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A Estrada - Cormac McCarthy

Sábado, 19.09.09

Volto aos livros, volto a Cormac McCarthy. Entramos por "A Estrada" dentro e entregamo-nos ao pior dos nossos pesadelos. A catástrofe natural que paira sobre as vidas de um Século XXI que ninguém sabe como acabará, apresenta-se na sua plenitude. Pai e filho caminham pelas estradas de um mundo desolado, sobrevivem por entre escombros de um mundo que já foi, abrigam-se do clima hostil, respiram a cinza que anuncia o esfumar da esperança. Mais alguns sobreviventes povoam esta história, personagens secundárias que revelam o pior do ser humano quando o que está em causa é nada mais do que sobreviver.

 

O desafio deste livro catástrofe é colocarmo-nos no lugar daquele pai e daquele filho. Saber que toda a força terá de partir de nós, contra o mundo e em prol de uma vida que só de nós depende. Nada mais existe senão a força do amor, a fogueira de calor que dele emana e nos permite continuar a lutar. O pai é o guerreiro incansável, o filho o Santo Graal que impede a desistência. As saudades de uma mulher que desistiu de lutar aliam-se às saudades de um mundo em que a vida não era uma prova de sobrevivência, tornando o peso da tarefa quase inumano.

 

As pérolas deste livro mergulham-nos numa dor difícil de apreender. Contudo, olhar para um mundo em chamas e envolto em nuvens de cinza poderá ser um alerta decisivo. Abrir os olhos pode salvar vidas. 

 

 

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publicado por bolaseletras às 12:48

Meridiano de sangue (pérola 3) - Ninguém joga a feijões, ninguém devia fazê-lo

Quinta-feira, 13.08.09

 

 

"O juíz sorriu. Os homens nasceram para jogar. Nada mais. Todo o garoto sabe que a brincadeira é uma ocupação mais nobre do que o trabalho. Sabe também que a excelência ou mérito de um jogo não é inerente ao jogo em si, mas reside, isso sim, no valor daquilo que os jogadores arriscam. Os jogos de azar exigem que se façam apostas, sem o que não fazem sequer sentido. Os desportos implicam medir a destreza e a força dos adversários e a humilhação da derrota e o orgulho da vitória constituem em si mesmos aposta suficiente, pois traduzem o valor dos contendores e definem-nos. Porém, quer se trate de contendas cuja sorte se decide pelo azar quer pelo mérito, todos os jogos anseiam elevar-se à condição da guerra, pois nesta aquilo que se aposta devora tudo, o jogo, os jogadores, tudo.

 

Imaginem dois homens a jogar às cartas que nada têm para apostar a não ser as próprias vidas. Quem é que não ouviu já uma história assim? Uma carta virada. Para um tal jogador, a laboriosa progressão do universo inteiro veio desembocar naquele momento decisivo que irá decidir se é ele que vai morrer às mãos do adversário ou o inverso. Haverá certificação mais segura do valor de um homem?"

 

 

Como está na moda dizer, já não há jogos fáceis nem a feijões. Não se joga sem objectivos na relva, perseguindo a bola, a baliza, ou o adversário, não se arrisca um passo na vida sem ter em vista uma vantagem ou um desiderato. Cormac McCarthy entranhou no oeste americano e na época do dente por dente, olho por olho, toda essa assustadora dimensão do homem como um predador de vitórias. Talvez esse espírito seja o que falte a esta nação e aos seus nativos de mansos hábitos. Um pouco de raiva, de tomates para arriscar, uma valente pitada de empreendedorismo agressivo na vida, no amor, no trabalho. Está a acordar, lusitana nação!

 

 

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publicado por bolaseletras às 22:10

Meridiano de sangue (pérola 2) - O desconhecido em que vivemos

Domingo, 02.08.09

 

 

"A verdade acerca do mundo , disse ele, é que tudo é possível. Não fosse o caso de vocês se terem habituado desde a nascença a ver tudo aquilo que vos rodeia, esvaziando assim as coisas da sua estranheza, e a realidade surgiria aos vossos olhos tal como é, um truque de magia num número de ilusionismo, um sonho febril, um transe povoado de quimeras sem analogias nem precedente imaginável, um carnaval itinerante, um espectáculo de feira migratório cujo derradeiro destino, depois de montar a tenda tantas e tantas vezes em tantos baldios enlameados, é tão indescritível e calamitoso que o espírito humano não consegue sequer concebê-lo.

 

O universo não é uma coisa ilimitada e a ordem que o rege não tem peias que, tolhendo-lhe os desígnios, a forcem a repetir noutro lugar qualquer o que já existe num dado lugar. Mesmo neste mundo, existem mais coisas que escapam ao nosso conhecimento do que aquelas que conhecemos e a ordem que os nossos olhos vêem na criação é a ordem que nós lá pusemos, qual fio num labirinto, para não nos perdermos. É que a existência tem a sua própria ordem e essa nenhum espírito humano consegue abarcar, sendo esse espírito apenas mais um facto entre tantos outros".

