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"Correcções" - A parede de silêncio

Sábado, 08.06.13

 

 

"Parecia que, em todos os motéis onde pernoitava, tinha vizinhos que fornicavam como se o mundo fosse acabar: homens com má educação e fraca disciplina, mulheres que riam entredentes e gritavam. À uma hora da manhã, em Erie, Pensilvânia, a rapariga do quarto ao lado guinchava e ofegava como uma prostituta. Estava a ser comida por algum indivíduo finório e desprezível. Alfred culpou a rapariga por ser fácil. Culpou o homem pela sua complacente confiança. Culpou ambos por lhes faltar a consideração necessária para manterem as vozes baixas. Como era possível que não pensassem, ao menos uma vez, no seu vizinho, incapaz de pregar olho, do quarto ao lado? Culpou Deus por permitir a existência de semelhante gente. Culpou a democracia por o obrigar a tolerá-los. Culpou o arquitecto do motel por ter acreditado que uma única camada de tijolo barato preservaria o repouso dos clientes pagantes."

 

Ruído. Todo o ruído existe para os atormentar. O mundo nega-lhes o silêncio, os intermináveis sons que os perseguem perfuram-nos até ao âmago de si. Desesperados, horrorizados, apercebem-se que o próprio sexo, esse momento de enlevo, é transformado em circo animalesco pelos fanáticos da poluição sonora. O ódio pelos sons humanos é o ódio de quem nada quer ouvir, só o seu silêncio, só a paz encerrada no casulo da sua existência. Franzen fez de Alfred, o patriarca da família das infindáveis correções, o homem que no fundo só queria o seu silêncio, o homem que odiava os sons, a voz, as palavras dos outros. Quem só se ouve a si mesmo e à sua verdade dificilmente consegue viver sem ódio, dificilmente consegue na vida cruzar-se com o amor.

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publicado por bolaseletras às 22:14


4 comentários

De Teresa a 09.06.2013 às 11:23

Mas olha que, também, não é amor os que berram tudo e de tudo aos quatro ventos.
Quando amas, e vives, o silêncio amas pelo menos um - tu. Os barulhentos nem isso podem amar.

O mundo cada vez mais alarve e barulhento sabe lá o que é o amor. Por isso fazem tanto barulho. O silêncio (é!) será uma coisa dolorosa por obrigá-los a "estar" com quem menos gostam - eles próprios.

Bom Domingo!

De bolaseletras a 09.06.2013 às 21:12

Esse é o lado bom do silêncio, o daqueles que apreciam estar consigo e com os seus sem alaridos ou gritarias. Depois há o outro, o de que todos os outros procuram silenciar por não suportarem outros sons para além da gritaria.

Bom feriado!

De Teresa a 10.06.2013 às 12:31

Eu, como podes ver - e se calhar algo espantosamente para quem me "ouve" - acredito na filosofia do silêncio e acho que estamos a criar (já) a segunda geração que foge dele como o dito da Cruz.


Eu pertenço à geração de noite adentro a debulhar milho, a rezar o terço e deixar os silêncios esticar - noites na aldeia, alguns dirão. Mas quando vim para Lisboa ainda não tínhamos Tv e a rádio desligava-se depois das notícias (depois de termos a tv começou-se a desligar depois da Gabriela. Quando morreu o Primeiro Ministro foi natural não ter tv e esperar... em silêncio... morre-se um hoje ao Domingo e a escandaleira que seria não ter splashes e galas de big brother ); as noites - antes de ir para a cama cedo - era ocupadas com os catraios a acalmar - a ler ou a jogar a qualquer coisa - e os adultos a de vez em quando reflectirem sobre algo. Hoje os serões são em grande maioria dos lares como morares debaixo de uma das tvs exteriores do Pavilhão Atlântico (o tamanho da dita também tem de rivalizar)... não pode fazer, ou gostar, de silêncio, quem vive assim. Quem chega ao escritório como se fosse para uma festa de anos ou um casamento. Tanto barulho e tanta felicidade - TEM de ser fingida e forçada - e isso vai sair caro, muito caro.

Se fizéssemos mais silêncio nem permitiríamos que ninguém nos mandasse calar. Vai lá, vai. Nem eles se atreveriam porque sabiam lá eles (os silenciadores) qual seria a tua reacção se não a alardeasses aos 4 ventos em todo o lado e com voz de Pavarotti?! Dando-lhes margem para modificar o que for preciso para levarem a sua a bom porto...

Enfim... calo-me. Não, não me calo, faço agora silêncio

"Acredito na disciplina do silêncio...
- E poderia falar horas sobre o assunto.

Bernard Shaw"

Bom Dia (para) Portugal .

Abraço,
Teresa

De bolaseletras a 11.06.2013 às 17:46

Teresa, apesar de parecer contrastante com o que escrevi, sou um grande adepto do silêncio, da ausência dos barulhos dos tempos de hoje, excessivos, demasiado artificiais. Mas tambémd etesto aqueles que tentam impor "o seu silencio", porque acham que só a sua voz deverá ser a ouvida. Sim, são fronteiras ténues, mas o mundo é mesmo assim.

Bom começo de semana, sem barulhos desnecessários;-).

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