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É tempo, é mais que tempo

Quarta-feira, 20.02.13

 

 

Apetecia-me mandar para as origens da criação materna tanta gente, mas tanta gente que me dispenso de enumerar, por falta de espaço e de paciência. Não quero, recuso-me a ser mais uma voz a lamuriar-me pela afronta que é o recibo de ordenado deste mês. Mas custa-me muito, mesmo muito, imaginar que tanta gente de quem gosto, que conheço, gente anónima com quem me cruzo, vai deixar de poder pagar algumas contas, vai ter que voltar para casa dos pais, pedir-lhes ajuda, estender a mão à solidariedade familiar ou de amigos para poder alimentar ou vestir com um mínimo de dignidade possível os filhos. Felizmente ainda não cheguei aí, mas não deverá faltar muito, basta que esta política se mantenha, basta que estes politiqueiros não tirem as palas dos olhos. Não é o momento de discutir a nossa culpa nesta recessão sem fim e que cresce como o monstro que dizem querer extinguir, é o momento de olhar para o que as aclamadas decisões corajosas, racionais e implacáveis dos nossos governantes estão a fazer ao tecido empresarial e social deste país, à motivação dos trabalhadores e das próprias chefias.

 

É tempo para nos deixarmos de paliativos contestatários e Grândolas Vila Morenas sempre emocionantes, é tempo de pormos um travão nesta descida sem fim para o abismo. Como? Sendo conscientes e consequentes. Alertando consciências e provocando consequências. Pensem muito seriamente nisso, na melhor forma de o fazer. Pensem e depois deem o passo em frente - em vossas casas, nos vossos trabalhos, na mesa de voto, nos valores que transmitem aos vossos filhos, nos exemplos que dão. Depois disso, sim, depois de mudarmos algo em nós e no que nos rodeia podemos já juntar-nos aos magotes em manifestações ruidosas e que tão bem ficam em fotografias dos jornais de todo o mundo. Antes disso são só tiros de pólvora seca.

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publicado por bolaseletras às 17:49


3 comentários

De Teresa Faria a 20.02.2013 às 23:57

É impossível não me recordar de um texto que publiquei há cerca de um mês, que mereceu, entre outros, o seguinte comentário: " O povo é sereno, não o agites que ele é frágil e ainda parte"... É salutar observar que de vez em qualquer um pode perder a paciência para tanta serenidade. ;-)

Começo infelizmente a achar que, enquanto povo, temos exactamente o que merecemos, e que quem nos representa, não é assim tão diferente dos representados.
Em Janeiro, este país de vendidos conseguiu a proeza de superar as expectativas dos seus líderes quanto ao movimento "Vamos lá a controlar os comerciantes, não vão eles ter a audácia de tentar sobreviver". Sim, porque era previsível que com o aumento escabroso dos impostos, nomeadamente no IVA taxado nos géneros alimentares e na restauração, os pequenos comerciantes tivessem de "fugir" para se aguentar! E isso, como sabemos, são luxos reservados a outras instâncias.

A lembrar, esta campanha já tinha sido lançada há uns anos, não tendo surtido efeito relevante. Porquê? Porque na altura era solicitado aos portugueses que pedissem factura para o "bom funcionamento da economia". E disso ninguém quer saber. Mas os nossos queridos governantes lá descobriram a pólvora - O povo responde ao mesmo que os move a eles: Incentivos!! E o povo respondeu. Em massa! O bom povo português aderiu em peso a esta campanha pidesca. Sem hesitar. Sem pensar. Levianamente, sem medir as reais consequências, e sem avaliar o verdadeiro significado das suas acções. O mesmo povo que se manifesta até à rouquidão contra este governo.
É demasiado fácil despir-nos de valores. As vozes perdem a voz quando ouvem "Incentivo".
Merecemos melhor?!?

De bolaseletras a 21.02.2013 às 17:55

Teresa,

É verdade, somos um povo de brandos costumes. Por vezes gritamos muito, mas é só porque o barulho soa bem. Confesso que quanto à questão concreta que referes, não te acompanho. Sempre paguei todos os meus impostos, sobretudo desde que sou funcionário público, pois aí não há fuga possível. Porque não hão-de os profissionais liberais ou os comerciantes pagar também os impostos que a lei determina? Se são elevados, se são mal aplicados, é outra questão, mas se vivemos numa sociedade democrática todos temos os mesmos direitos e deveres.

Defendo que este nível de impostos vai acabar por asfixiar o país, e é contra isso que devemos lutar. Mas não se confunda, enquanto esta lei estiver vigente não me parece justo pagarem uns pelos outros. O combate não se pode fazer contra a lei, nem beneficiando uns contra outros. Não é simples, mas haverá maneira. E sim, espero que mereçamos melhor;).

De Teresa Faria a 21.02.2013 às 20:01

Não defendo a anarquia António. Nem sou completamente tresloucada e entendo a necessidade e o propósito dos impostos, e concordo que todos teremos os mesmos direitos e deveres. Ainda que este todos abarque apenas o “todos” em que eu e tu nos inserimos. O todos-todos, é e será sempre utópico.
Defendo também que os ditos impostos sejam justos, adequados e comportáveis.
E defendo, acima de tudo (e este é o ponto que a mim, perdoa-me, me dá vómitos), que há orgãos competentes para fiscalizar, e que não nos compete a nós andarmos a fiscalizar-nos uns aos outros! Acho vergonhoso que nos peçam para o fazer, e mais ainda que o aceitemos com a maior das naturalidades porque nos oferecem um chupa-chupa com uma mão, esquecendo as bofetadas que nos dão com a outra! Desculpa, mas não sirvo a quem me viola os direitos, e causa-me repulsa quem o faz. Se o poderia entender numa perspectiva de sobrevivência, jamais o entenderei a troco de tão pouco.
Andamos a formar delatores, em vez de trabalhar o que é necessário: consciencializar as pessoas do seu papel enquanto contribuintes, exigir-lhes o suportável, recuperar a confiança, criar condições e mostrar-lhes os resultados conseguidos com o seu esforço, para que todos queiram efectivamente contribuir para o desenvolvimento do país que é seu!
Caramba, isto equivale a dizeres ao teu filho mais velho: "O teu irmão está com problemas, com certeza anda a portar-se mal na escola, se o vigiares e me vieres contar tudo o que ele faz, eu dou-te um prémio na mesada." - Estás a criar um chibo desleal em vez de resolveres o problema!
Não vês os precedentes que isto abre?? Não vês mesmo o perigo que isto representa? Desvia-nos as atenções do importante, voltamos o foco para os compatriotas. Qualquer dia, o meu "inimigo" é o dono do restaurante, e não os governantes que me esmifram! Esses, se eu me portar bem, até me dão um chupa-chupa!
Não me compete a mim controlar se os outros condutores cumprem os limites de velocidade ou não. Mas está visto que se eles se lembrarem de oferecer umas gomas, vão chover as denúncias nas BT. Não por sermos cidadãos preocupados com a segurança nas estradas, mas porque queremos sacar as gomas! É isto que me incomoda, não entendes?? Ninguém pedia facturas até eles oferecerem o raio dos 5%, ninguém queria saber se os vizinhos andavam a desfalcar o Estado, ninguém parava para pensar que quem não cumpria, era nos nossos bolsos que mexia. A mim o que me entristece, mais, o que me revolta, é que o Estado tenha percebido que neste país somos todos umas senhoras da vida das mais baratinhas, perfeitamente amorais.
Chamem-me comunista, já sei que não gostam da alusão ao nome, mas de facto a mim só me faz lembrar a Polícia Internacional e de Defesa do Estado, sim!!

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