Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Taxi Driver

Quarta-feira, 21.10.09

 

 

Terão passado uns bons 2 anos desde a última vez que regressei a Taxi Driver. Gosto de escrever sobre filmes e livros a uma boa distância temporal do consumo dos mesmos. Pode parecer estranho, mas olhem que não. O que retemos à distância é o essencial do que apreendemos, do que a nossa memória decidiu guardar naquele cantinho que o tempo não apaga. De Taxi Driver guardei a raiva ponderada e autista de Travis, inesquecível De Niro, a sua capacidade de entrar racionalmente num mundo que a todos nós soa a caos e a incompreensão.

 

As razões dessa descida aos infernos que Travis encetou? As memórias de guerra do Vitename permitem perceber que Travis não ultrapassou a frustração de não ter abatido todos os Vietcongs que com ele se cruzaram. O mal persistiu pelas selvas do Vietname, o napalm entranhou-se no cérebro e na alma de Travis, regressando com ele para a sua América. Cada esquina da América é agora um quadro que reformata tudo o que Travis não esquece. A degradação moral é agora a capa sob a qual ressurge a podridão da guerra, Travis conhece as formas pelas quais se combatem os fantasmas que minam a sociedade. Em suma, a sua vida está presa a um espírito destruído, o resultado só poderia ser a destruição.

 

O filme é de uma violência difícil de classificar. Porque mostrá-la não era o seu principal objectivo, mas ela perpassa por todo o filme, sabemos que será nisso que irá desembocar. Acerca dessa aparente contradição, aproveitem-se as palavras de Martin Scorsese: "Na noite de estreia, toda a gente berrava durante o tiroteio do fim. Qunado rodei o filme, não tinha intenção de pôr o público a reagir aos gritos: «Isso mesmo, força, mata-os a todos!». A ideia era criar uma catarse violenta para que as pessoas dissessem para si próprias: «Sim, é preciso matar», para perceberem em seguida: «Meu Deus, não!», uma espécie de terapia californiana estranha". Para os menos sensíveis esta cena pode ser revista já a seguir (bendito youtube).

 

 

O início desta cena final é descrita por Pauline Kael, na The New Yorker de 1976, neste sopro de inspiração: "Quando Travis é provocado por um proxeneta, Sport (Harvey Keitel), o rufião tem tanta vontade de passar a vias de facto que não consegue conter-se; o rufia bamboleia-se em ritmo inquieto e contrastante com a imobilidade absurda de Travis. Numa cena deste género, Scorsese consegue uma qualidade próxima do transe; todo o filme é percorrido por uma vertigem."

 

Por último, Robert de Niro. Confesso, as minhas palavras nunca estariam à altura de descrever a grandeza da sua interpretação. Felizmente, as de Pauline Kael, uma vez mais, estão: "Diz-se que certos actores são recipientes vazios, preenchidos por papéis que eles sustentam, mas não parece que seja isso que se passa aqui com De Niro. Ele enveredou pelo caminho inverso. Utilizou o vazio que existe nele e foi procurar o seu nicho interno." 

 

Are you talking to me?, pergunta De Niro ao mundo.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por bolaseletras às 21:35





mais sobre mim

foto do autor




Flag counter (desde 15-06-2010)

free counters



links

Best of the best - Imperdíveis

Bola, livres directos & foras de jogo

Favoritos - Segunda vaga

Cool, chique & trendy

Livros, letras & afins

Cinema, fitas & curtas

Radio & Grafonolas

Top disco do Miguelinho

Política, asfixias & liberdades

Justiça & Direito

Media, jornais & pasquins

Fora de portas, estrangeirices & resto do mundo

Mulheres, amor & sexo

Humor, sorrisos & gargalhadas

Tintos, brancos & verdes

Restaurantes, tascas & petiscos

Cartoons, BD e artes várias

Fotografia & olhares

Pais & Filhos


arquivos

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

pesquisar

Pesquisar no Blog