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"O Anjo Ancorado" - Os dias da rádio

Segunda-feira, 05.11.12

 

 

«Apetecia-me ir por aí», disse ela a dada altura, e disse-o como se falasse do fundo do carro para a noite, lá em cima. «Apetecia-me vadiar até se fazer dia, ir a casa tomar banho e, ala, para o colégio. Ouça, não se importa de baixar mais o rádio?»

«Desculpe, tenho a mania de pôr muito alto.»

«Como os taberneiros?»

«Como os apreciadores de jazz, também pode ser. Ou como as prostitutas baratas, se quiser. O rádio, Guida, é um vício de solitários, nunca reparou?»

 

Não sei o que me encanta mais, se a simplicidade desarmante e encantatória dos diálogos tecidos por Cardoso Pires, se o suco das conversas dos protagonistas. Como não ligar esta troca de argumentos às manhãs de todos os dias, aos carros habitados por foragidos amargurados entregues às ondas hertzianas que miraculosamente os resgatam da solidão que vive por detrás dos vidros embaciados? Novamente o som alto, ensurdecedor, como que um grito que impede de pensar, uma outra dimensão salvífica antes do mergulho na multidão, nas palavras confusas dos colegas mastigadas no café da manhã, nas ordens clamadas por um chefe sonolento e sedento de afirmação. Em suma, um bom vício, esta coisa do rádio.

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publicado por bolaseletras às 20:02


3 comentários

De Teresa a 06.11.2012 às 17:55

Este fim de semana o meu marido parou a tv no RTP Memória e entretanto fomos jantar o que fez com que a tv ficasse a transmitir na sala - dava o Tony de Matos - pelo que o som fluía pela casa e ouvia-se naquele meio tom. O ouvir o Tony de Matos reabriu na mente dele e na minha os nossos tempos de infância. E começámos a compartilhar com os nossos filhos: os programas, os anúncios e a realidade que se desenrolava nas nossas infâncias enquanto ouvíamos o Tony de Matos e outros. Foi um jantar divertido, com aquele desdém dos jovens sempre à espera das últimas novidades da Apple e do alegre saudosismo dos "cotas".
Quando terminou o jantar levantaram-se e cada um para o seu quarto. Imagino que para facebooks e quejandos.
Olha que os tempos modernos criaram vícios muito mais solitários do que a rádio. Ou isso, ou já nada (ou tudo) chega para nos sentirmos menos sós... Em vez do táxi partem por auto-estradas virtuais em busca de quê?! O rádio, António. Era uma bênção voltarmos a descobrir esse prazer de ouvir quem não se conhece, só se imagina e ter essa sensação que ligando do lado de lá nos ouvem verdadeiramente e que podemos mandar beijinhos a quem, também, só tem o rádio como elo de ligação.

Abraço,
T

De bolaseletras a 06.11.2012 às 18:23

Os tempos de hoje são tempos de nostalgia, provavelmente porque muito do que deixámos para trás é mais saudável do que hoje vivemos. Eu vou pelo menos adotar algo que os meus pais fizeram comigo e com o meu irmão: televisão não entra nos quartos. O problema são as novas tecnologias, mas aí ainda não chegámos;).

De Teresa a 06.11.2012 às 21:07

Não há fórmulas seguras nem absolutas. Conheço miúdos que os pais - com posses - criam em quase indigência. Ou seja, não tem querer nem poder. E conheço resultados diferentes - miúdos super completos e amantes da sua família e respeitadores dos valores e miúdos super revoltados que desrespeitam tudo e todos e mentem e o diabo a sete.
Depois conheço miúdos muito pobres - do género da mão para a boca - e exactamente com os mesmos resultados.

Por isso acho que aliado à genética - e aí os teus levam vantagem! - há uma série de gestos que se vão ajustando à medida que as suas próprias personalidades vão aflorando.

O que resultou com o meu filho (hoje com 21 anos) não funcionou com a minha filha (hoje com 14 anos) e, um dia, acordei e vi que apesar das diferenças de personalidade, de criação, os valores são compartilhados e valorizados. Onde ela resistia hoje vejo aceitação da lógica e valor do que lhe foi mostrado e quando nele vejo o que não pus mas que aflorou dele próprio sou a Mulher Mais Feliz do Mundo.

Como eu gostava que eles fossem ver televisão para o quarto deles a maior parte das vezes ahahahahahah. Eles e os cães

Felicidades

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