Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
A Possibilidade de uma Ilha - o ciclo vicioso eternamente repetido
"Durante as primeiras fases da minha ascensão à glória e à fortuna, experimentara ocasionalmente as alegrias do consumismo, através das quais a nossa época se mostra tão superior às precedentes. Poderíamos dissertar até ao infinito para saber se os homens eram ou não mais felizes nos séculos passados. (…) De qualquer modo, no plano do consumo, a superioridade do século XX era indiscutível: nada, em nenhuma outra civilização, em nenhuma outra época, podia comparar-se à perfeição itinerante de um centro comercial contemporâneo funcionando em pleno. Assim, eu consumira alegremente, de preferência sapatos; depois, aos poucos, fartei-me, e compreendi que a vida, sem aquele apoio quotidiano de prazeres elementares e ao mesmo tempo renovados, ia deixar de ser simples."
Os males da civilização moderna e a decadência progressiva do homem e da sua condição são os principais temas de Houellebecq. O consumismo, como âncora que sustenta a vida e os prazeres de boa parte de tanta gente que conhecemos (sim, vou-me auto-excluir, se me permitem) é um dos mais reveladores sinais de que o foco de tantas vidas se desviou por completo do cerne do que deveria ser a vida. O desespero que a crise fez surgir nas nossas vidas é também o desespero pela perda ou drástica redução das alegrias materiais e dos vícios aquisitivos.
O falso brilho com que as montras nos cegaram funcionou demasiadas vezes como último reduto dos nossos desejos. Restringimos as nossas ambições e gostos ao efémero, ao material, o metal e os tecidos substituíram a carne e o espiritual. Foi necessária a decadência económica para nos reaproximarmos, mesmo que lentamente e contra as nossas mais profundas intenções, de um sentido de vida palpável, a cheirar a terra e a carne. Mais uma vez, os homens teimam em só aprender depois dos mesmos erros infinitamente repetidos. Mais uma vez o vicioso ciclo da queda, do esbracejar e do lento ressurgir se repete. Mais uma vez somos incapazes de seguir em linha recta rumo a um novo destino.

