Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
À atenção do senhor Gaspar
Somos um povo inventado para viver ao ritmo lento de labaredas de calor, sob as chicotadas do doce astro rei, bem juntinho ao mar, com pouca ou nenhuma roupa, ostentando o inquebrantável e brilhante sorriso de quem vive o privilégio de viver para o sol. As vagas de frio e os dias de chuva são parvoeiras que forjaram para nos enclausurar em cubículos domésticos ou profissionais, são incómodos intervalos de tempo que alguma cruel entidade nos impôs enquanto esperamos, perdidos e desenquadrados, que chegue finalmente o sol, a libertadora canícula. Somos feitos de suor, água do mar e sal, muito sal. Tudo o resto é uma inominável violência maquinada por gente que não sabe que a vida só faz sentido se liberta do jugo de roupas apertadas e da artificialidade atroz dos ares condicionados. Somos livres e felizes quando corremos sobre a areia molhada, quando bronzeamos os corpos espojados na mais fina areia do universo. E não nos venham falar de facturas, PIBs, défices e afins, que o bronze ainda não paga imposto.

