Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Perdidos no meio de nós
Fotografia de Gabriele Lopez
É um tema já batido este do anonimato dos dias de hoje, das pessoas que vagueiam na multidão como se não fossem pessoas, mas autómatos sem mecanismos de reconhecimento intra espécie, sem qualquer ligação possível com o autómato que se senta no lugar ao lado, com o cyborg de carne e osso que atravessa a passadeira com o corpo colado ao seu. É um tema batido mas não resolvido, este das pessoas que se ignoram por motivos relevantes como a pressa, a indiferença pura, a timidez, o medo do desconhecido, a simples razão de nunca se ter visto aquela cara antes ou, de ao vê-la todos os dias, no mesmo autocarro, na mesma passadeira, se ter tornado um procedimento normal e aceitável a afirmação da indiferença e a queda no anonimato global. Há quem force um sorriso encolhido, não com qualquer intenção de promover a mais ínfima proximidade, mas apenas como um mero reflexo de reconhecimento facial. Ainda assim, serão infinitesimais as situações em que esse esgar obtém reacção semelhante. Caminhamos para uma sociedade em que o contacto se restringirá às relações familiares e de amizade (para aqueles que têm esse privilégio), aos formais contactos profissionais, esvaindo-se pelo esgoto da indiferença todos os restantes biliões de interacções humanas desprovidas de utilidade. O utilitarismo dos tempos modernos é este, a transformação dos viajantes deste tempo não augura um mundo melhor.

