Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
"Leave us kids alone" - já diziam os Pink Floyd
Nos dias de hoje - tempos de crise, de busca de soluções e de incapacidade em pensar fora da caixa - a expressão mais escutada passa por apelar à urgente “mudança de paradigma”. E esta bela expressão serve para tudo. Para se clamar por uma sociedade do salve-se quem puder, para bater nos idiotas que ainda se arvoram a pensar que sobram trocos para o bendito estado social, para justificar porque se deve deixar de tratar velhinhos quando o custo da cura é elevado, para defender porque os serviços públicos que não tenham como principal função albergar amigos do partido reinante têm que fechar as portinhas, enfim, o rol de aleivosias que se esconde por trás da merda do paradigma é interminável.
Ora bem, contribuindo para mais um paradigma que é preciso mudar, diria que derrubar o que está subentendido no cartoon acima é essencial. O medo que assola as mentes e os corações dos paiszinhos (e sim, eu estou lá, não sou nenhum extraterrestre nem nenhum ser iluminado) de que os seus rebentos não possuam todas as armas, todas as armaduras que lhes permitam sobreviver na sociedade que os tempos futuros fazem adivinhar (olho por olho, dente por dente) é a maior ameaça à capacidade de desenrascanço, de pensar, de agir e reagir por si próprios dos nossos petizes. O excesso de preparação, de doutrinação, de aulas, de atividades extra-escolares, de horários para fazer trabalhos de casa, dificilmente deixará tempo para trabalhar aquelas que creio serão ferramentas muito úteis no futuro: a capacidade de adaptação a mudanças conjunturais repentinas, a imaginação, a resposta instintiva ao desconhecido e à novidade, a capacidade de encontrar soluções que nunca antes lhes tenham sido pedidas. Saber é essencial, mas construir o saber passo a passo, também por si mesmos, será cada vez mais decisivo. Dar tempo e espaço à pessoa que os nossos filhos são, fugindo aos moldes e aos estereótipos que a sociedade nos impõe e a que cegamente aderimos – não me parece uma má proposta para o projecto educativo de 2013.

