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Perdidos no meio de nós

Segunda-feira, 22.04.13

 

Fotografia de Gabriele Lopez

 

É um tema já batido este do anonimato dos dias de hoje, das pessoas que vagueiam na multidão como se não fossem pessoas, mas autómatos sem mecanismos de reconhecimento intra espécie, sem qualquer ligação possível com o autómato que se senta no lugar ao lado, com o cyborg de carne e osso que atravessa a passadeira com o corpo colado ao seu. É um tema batido mas não resolvido, este das pessoas que se ignoram por motivos relevantes como a pressa, a indiferença pura, a timidez, o medo do desconhecido, a simples razão de nunca se ter visto aquela cara antes ou, de ao vê-la todos os dias, no mesmo autocarro, na mesma passadeira, se ter tornado um procedimento normal e aceitável a afirmação da indiferença e a queda no anonimato global. Há quem force um sorriso encolhido, não com qualquer intenção de promover a mais ínfima proximidade, mas apenas como um mero reflexo de reconhecimento facial. Ainda assim, serão infinitesimais as situações em que esse esgar obtém reacção semelhante. Caminhamos para uma sociedade em que o contacto se restringirá às relações familiares e de amizade (para aqueles que têm esse privilégio), aos formais contactos profissionais, esvaindo-se pelo esgoto da indiferença todos os restantes biliões de interacções humanas desprovidas de utilidade. O utilitarismo dos tempos modernos é este, a transformação dos viajantes deste tempo não augura um mundo melhor.

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publicado por bolaseletras às 22:45


2 comentários

De Carlos Azevedo a 23.04.2013 às 04:41

De certa forma, é o resultado da ascensão do capitalismo a religião oficial do mundo ocidental (não sei se leste: a edição de domingo do Público trazia uma entrevista ao filósofo alemão Anselm Jappe em que este afirmava que o capitalismo tornou o trabalho o carburante das relações sociais. Estando o mundo do trabalho como está, é fácil de ver que as relações sociais não podiam estar na sua fase mais saudável). Mas não lhe imputo toda a responsabilidade, porque conheço sociedades tão capitalistas como a nossa em que o isolamento que referes, uma espécie de autoafastamento e/ou afastamento do outro, não é tão forte, tão evidente -- sem mais, basta ver como se relacionam entre si 'nuestros hermanos'. E não deixa de ser curioso ver como fugimos do que pode contribuir para as nossas estabilidade e felicidade e depois vamos procurá-las em livros de autoajuda, comprimidos ou no divã de um psi-qualquer-coisa. Enfim.

De bolaseletras a 23.04.2013 às 22:21

Subscrevo tudo, Carlos. E cada vez mais as pessoas procuram o "apoio artificial" esquecendo-se que é no contacto com os outros que está, digamos, a fuga ao desespero dessa cada vez maior ausência de contacto.

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