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"O Retorno"

Terça-feira, 14.08.12

 

 

Independentemente do ângulo pelo qual se analise a obra, ocorre-me dizer que “O Retorno” é um livro maravilhoso. Para mim e para os meus companheiros de geração (malta nascida pouco depois do fim do obscurantismo, 1975 no meu caso) o conhecimento do que foi o fim da época colonial, o efeito do regresso dos nossos “colonos” africanos é um quase completo mistério. Culpa nossa porque pouco investigamos ou queremos saber sobre o assunto, culpa dos nossos pais e da geração que passou por tudo isso que prefere não relembrar histórias desses tempos idos. Mas também culpa de um país que pouco produziu sobre essas matérias, quer em termos de literatura, cinema ou mesmo produção jornalística. Por vezes parecemos os alemães a esconder sob o nevoeiro do esquecimento os tempos do nazismo.

 

O retorno é-nos contado por um rapaz de 15 anos que volta à metrópole. É-nos dado a conhecer o que era a vida dos portugueses em África, como se sentiam e comportavam, como tratavam os africanos, como por eles eram vistos. Racismo? Sim, terá havido, como poderia não haver se estivemos em África partindo de um papel de “somos melhores que eles”, “vamos lá educar e governar aqueles selvagens”. É duro, isto que digo? Talvez o seja, talvez não tenha sido sempre assim, pelo menos para alguns que amaram de facto África e os africanos e não se julgavam uma raça superior e mais esclarecida. Livros sobre África, sobre os tempos de colonialismo e do pós-colonialismo precisam-se. É o passado que nos permite entender o presente e preparar o futuro, nunca esquecer isso.

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publicado por bolaseletras às 18:30


20 comentários

De Teresa a 15.08.2012 às 16:34

Nunca se falou muito porque à semelhança do nazismo ainda dói. Dói em quem sofreu e tem de doer em quem fez sofrer.

Não sei quantos anos são precisos passar para deixar de doer mas temo que quando deixar a memória honesta e real já cá não esteja para defender a História e as histórias. Porque como dizia a Tia Lurdes há sempre 3 verdades - a dele, a dela e a verdadeira ; e ao longo dos anos os poucos que ousaram contar a sua não reconhecem, não aceitam, não compreendem (não podem) a do outro.

De bolaseletras a 15.08.2012 às 23:13

A tia Lurdes tinha muita sabedoria, mas acho que o confronto com as dores passadas pode também ser uma fonte de sabedoria. Mas lá que deve custar e muito, deve.

De Teresa a 16.08.2012 às 09:51

É muito complicado e vendo o stress que a actual crise provoca em tantos cada vez mais admiro a força e coragem dos retornados.
Mas os estigmas são lixados e este estigma tarda em desaparecer.
Aqui há uns dias eu dizia a uma pessoa que esteve lá (sim, também nos retornados há vários graus e tipos; há retornados que não se consideram retornados de todo ou não tão retornado como outros o foram e assumem): "A Vanessa comprou uma casa giríssima na Quinta do Conde", resposta imediata "Coitada, isso está cheio de retornados.".

Não está - já que mesmo os que foram viver para lá aquando do retorno muitos já mudaram e os que ficaram (já) não são retornados (se estivessem não era praga nenhuma a evitar) mas mesmo depois de 2 gerações, nada e criada na Pátria Mãe, o estigma está aí.

É mesmo muito custoso veres-te livre de, e perdoares, os estigmas quando o grande lesado foste, és, tu. Porque as dores não foram superadas e vê-se pela forma como grande grupos se reunem todos os anos para reviver e relembrar aqueles tempos e aquela Vida, pois como diz Dulce "aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe." entre os quenão conseguem sair desse quarto de Hotel ou da parte de casa para onde foram viver.

De bolaseletras a 16.08.2012 às 20:24

Os estigmas, sempre os estigmas. Gente soterrada por eles, gente acabrunhada no seu canto por causa deles. E nunca mais saímos da casca. E África cada vez mais longe. Tristeza.

De Teresa a 16.08.2012 às 21:41

Tristeza. E hoje, como então, um desperdício de saber e culturas...
E o medo. Sempre o medo. Não fazes ideia do medo dos familiares quando os retornados voltaram... muitos já os tinham como "cartas fora do baralho" agora vinham e estragavam planos de anos.
Na minha família foi um drama. Mais um...

De bolaseletras a 16.08.2012 às 23:15

Muito interessante esse ponto do medo dos familiares pelo peso dos que já tinham descartado. Há uma passagem no livro que hei-de por aqui sobre essa questão. Já leste, Teresa? Não percas.

De Anónimo a 16.08.2012 às 19:28

Subscrevo: é um livro maravilhoso e ainda sabemos muito pouco. Se me permite, recomendo-lhe outro: «Caderno de Memórias Coloniais», de Isabela Figueiredo (http://thecatscats.blogspot.pt/2009/11/li.html).

(Ah, é verdade: eu sou da colheita do ano seguinte. ;-)

De Carlos Azevedo a 16.08.2012 às 19:29

O anónimo sou eu; por lapso, não registei os meus dados.

