Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
"O Retorno" - Não cabem mais calos nas minhas mãos
“O pai avança, aproxima-se do jipe, olhem bem para mim, fala alto como para uma multidão, digam-me o que vêem, eu digo-vos o que estão a ver, estão a ver um homem que se matou a trabalhar nesta terra, descarreguei sacas de café contigo, contigo, aponta para cada um dos soldados, com o teu pai, com o teu tio, com o teu irmão, com o teu filho, não há homem que tenha descarregado mais sacas de café nesta terra do que eu, trabalhei dia e noite e agora, o pai para de falar e quando recomeça fá-lo com a voz mais baixa, como se lhe custasse falar, tudo o que tenho vai ficar aqui, olhem para as minhas mãos, não cabem mais calos nas minhas mãos e mesmo assim a pele ainda sangra contra a junta das sacas, (…) o pai levanta mais a voz, sempre vos paguei a tempo e horas, bebi cachaça e comi funge convosco, nunca abusei das vossas mulheres nem das vossas filhas, dei-vos dinheiro para os medicamentos dos vossos filhos, façam o que quiserem.”
O mais duro deve ter sido a ingratidão, ou o que pensaram ser ingratidão, ou o desfasamento entre o bem que se fez ou julgou ter feito, entre o mal que alguns fizeram ou o bem que ficou por fazer. O mais duro terá sido perder tudo, ou perceber que afinal nada ficou, que afinal nada é efetivamente nosso. Olhar para trás, ver todo o caminho percorrido, tanta vida gasta a amealhar, a possuir, a juntar quinquilharia e metal, o vil metal, e perceber anos depois que aquilo não era a felicidade, não poderia ser a felicidade. O mais duro é não saber para onde caminhar quando se procura um porto seguro, onde a vida saiba a vida e o mundo não seja um deserto fulminado pela dor. O mais duro é não saber viver.
Autoria e outros dados (tags, etc)
6 comentários
De Teresa a 28.08.2012 às 15:40
Tudo foi duro.
Mesmo para quem, como o meu Pai, compreendeu a "ingratidão" não houve um mais ou um menos, tudo foi duro. Foi duro deixar a Pátria e a família aos 12 anos e partir à busca do sonho que viria a terminar algumas décadas depois sem que nada tivesse valido a pena; porque naquelas horas de indecisão e infelicidade nem as memórias te aquecem uma alma que - se não se tornou, tem de se tornar - cinzenta.
De bolaseletras a 28.08.2012 às 23:02
De Carlos Azevedo a 28.08.2012 às 17:41
Abraço.
De bolaseletras a 28.08.2012 às 23:04
Grande abraço.
De Teresa a 29.08.2012 às 22:25
Naquele que estava na sua terra mas que não era verdadeiramente sua. E se, as nossas ex-colónias não tinham (???) um apartheid como a África do Sul não era também menos certo que havia uma atitude de supremacia do povo conquistador.
Era devida? Não sei. Acho que não...
Mas não é difícil pormo-nos no papel dos outros. Aliás se atentares ao texto de "não cabem mais calos nas minhas mãos" há aí diversos laivos dessa superioridade que achavam que lhes era devida, e em tantos casos abusada.
Era impossível não existir. Bolas, somos seres de incongruências e mal entendidos mas do outro lado também está gente. Com calos, com dores, com desgostos.
E muitos choraram a perda dos "brancos" como não choraram a da mãe mas tantos tinham razão por quererem a "terra deles".
Comeu funge? Ainda bem que o deixaram compartilhar as suas tradições. Não abusou das mulheres nem das filhas - pois, e porque teria o direito de o fazer (como muitos sentiram)?
O outro também sofreu. Durante e depois. Tantos ficaram para trás e de repente não és dos teus nem dos que se vieram embora sem ti.
São pedaços de história que no cinzento dos dias também não devemos esquecer ou minimizar.
Abraço,
Teresa

