após dia. Quando em Sevilha visitei mil e uma catedrais o que realmente me preencheu as férias foram as tapas e as cañas, a sesta subsequente, só para ganhar espaço para mais tapas a cañas. Quando em Paris me inebriei com os incontáveis recantos da mais bela cidade, o que hoje me preenche as memórias são os almoços de queijos e vinhos da mercearia por debaixo do minúsculo T0 que me albergou. Depois dessa opípara refeição, descer os quatro andares de ancestrais degraus e ver tudo com novos olhos, esquecer de vez que há uma terra mãe, que há um monótono quotidiano a milhares de quilómetros de distância. Ah, ser turista de profissão, o sonho dos sonhos…

 

 

 

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publicado por bolaseletras às 19:56


4 comentários

De Teresa a 16.11.2010 às 13:16

Muito comes tu enquanto Turista ;).

Eu adoro esse afastamento voluntário da realidade e o esquecimento das rotinas (embora paranóica como sou acabo criando as routinas de férias LOL), das obrigações, das regras que cegamente seguimos dia após dia; mas gosto de pensar que não caio nesse alheamento ("deixem-me em paz, estou de férias") sugerido pelo DeLillo.

No meu caso é mais um beber do novo sítio onde estou, as pessoas, os seus hábitos. Sevilha no passado Verão foi uma Odisseia, pois para mim tapas era uma rodela de chouriço em cima de um pedaço de pão ahahahah. Nunca mais vou para Espanha a pensar que são Nuestros hermanos e aqui como lá... ;)

:-( Deste-me vontade de ir de férias. Está um dia escuro e cinzentão e as pessoas também... quero ver esses que o DeLillo descreve e esse que tu descreves :D. Adoro Lisboa mas tenho tão poucas oportunidades de usufrui-la como Turista.

De bolaseletras a 16.11.2010 às 19:33

Teresa,

Gastronomia é cultura. E sim, esta conversa dá uma saudade das férias. E sim, Lisboa tem ainda tanto por descobrir. Haja tempo!

De Teresa a 16.11.2010 às 21:35

Eu sei que sim... que Gastronomia é cultura, isto é.

Mas é talvez o aspecto onde usufruo menos.

Cá come-se de facto muito bem e muito barato, comparado com Paris por exemplo. Achei Sevilha mais acessível... Em Paris e com dois adolescentes é de fugir ahahahahah

Quanto a Lisboa eu adoro vê-la pelos olhos (lentes) de amigos estrangeiros que me honram com as suas férias passadas cá. Quando vejo as fotos que tiram, os recantos que descobrem pergunto-me o que vou fazer "lá para fora"... e a resposta é aquilo que descrevias como afastamento que ao fim de uma época futebolística, um ano político e um ano em open space é essencial para manter-se aquela réstea de sanidade...

De bolaseletras a 16.11.2010 às 23:04

As duas mais belas cidades: Lisboa e Paris! Em Paris, comprar um vinho, uns queijos e uns tomates inesquecíveis e a refeiçao fica em conta, Teresa!

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