De bolaseletras a 16.08.2012 às 20:25

Parece muito interessante o livro e é muito interessante o blog da Isabela Figueiredo. Obrigado Carlos, é sempre bom conhecer novos livros e blogs, sobretudo quando valem a pena.

Abraço

De Carlos Azevedo a 16.08.2012 às 21:46

Ora essa! Partilhar é um prazer. :-)

Abraço.

De Teresa a 16.08.2012 às 21:56

Ia falar no Novo Mundo mas depois como é um blog que tenho apreciado através dos destaques do Carlos esperei que ele aparecesse por cá . Lourenço Marques, Sá da Bandeira, Luanda... em todos os retornados o "Já aqui estou, contudo ainda lá estou." mesmo depois de todos estes anos.


De Carlos Azevedo a 16.08.2012 às 23:54

Sim, Teresa, é um pouco como diz. Mas, sobretudo, existe um conjunto de ideias feitas sobre a colonização e o processo de descolonização que não resiste a uma análise mais atenta ou até mesmo a umas quantas conversas com os ditos retornados ou com os colonizados. A realidade é sempre mais colorida do que o preto e branco a que tentamos reduzi-la; ou, pelo menos, tem alguns tons de cinzento.

Abraços.

De Teresa a 17.08.2012 às 09:48

Claro que existem ideias feitas e coloridas. Foi uma época terrível - e não falo só da descolonização - e houve "necessidade" por parte de muitos em (re)inventar um passado com o qual pudessem viver e sobre o qual se pudessem gabar...


Não muito diferente das vidas douradas dos nossos emigrantes na época de 60 e 70, onde a família na Terra os julgava prósperos até mais não, a viver algo entre Versailles e uma apartamento delicioso com vistas para o Sena quando a realidade era tão diferente. Vocês são muito novos :diz-ela-do-alto-dos-seus-45: mas então altura a RTP resolveu fazer uma reportagem sobre como viviam (a preto e branco para piorar o ar da coisa) e houve pessoas - família desses emigrantes - a precisar de tratamento médico tal foi o choque sobre as condições que muitos viviam.


Salvaguardando as devidas distâncias e diferenças todos manifestam a necessidade de inventar que o sonho foi mesmo dourado e não com as tais tonalidades de cinza que fala o Carlos. Que a Isabela traz à tona tantas vezes no seu blog (mesmo quando não está a falar de lá, sente-se que é lá que ela está quando reage assim a isto ou aquilo) e o que terá apaixonado o António neste livro.

Não António. Não comprei. Pelas razões no meu PS e também por pessoais durante muito tempo evitei este tema. Obrigada por teres trazido à baila e permitir abrir a porta desse quarto escuro. Mas vou comprar. Já há, imagino, o distanciamento - físico e temporal - que permite ler (outra) visão honesta e real... talvez.

Abraço,
Teresa


P.S. Se, durante anos, quando ouvia os zumzuns do colonialismo e dos seus tons preto e cinza eu rejeitava essa ideia e achava que eram vendettas de quem tinha ficado para trás, quando anos depois trabalhei com consultores que viajavam para Angola e Moçambique e assistia a conversas telefónicas entre eles e os empregados das casas onde se alojavam começei a respeitar e a acreditar mais em todas as verdades. Há verdades. Várias verdades.

De bolaseletras a 17.08.2012 às 15:52

Teresa,

Lendo o livro sinto que o quarto não ganhará muitas cores, há assuntos em que por mais perspetivas se olhe o cinzento é a cor dominante. Não sei o que foi a verdade, nem se há uma verdade única, mas parece-me que as verdades serão mais que muitas. Resta-nos viver razoavelmente com uma verdade que não atraiçoe demasiado a memória ou a verdade dos factos.

De Teresa a 17.08.2012 às 21:43

Infeliz ou felizmente conheci as cores e conheci as sombras e os negrumes. E sim, o cinza dominou e durante muito tempo e em tantas vertentes.

Por isso é sempre difícil (completamente) compreender a dos outros porque ligeiramente ou totalmente todas se parecem e não se parecem. No antes, no durante e no depois...

De Carlos Azevedo a 17.08.2012 às 21:54

Sim, Teresa, percebo o que diz.

De Carlos Azevedo a 17.08.2012 às 19:35

«Há verdades. Várias verdades.»

É isso, Teresa. Não sei se feliz ou infelizmente, mas é isso.
Abraço.

De bolaseletras a 16.08.2012 às 23:24

Ah, e obrigado Carlos e Teresa, sabe bem uma tertúlia à volta de livros, para variar da bola;).

De Carlos Azevedo a 17.08.2012 às 00:04

Já agora: outra Isabella (esta com dois «l»), com outro livro (http://www.macua.org/livros/m&u.html) e outro blogue (http://chuinga7.blogs.sapo.pt). :-)

De bolaseletras a 17.08.2012 às 09:48

Obrigado a dobrar, já tinha ontem à noite adicionado a Isabella aqui à badana dos livros;).

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