Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
"O Retorno" - Não cabem mais calos nas minhas mãos
“O pai avança, aproxima-se do jipe, olhem bem para mim, fala alto como para uma multidão, digam-me o que vêem, eu digo-vos o que estão a ver, estão a ver um homem que se matou a trabalhar nesta terra, descarreguei sacas de café contigo, contigo, aponta para cada um dos soldados, com o teu pai, com o teu tio, com o teu irmão, com o teu filho, não há homem que tenha descarregado mais sacas de café nesta terra do que eu, trabalhei dia e noite e agora, o pai para de falar e quando recomeça fá-lo com a voz mais baixa, como se lhe custasse falar, tudo o que tenho vai ficar aqui, olhem para as minhas mãos, não cabem mais calos nas minhas mãos e mesmo assim a pele ainda sangra contra a junta das sacas, (…) o pai levanta mais a voz, sempre vos paguei a tempo e horas, bebi cachaça e comi funge convosco, nunca abusei das vossas mulheres nem das vossas filhas, dei-vos dinheiro para os medicamentos dos vossos filhos, façam o que quiserem.”
O mais duro deve ter sido a ingratidão, ou o que pensaram ser ingratidão, ou o desfasamento entre o bem que se fez ou julgou ter feito, entre o mal que alguns fizeram ou o bem que ficou por fazer. O mais duro terá sido perder tudo, ou perceber que afinal nada ficou, que afinal nada é efetivamente nosso. Olhar para trás, ver todo o caminho percorrido, tanta vida gasta a amealhar, a possuir, a juntar quinquilharia e metal, o vil metal, e perceber anos depois que aquilo não era a felicidade, não poderia ser a felicidade. O mais duro é não saber para onde caminhar quando se procura um porto seguro, onde a vida saiba a vida e o mundo não seja um deserto fulminado pela dor. O mais duro é não saber viver.

