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A filosofia na ponta de uma tesoura

Quarta-feira, 29.05.13

  

 

O som incessante das tesouras, as conversas cruzadas, conversas de homens que falam de coisas de homens. O suave ranger das lâminas que desfazem faces duras e secas, que procuram adoçar expressões imutáveis. Foram demasiadas horas de piadas alarves, de histórias de caça, de memórias eternamente repetidas dos grandes jogos do passado (da malha ao futebol, do chinquilho ao hóquei patins), foi demasiada testosterona naqueles metros quadrados partilhados com o suor de demasiados barbeiros inclementes. Sabia que aquele seria o último dia numa sala de barbeiro dominada por homens.

 

 

 

O cabelo crescia e nada, não encontrava a tesoura que me convencesse. Até que um dia (como em todas as histórias o volte face começa com um “até que um dia”) entrei num salão de barbeiro/cabeleireiro partilhado por barbeiros pachorrentos, abrasileirados e efeminados e por três cabeleireiras silenciosas, como que esmagadas pelas conversas de semi-machos dominantes. No meio delas um sorriso tímido mas convicto, adaptado, longe de intimidado, um sorriso de quem sabe que é aquele sorriso que trará clientes à sua cadeira. Cleo, a brasileira de cabelo ruivo e sorriso agridoce tornou-se a minha cabeleireira dos últimos anos. Começou pela piada do sorriso, passou pela arte de me domar os remoinhos, conquistou-me em definitivo pela conversa leve, levemente filosófica, a filosofia da vida na ponta de uma tesoura. Os próximos capítulos serão ocupados pelas palavras da Cleo, pela sua arte natural para nos fazer adorar conversar. A falta que nos faz a filosofia, meus amigos.

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publicado por bolaseletras às 18:20


2 comentários

De Teresa a 31.05.2013 às 12:57

Como em tudo na vida há que evitar a rotina, o hábito, a acomodação...

De vez em quando tens de revisitar e usar o barbeiro e dar um espaço entre ti a a Cleo.

Pela sanidade mental, a filosofia e também pelo cabelo.

Muito tempo com a mesma pessoa e já não há inovação.

É como pedires meio copo de água com a bica no café há 10 anos. Um dia apetece-te um copo inteiro e lá está o meio copo sem sequer o pedires. Nesse dia apercebes que entraste na rotina e que bebes o meio copo e fica a saber-te a pouco... ou queres o cabelo mais curto atrás e a Cleo diz "não dá já tentámos e não deu" e não tens a coragem de lhe dizer que não, nunca tentámos, eu trazia era esse do outro lado e agora apetece-me voltar a ter...


Lembras-te quando há tempos falámos de um amigo teu que tinha ido atrás de novos fogos?! E determinámos que o problema é a acomodação, a resignação?

Funciona (ou desfunciona) em tudo nesta vida, curta demais para tanta gente e experiência à nossa espera

Bom fim-de-semana!

Teresa


P.S. A primeira vez que cortei o cabelo em Portugal foi num barbeiro. Que havia na Morais Soares. Inesquecível como todas as primeiras vezes... ainda me lembro do cheiro e do esquisito que achei esses espaços terem senhoras que arranjavam as unhas aos senhores e lavavam as cabeças - a nossa Lisboa é mesmo castiça. Ainda acho um piadão quando passo por esses espaços (cada vez mais raros) que o tempo conservou imutáveis...

De bolaseletras a 31.05.2013 às 21:39

É verdade, Teresa, tudo o que é demais é fastio. Mas acredita que a Cleo sabe tornar o momento das tesouradas tudo menos monótono. Confesso também que no que toca ao cabelo sou um tipo conservador, raramente fujo do corte habitual. Mas o barbeiro é uma escola de vida, por mais estranho que pareça, pelo que não será esta a última tesoura a massajar-me o couro cabeludo;). Bom fim de semana!

p.s. - Experimenta cortar o cabelo em Macau, onde é impossível explicar como queres o cabelo. Isso é que é uma aventura!

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