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"O Mapa e o Território", de Michel Houellebecq

Quinta-feira, 05.12.13

 

Por entre a viciante asfixia da vida familiar, contornando ainda os crescentes afazeres profissionais, tentando também evitar o sugador de tempo de leitura que é esse maldito artefacto que é o smartphone que incessantemente despeja notícias e opiniões sobre um curioso cidadão, não é fácil parar para pensar, para apelar à memória e, assim, eleger o melhor livro que li em 2013, aquele que mais mexeu comigo. Percorro as estantes e é impossível não sorrir quando recordo o prazer que me deu ler “O Mapa e o Território” de Michel Houellebecq. Os livros dão-me prazer pela elegância da escrita mas, sobretudo, pelo conteúdo, pela vida que neles encontro, pelo que neles reconheço da vida que vivemos, que sonhamos viver ou na qual tememos reconhecer-nos.

 

Na obra em questão encontramos o pessimismo de um autor que tem em si essa marca da descrença, ao mesmo tempo que nos cruzamos com o estado de sufoco em que tantos de nós nos reconhecemos, aquela esmagadora pressão que a sociedade exerce sobre nós. Falo das sempre conturbadas relações entre gerações, dos constantes desencontros entre filhos e pais, falo das personagens em cuja pele entramos apenas para percebermos que estas não se reconhecem no mundo e na situação em que vivem, falo dos amantes que subjugam o amor à subida na escada profissional e económica, mas falo também de quem tudo tem e, ainda assim, não descobre a paz e a felicidade por entre os cifrões e a fama. O protagonista, um artista que transforma em arte uns meros mapas Michelin que 99% das pessoas nunca veriam como arte, mostra-nos que a beleza está onde menos esperamos encontrá-la, que dentro de nós temos essa capacidade única e mágica de fazer arte a partir do nada. E por falar em beleza e arte, termino com um trecho do livro em que o protagonista explana a sua opinião sobre o que é ou deve ser um artista. Inspirador…deixemo-nos inspirar e sejamos obedientes.

 

“Muitos anos mais tarde, quando se tornou célebre – e até, a bem dizer, muitíssimo célebre -, iriam interrogar Jed várias vezes acerca do que na sua opinião significava ser artista. Não iria encontrar nada de muito interessante nem de muito original para dizer, com excepção de uma coisa, que por conseguinte iria repetir em quase todas as entrevistas: na sua opinião, ser artista era acima de tudo ser uma pessoa obediente. Obediente a mensagens misteriosas, imprevisíveis, que, à falta de melhor, e não existindo qualquer crença religiosa, havia que qualificar como intuições; mensagens que nem por isso deixavam de se impor de maneira imperiosa, categórica, sem dar à pessoa a mínima possibilidade de se lhe furtar – sob pena de perder qualquer noção de integridade e qualquer respeito por si própria.”

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publicado por bolaseletras às 17:04


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