Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
A possibilidade de uma ilha - o riso a sete chaves
“Tal como o revolucionário, o humorista assumia a brutalidade do mundo, e ele respondia com uma brutalidade acrescida. O resultado da sua acção não consistia, porém, em transformar o mundo, mas em torná-lo aceitável, transformando a violência, necessária a toda a acção revolucionária, em riso”.
“Tinha agora quarenta e sete anos, há trinta que decidira provocar o riso dos meus semelhantes; presentemente, estava acabado, esgotado, inerte. A centelha de curiosidade que ainda subsistia no olhar que lançava sobre o mundo iria extinguir-se em breve e eu seria como as pedras, com um vago toque de sofrimento. A minha carreira não fora um insucesso, pelo menos comercialmente: se agredirmos o mundo com uma violência conveniente, ele acaba por vomitar a porcaria do dinheiro; mas nunca, nunca nos restitui a felicidade”.
Nestes dois monólogos do protagonista desta obra única de Houellebecq, apetece destacar a elegância e precisão das palavras. Para além da forma, é impossível não submergir no pensamento do autor, na clareza e violência com que despe a condição humana. Se no primeiro trecho se explora a essência do humor como arte de tornar a vida mais suportável, no segundo toda a dor que assedia o ser humano é apresentada como inevitável, impenetrável, a felicidade como um segredo fechado a sete chaves que nem o dinheiro e a fama podem revelar. Um livro como uma porta aberta para nós próprios e para a percepção do mundo e dos “mundos” que nos rodeiam. É isso que deve ser um livro.

