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"O Retorno" - Não cabem mais calos nas minhas mãos

Terça-feira, 28.08.12

   

 

“O pai avança, aproxima-se do jipe, olhem bem para mim, fala alto como para uma multidão, digam-me o que vêem, eu digo-vos o que estão a ver, estão a ver um homem que se matou a trabalhar nesta terra, descarreguei sacas de café contigo, contigo, aponta para cada um dos soldados, com o teu pai, com o teu tio, com o teu irmão, com o teu filho, não há homem que tenha descarregado mais sacas de café nesta terra do que eu, trabalhei dia e noite e agora, o pai para de falar e quando recomeça fá-lo com a voz mais baixa, como se lhe custasse falar, tudo o que tenho vai ficar aqui, olhem para as minhas mãos, não cabem mais calos nas minhas mãos e mesmo assim a pele ainda sangra contra a junta das sacas, (…) o pai levanta mais a voz, sempre vos paguei a tempo e horas, bebi cachaça e comi funge convosco, nunca abusei das vossas mulheres nem das vossas filhas, dei-vos dinheiro para os medicamentos dos vossos filhos, façam o que quiserem.”

  

O mais duro deve ter sido a ingratidão, ou o que pensaram ser ingratidão, ou o desfasamento entre o bem que se fez ou julgou ter feito, entre o mal que alguns fizeram ou o bem que ficou por fazer. O mais duro terá sido perder tudo, ou perceber que afinal nada ficou, que afinal nada é efetivamente nosso. Olhar para trás, ver todo o caminho percorrido, tanta vida gasta a amealhar, a possuir, a juntar quinquilharia e metal, o vil metal, e perceber anos depois que aquilo não era a felicidade, não poderia ser a felicidade. O mais duro é não saber para onde caminhar quando se procura um porto seguro, onde a vida saiba a vida e o mundo não seja um deserto fulminado pela dor. O mais duro é não saber viver.

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publicado por bolaseletras às 14:36


6 comentários

De Teresa a 28.08.2012 às 15:40

Não houve MAIS duro.
Tudo foi duro.

Mesmo para quem, como o meu Pai, compreendeu a "ingratidão" não houve um mais ou um menos, tudo foi duro. Foi duro deixar a Pátria e a família aos 12 anos e partir à busca do sonho que viria a terminar algumas décadas depois sem que nada tivesse valido a pena; porque naquelas horas de indecisão e infelicidade nem as memórias te aquecem uma alma que - se não se tornou, tem de se tornar - cinzenta.

De bolaseletras a 28.08.2012 às 23:02

Teresa, fica a certeza de que toda essa dureza esculpiu na carne gente humana e forte, e se isso não faz esquecer a dureza pelo menos dá-lhe sentido. Temos sempre que encontrar um sentido ao fundo do túnel, por mais custoso que isso seja.

De Carlos Azevedo a 28.08.2012 às 17:41

Um pequeno enorme, enorme texto. Levo comigo. Obrigado.

Abraço.

De bolaseletras a 28.08.2012 às 23:04

Obrigado Carlos. Pelas palavras e por seres das pessoas que dá sentido às horas que aqui vou deixando.

Grande abraço.

De Teresa a 29.08.2012 às 22:25

Por outro lado também temos de pensar no outro.

Naquele que estava na sua terra mas que não era verdadeiramente sua. E se, as nossas ex-colónias não tinham (???) um apartheid como a África do Sul não era também menos certo que havia uma atitude de supremacia do povo conquistador.

Era devida? Não sei. Acho que não...

Mas não é difícil pormo-nos no papel dos outros. Aliás se atentares ao texto de "não cabem mais calos nas minhas mãos" há aí diversos laivos dessa superioridade que achavam que lhes era devida, e em tantos casos abusada.

Era impossível não existir. Bolas, somos seres de incongruências e mal entendidos mas do outro lado também está gente. Com calos, com dores, com desgostos.

E muitos choraram a perda dos "brancos" como não choraram a da mãe mas tantos tinham razão por quererem a "terra deles".

Comeu funge? Ainda bem que o deixaram compartilhar as suas tradições. Não abusou das mulheres nem das filhas - pois, e porque teria o direito de o fazer (como muitos sentiram)?

O outro também sofreu. Durante e depois. Tantos ficaram para trás e de repente não és dos teus nem dos que se vieram embora sem ti.

São pedaços de história que no cinzento dos dias também não devemos esquecer ou minimizar.

Abraço,

Teresa

De bolaseletras a 30.08.2012 às 22:54

Esse trecho do "não abusou das mulheres e das filhas" é para mim a chave deste trecho e de parte do livro, Teresa. O que alguns achavam fazer bem não seria assim tão bem, mas achavam que isso lhes garantia algo, que lhes dava um qualquer estatuto. O problema no relacionamento dos grupos e etnias passa sempre por aí, por diferentes expectativas. Nada é preto e branco, o cinzento anda sempre aí.

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