Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Dulce Maria Cardoso e o início da reconciliação
Chego a uma fase da vida em que sinto necessidade de revisitar algumas decisões e outras tantas embirrações, querendo com isso convencer-me que há nessa atitude algo de magnânimo. Trocando isto por miúdos decidi há alguns tempos que estava na altura de voltar aos autores portugueses. Sim, dão mais trabalho, sim confundem muitas vezes o papel do escritor com o de um intelectual inexpugnável ou um malabarista das palavras, mas que porra, são do meu país. Lembro-me da juventude em que idolatrava Eça e Pessoa, da descoberta existencialista que foi Vergílio ferreira, do êxtase que me permitiram alguns Saramagos. Mas depois algo aconteceu. Um misto de encontros com certos autores estrangeiros (Roth, De Lillo, para iniciar as hostilidades) e da embirração com alguns portugueses (mais que todos, Lobo Antunes, esse irritante malabarista das palavras). Com “O Retorno” descobri Maria Dulce Cardoso, uma excelente contadora de histórias, com um estilo sóbrio sem deixar de ser elegante. Contar histórias e pôr nelas a riqueza que a habita como pessoa e como pensadora, foi essa arte que ela soube criar em “O Retorno” o que é tão mais importante do que à primeira vista parece. E com ela reconciliei-me com alguma literatura portuguesa. Procurarei generosamente alargar os horizontes das letras lusitanas, porque é também assim que se combate a crise que não nos deixa acreditar nos nossos.

