Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Israel 3 - Portugal 3
Os jogos da seleção trazem-me sempre memórias gratas. Recordo as aulas a que faltei no secundário para ver os feitos do mundial das arábias dos miúdos do então excepcional Professor Queiroz, o inesquecível golo do Abel que nos deu o título, aquele pontapé com o pé que o Abel não sabia que tinha e que estava mais à mão. Recordo também o longínquo ano de 1996, ano de europeu, mais precisamente o dia 14 de Junho. Dia de um exame de processo civil que colidia ignobilmente com o Portugal-Turquia. Por motivos esféricos e patrióticos, o exame de três horas passou por minha iniciativa a ter apenas duas horas. Quando fui o primeiro da sala a levantar-me e a entregar o exame, vários sorrisos de colegas cúmplices e sabedores da minha paixão pela selecção invadiram a sala. O professor perguntou-me, tranquilo como só ele sabia ser, se tinha corrido bem. Eu respondi que tinha corrido melhor do que esperava. Saí a tempo de ver o golo da vitória do Fernando Couto e umas semanas depois recebi uma das melhores notas da turma no exame a que roubara uma hora – ora aí está um dos grandes feitos da minha licenciatura em direito.
Hoje, roubada pouco mais de uma hora ao almoço para assistir ao jogo com Israel, os 20 minutos finais da primeira parte chegaram-me para dizer para os meus botões: “Estes rapazes não estão a ser dignos de envergar a camisola das quinas”. Ver o grande CR7 a perder uma bola e a não correr atrás do ladrão, ver a nulidade do Varela a ser incapaz de fintar uma árvore, ver o Bruno Alves a não tirar os pés do chão para evitar o 3.º golo, tudo isto me fez doer a alma lusitana. Estes rapazes são os mesmos do Euro 2012, pelo que há aqui, como refere Paulo Bento, um problema de mentalidade. Só que, mais além do que diz o treinador, arrisco dizer que esse problema acaba por resultar numa lamentável falta de atitude da maioria dos jogadores quando não estão a jogar contra grandes equipas, ou sob os holofotes das grandes competições internacionais. Felizmente desta vez a sorte quis estar do nosso lado e ainda houve tempo para Ronaldo mostrar uns pós do tanto que vale, servindo Postiga sem sequer olhar para ele (deve ser duro, passar o jogo a olhar para a percentagem concretizadora do bom do Hélder). Pouco depois, Hugo Almeida deu o salto da vida dele e cabeceando à barra, permitiu que Coentrão marcasse de ressalto num assomo de coragem e de fé na divina providência. Podia vir para aqui perorar sobre eventuais erros de Paulo Bento, mas que culpa tem Bento dos seus dois melhores centrais não estarem a jogar nos seus clubes, do seu motor do meio campo estar com o motor a meio gás, de CR 7 carregar com o peso de ter que carregar com esta equipa às costas? Perceber que as armas secretas do treinador para dar a volta ao jogo pouco mais eram que Carlos Martins e Vieirinha, é perceber o deserto de qualidade que é o atual campo de recrutamento do nosso seleccionador. Não havendo ovos para fazer omoletes inesquecíveis, é essencial que a mentalidade e a atitude dos jogadores esteja sempre no máximo. Só assim se farão milagres. E tão necessitado de milagres anda este povo, rapazes, vejam lá isso!


