Bolas e Letras
Era para ser sobre futebol e livros. Mas há tanto mundo mais, a mente humana dispersa-se perdidamente, o país tem tanto sobre que perorar, eu perco-me de amores bem para lá da bola e das letras: Evas, vinho, amor, amigos, cinema, viagens, eu sei lá!
Black fucking friday!
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Corre pula grita, transpira por entre os teus pares, empurra, gira, geme, ressuscita por entre a pilha de roupa gloriosamente empunhando aquela blusa de cetim a preço da chuva, esquece a lama e o frio enquanto anseias que as portas se descerrem e te entreguem ao paraíso, suporta o calor sufocante e fétido da avidez global, pensa na alegria dos petizes com a nova PS€€€, grita de alegria e de raiva, vocifera por entre as hienas famintas, chora se necessário, encerra o dia apenas e só quando as cortinas da volúpia gananciosa descerem em definitivo. Deita os miúdos, arruma o que resta da interminável guerra diária e familiar no palco da tua querida cozinha, desmaia no sofá ao lado do teu mais que tudo, luta contra ti própria e o viciante cansaço em busca de mais um inesquecível episódio da série da moda antes de babares a almofada, sonha com mais um dia irrepetível, martela mais um prego no caixão.
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A beleza oculta - Los Cabos, Mexico

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Formiguinha, formiguinha...é isto que buscas para a tua vida?

O Bolas não morreu, o Bolas nunca morrerá, pois viverá sempre nos nossos corações. Adoro clichés bacocos, não tanto quando adoro que me digam que têm saudades do Bolas. Sim, a puta da falta de tempo, sim, o trabalho perdido por entre urgências várias, sufocado por entre a voracidade das necessidades que se multiplicam como parasitas incómodos nos cabelos do meu desgraçado filho, contaminado por crianças a quem os pais não tiveram tempo de aplicar o shampoo anti-piolhos, porque a voracidade dos seus dias não lhes permite aquela meia hora de pausa em que o shampoo faz o seu mortífero trabalho. Corremos incessantemente, dedilhamos e-mails nervosos e repletos de gralhas, a perfeição já foi, hoje é a velocidade que conta, a sede de dados e inputs, reportes e pontos de situação, todo esse emaranhado de dados desconexos que nunca alcançarão o estatuto de informação hão-de satisfazer alguém, uma eminência impecavelmente engravatada na sua torre de marfim onde o sexo dos anjos não se discute, alguém que pensará que o seu dia foi imensamente produtivo, mesmo que nada de digno seja produzido pelas suas formiguinhas hiperativas. A imagem que encima este post de saudades dos tempos em que o Bolas de quando em vez tinha tempo para respirar é da cidade de Norilsk, na Rússia, fundada em 1935 como um gulag, situada a cerca de 240 km a norte do círculo polar ártico. O tempo parado, a doce indolência das crianças. Pergunto-me se as crianças terão de emigrar para Norilsk para terem tempo de ser crianças. É isto que queremos para nós e para os nossos filhos?
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A beleza oculta - Positano
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A beleza oculta - Brooklyn, Nova Iorque

"I'm from Brooklyn. In Brooklyn, if you say, “I'm dangerous”, you'd better be dangerous."
Larry King
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Diz que a Sara Sampaio também andou por Capri

Vivemos tempos em que o politicamente correcto impera. Uma das manifestações destes ventos de pureza e de comportamentos polidos e sem mácula percebe-se no extremo cuidado que deve ser colocado em tudo o que respeita ao belo sexo - o feminino. Piropos são conversa do diabo, abrir a porta para deixar passar a colega ou a vizinha é uma inadmissível demonstração da superioridade do macho ibérico, o bom e velho flirt é meio caminho andado para um processo por assédio. Assumo-me como um velho e clássico cavalheiro, daqueles que abrem a porta para dar passagem e coisas ainda bem mais ancestrais, como o não me sentar antes das donzelas. Este comportamento cavalheiresco não me impede de apreciar a beleza das mulheres, seja ela espiritual ou física. Idolatro mulheres inteligentes e com sentido de humor, da mesma forma que aprecio muito um belo palminho de cara ou um corpo de perigosíssimas curvas. Nada disso me fez alguma vez desrespeitar as mulheres, antes pelo contrário. E é isto, para o mal e para o bem, sem questões nem questiúnculas. Um bem-haja a todas e a todos.
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A beleza oculta - Santorini

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A beleza oculta - Capri

A beleza rodeia-nos, sufoca-nos e, incrivelmente, tantas vezes nos escapa oculta por desejos inconfessáveis. As maravilhas da natureza selvagem, das cidades esculpidas pelo homem diluem-se demasiadas vezes nos nossos instintos mais básicos. A luxúria remete a beleza para pano de fundo, uma mulher fisicamente irresistível impede-nos de apreender as qualidades intrínsecas que todo o seu ser encerra. Não basta olhar, é preciso ver. Não basta desejar o que está à vista, é preciso querer o todo. Inicia-se aqui, com a bela ilha italiana de Capri, uma série sobre a beleza oculta. Disfrutem.
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O cemitério de folhas

Olhava as letras como quem lê, mas sofria de uma profunda incapacidade de beber o prazer da leitura, da arte, dessa imitação da vida, da própria vida. Recordava outras leituras, vivas, partilhadas, orgias de palavras que inevitavelmente se diluíam na fogueira dos corpos. Entendia as memórias como a parte morta, doce ou amarga, da vida que os dias e os anos lhe tinham devorado. Sopravam-lhe que era possível viver de memórias, seguir em frente e sorrir com o terno abraço de quem já não o tocava, que era suficiente sobreviver gloriosamente com a lembrança daquele beijo. Ele abanava furiosamente a cabeça, recusava-se a viver na imobilidade, na triste dança das folhas mortas. As memórias já só lhe faziam sentido como um atalho para o caminho a percorrer. Rejeitava deixá-las morrer, melhor, insistia em impedi-las de viver. Enfrentava as memórias como D. Quixote desafiava os moinhos, louca e convictamente, tudo fazendo para as reviver, para que ganhassem nova vida, o seu desígnio era ressuscitá-las do cemitério de folhas.
Ela olhou para ele e sorriu. Sempre o mesmo adolescente borbulhento, sempre o mesmo tolo. E, ainda assim, por mais que o negasse, não conseguia deixar de o amar, mesmo que os seus conceitos de amor fossem, supostamente, distintos.
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Amor à primeira vista

Há aqueles dias, semanas, meses, em que um tipo deixa de ter algo interessante para dizer. Está-se tão embrenhado na vida que só se executa, anda para a frente, fecha dossiers, desenrola projectos, acorda putos, deita putos, monta móvel do Ikea, enche a bagageira até ao limite, despeja as malas para o velho casulo, lava a loiça, seca a loiça, zapping, mais zapping, a merda do Sporting que caminha em círculos infinitos de incompetência e imaturidade, a política nacional nas mãos do mestre da táctica, a política lá fora nas mãos de loucos furiosos ou de ursinhos fofinhos, o diabo a sete. Um gajo vai a ver e o que interessa é mesmo isto. A primeira vez que os lábios se encontram...
