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"O adeus às armas" - O conforto do fim

Domingo, 04.03.12

  

 

"- O homem na maca por cima de mim está com uma hemorragia.

- Estamos quase no alto. Sozinho não posso tirar a maca para fora.

Pôs o motor novamente em marcha. O sangue continuava a escorrer. No escuro, eu não podia distinguir de que parte da maca ele caía. Tentei afastar-me para o lado para não me cair em cima. O que tinha escorrido para debaixo da minha camisa era quente e viscoso. Na perna que me doía sentia-o frio, o que me fazia ficar enjoado.

(…) Passado algum tempo o fio de sangue diminuiu, e passou a cair novamente em pingas; ouvi e senti a maca por cima da minha cabeça mover-se quando o homem se instalou mais confortavelmente.

- Como vai ele? – perguntou o inglês. – Estamos quase a chegar.

- Morreu, ao que me parece – disse eu.

Agora as pingas caíam muito lentamente, como caem de uma estalactite de gelo depois do pôr do sol. Estava frio dentro da ambulância, no escuro, naquela estrada em rampa. No posto no alto da encosta tiraram a maca, puseram outra e prosseguimos."

 

Este punhado de palavras pode resumir todo o estilo de Hemingway. Seco, frio, limado até à medula do essencial. E depois a frieza da morte num cenário de guerra. Apenas uma morte, apenas mais uma morte. Sem grandes alaridos, um esperado fim para uma actividade de risco e sem sentido. Dificilmente me esquecerei da forma como Hemingway descreve a percepção que um soldado tem de que outro morreu: “(…) quando o homem se instalou mais confortavelmente.”

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publicado por bolaseletras às 14:53


3 comentários

De Teresa a 04.03.2012 às 16:38

Uma pérola de facto.

Por isso, disse que deveria ser lido quando o leitor tem maturidade emocional e intelectual para sentir as gotas e desejar o fim onde poderá finalmente suspirar com o fim.

Em Hemingway não há cor-de-rosa; só preto, branco e algum cinzento.

O Homem para ele é isso (e só) mesmo um "involucro" - de emoções (No escuro, eu não podia distinguir de que parte da maca ele caía. Tentei afastar-me para o lado para não me cair em cima.), para a inevitabilidade do final - que se espera, se quer, frio e sem grande pompa (- Como vai ele? – perguntou o inglês. – Estamos quase a chegar.
- Morreu, ao que me parece – disse eu.
Agora as pingas caíam muito lentamente...)


Fiquei gelada. Como é que uma pessoa que pensa e escreve tais palavras não há-de viver agarrado à garrafa. Para aquecer, quanto mais não fosse...

De bolaseletras a 04.03.2012 às 18:09

É de gelar e de arrepiar. E por mais gelo que lhe acompanhasse as bebidas aquela dor não lhe devia passar.
Hei-de pesquisar mais pérolas, que las hay hay;).

De Teresa a 04.03.2012 às 18:17

Dizem que Evas também mas, tens razão, não devia passar. Não passou.

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