 

 

Depreende-se das palavras do juiz Holden que a complexidade do mundo em que vivemos é reveladora da insignificância do homem face ao que o rodeia. Pensar que apreendemos uma ínfima parcela do que é a realidade mais não é que afirmar o excessivo simplismo com que abordamos os fenómenos que a natureza nos apresenta. Cormac McCarthy criou em "Meridiano de sangue" um mundo paralelo próximo do realismo mágico, uma outra face do planeta em que a crueldade é apresentada como o lado mais instintivo e verdadeiro do ser humano. Simplificar é afastarmo-nos, apreender é aceitar a intangibilidade do mundo que desconhecemos.

 

 

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publicado por bolaseletras às 16:49

Meridiano de sangue (pérola 1) - O lado negro da criação

Segunda-feira, 20.07.09

 

 

"Um homem vê-se em palpos de aranha para entender a própria mente porque só tem a própria mente para entendê-la. Pode entender o próprio coração, mas não quer. E faz muito bem. O melhor é nem espreitar lá para dentro. Não é o coração de uma criatura que esteja no caminho que Deus lhe traçou.

 

Encontra-se ruindade na mais mesquinha das criaturas, mas quando Deus criou o homem tinha o diabo à sua ilharga. Uma criatura capaz de tudo, capaz de criar uma máquina e uma máquina para criar a máquina. E maldade que se perpetua sozinha durante um milhar de anos, sem ser preciso alimentá-la."

 

 

Cormac McCarthy desdobra a teia de personagens de "Meridiano de sangue" por entre as contradições da condição humana. Uma assunção em forma de quadro macabro de que a realidade que perpassa pela época, local e condições descritas no livro é a realidade da negra face do homem. O autor explora até ao tutano o buraco negro que vive em cada um de nós e que nos alimenta, muitas vezes injectando nas veias o veneno que nos destrói.

 

A natureza inclemente é o meio onde o homem habita e procura sobreviver, o próprio homem corrói e verga a natureza às suas necessidades supérfluas. Por outro lado, o homem é o predador do homem, a lei de dente por dente olho por olho nunca fez tanto sentido e nunca foi tão bem entranhada em nós que, passo a passo, receosos, vamos desfolhando as páginas deste pesadelo. Se precisam de algo forte, se pretendem fugir por momentos da redoma da monotonia em que a vossa realidadezinha pacificada vos envolve, abracem o "Meridiano de sangue". Não ficarão indiferentes, garanto.

 

Para saberem mais sobre esta obra única acedam à página oficial do escritor e consultem a secção www.cormacmccarthy.com/works/bloodmeridian.htm

 

       

 

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publicado por bolaseletras às 20:47

Cormac McCarthy - The lonesome cowboy

Segunda-feira, 13.07.09

 

 

Nascido em 1933, Cormac McCarthy é um escritor americano conhecido pelo seu estilo de vida gregário e, sobretudo, por ter escrito recentemente dois livros adaptados ao cinema Hollywoodesco (No country for old man e The road, este último creio que ainda não estreado). Em 2007 recebeu o prémio Pulitzer pelo livro "A estrada", tendo já recebido em 1992 o National Book award  por All the pretty horses.

 

Fazendo jus ao seu espírito de solitário vive agora no México, com a esposa e o seu filho de 8 anos (esta paternidade tardia inspirou-o na escrita de "A estrada"). Apesar de prezar a sua privacidade com afinco, acedeu, numa das suas raras aparições públicas e entrevistas, a participar no popularucho programa de Oprah Winfrey, na sequência da escolha efectuada por esta do seu livro "A estrada" para o seu Book club. No decurso da entrevista o escritor revelou que não conhecia nenhuns escritores e que preferia a companhia de cientistas. Abordou igualmente algumas histórias de vida descrevendo a extrema pobreza que enfrentou durante a sua vida como escritor.

 

Novamente desculpando-me com a falta de "quality time", confesso que de Cormac McCarthy só tive ainda oportunidade de ler dois livros. Para além do já referido "A estrada", o primeiro que li e que mais me impressionou pela sua qualidade e originalidade foi "Meridiano de sangue ou o crepúsculo vermelho no oeste" (no original, Blood Meridian or the evening redness in the west), livro datado de 1985. Nesta obra o autor narra uma road trip, uma fuga de um adolescente pelo oeste selvagem, rapaz sem nome conhecido por "the kid". McCarthy descreve as aventuras do jovem integrado no gang Glanton, bando de malfeitores caçadores de escalpes que ocupam o tempo a massacrar índios.

 

 

A personagem mais marcante do livro é no entanto o juiz Holden, uma figura maior que o livro, talvez o mais forte ser emergente de uma obra de ficção com que me deparei nesta aventura da leitura. Holden é demoníaco e terrivelmente inteligente, o que faz do seu projecto de vida dedicado à violência, à guerra e ao domínio do homem e da natureza, uma experiência de uma credibilidade assustadora.

 

Ler McCarthy levou-me a crer que alguns homens nascem predestinados para a escrita. Contudo, foi o próprio McCarthy que me desmentiu ao afirmar que não sabia porque começou a escrever e que não fazia ideia porque outros o faziam. Segundo ele, talvez estivessem aborrecidos, ou talvez tivessem sido mal sucedidos em qualquer outra tarefa. Bendito aborrecimento ou insucesso, digo eu.

 

 

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publicado por bolaseletras às 18:36





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